galinhas d'angola
Estava passando de carro pela avenida L2-Norte, na altura do Parque Olhos D’Água. Eu distante, lá longe dentro da minha cabeça, flutuando em compromissos, esquecimentos, procrastinadas, desfeitas, firulas e pendências em geral.
Foi quando duas galinhas d'Angola correram na minha frente, aparentemente, na tentativa de atravessar para o outro lado. Foi uma fração de segundo em que fui teletransportada para os meus quinze anos, jogando um velho game do Atari. Aquelas duas galinhas pretas vestidas de pois brancos, piscando seus olhinhos úmidos, com aquele pingente redondinho por cima do bico, impassíveis na dúvida que só a cabeça de uma galinha pode ter: se atravessavam a pista de uma vez ou ficavam ali, paradas na estrada, à espera da morte.
Desviando rapidamente, mas com todo o cuidado, também fiquei na dúvida - se abandonaria as pobrezinhas à própria sorte ou... Se faria uma boa galinhada no domingo. Olhei pelo retrovisor e vi que uma delas deu um passinho reticente - como suas centenas de pois - na direção da calçada. Acho até que olhou pra mim. E, confesso, eu sou um coração mole, que não consegue resistir ao apelo de um olhar tristonho. Principalmente vindo de uma galinha d’Angola.
Liguei para os bombeiros, a Zoonoses, o Ibama, a Polícia Florestal, até descobrir que nenhum órgão podia se responsabilizar por elas. "São animais domésticos, não temos como ir salvá-las." Então quem é que vai salvá-las? O único órgão que se responsabilizaria alegremente pelas duas seria o estômago de um pessoal que tá morando debaixo de uma árvore do outro lado da rua.
Uma preocupação a mais para a minha consciência abarrotada de princípios: responsabilizar-me pelas galinhas d’Angola abandonadas no asfalto (acho que Nelson Rodrigues deu um suspiro no túmulo por minha causa). Senti vontade de voltar lá e fazer o sacrifício de me tornar responsável, mudar a história dos bichinhos indefesos, protegê-los dos motoristas alucinados que rodam em alta velocidade por ali. Mas passou. Sei que a culpa vai de respingo a dilúvio quanto mais envolvimento houver. Eu já fiz a minha parte. E logo vou esquecer.
Sei que poderia ter parado o carro, dado uma espantadinha para as duas correrem pra dentro do parque. Mas vai que elas fogem para o lado oposto e são atropeladas. Vai que alguém bate no meu carro. Vai que eu sou atropelada!
Não se pode confiar em galinhas d’Angola. Esses bichos são um perigo!

3 comentários:
Ainda bem que ela só faz isso quando está longe de mim... Tá doido, sô! As galinhas, depois de tanta energia positiva, estão salvas, com toda certeza.
A Arca de Noé, na voz de Ney Matogrosso
"Coitada, coitadinha da galinha d'angola
Não anda ultimamente regulando da bola
Ela vende confusão e compra briga
Gosta muito de fofoca
Adora intriga"
...
e por aí vai!
Porra, isso aconteceu comigo igualzinho, mas eram as capivaras... Fiquei com o carro parado no meio da pista para chamar atenção, e as capivaras não sabiam se continuavam rumo ao parque ou se esperavam os filhotinhos que chamavam do outro lado da outra pista... Fiquei ali uns 15 minutos e a família acabou separada mesmo. As maiores entraram no parque e as pequenininhas ficaram no outro matagal. Dormi preocupadas com elas.
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