31 de outubro de 2007

a gincana




















Não sabíamos ainda, mas ela estava começando, secretamente, naquele exato momento. Um cronômetro misterioso disparava a cada vez que os guias diziam “vocês têm quarenta minutos para visitar todos os monumentos, tirar fotos e almoçar. Nos encontramos aqui no ônibus”. Ainda por cima, eles falavam em portunhol. Ou, pior, em espaguês. Descobri. Era um código.

Um deles se chamava Jesús. “Aquele que me seguir, encontrará o caminho”. Em verdade vos digo: fiquei preocupada quando alguém comentou “Jesús está chamando”. E respondi: “é cedo. Não é chegada a hora”. Todos os guias tinham nomes de anjos. Miguel, Rafaela... Tudo bem que um se chamava Alejandro. Mas, por quê?

Comecei a desconfiar quando, ao chegar ao hotel, na primeira noite em Barcelona, liguei a tevê do quarto e começava, naquele segundo preciso, o primeiro capítulo da última temporada de Lost. E eu ainda não tinha visto. Foi bastante esclarecedor para mim.

Outros fatos enigmáticos continuaram a ocorrer, sucessivamente, naqueles dias. Minha mãe estava saindo de uma loja de departamentos no centro de Madri, às oito da tarde – é, oito lá é tarde –, as ruas tão lotadas que não dava pra ver o chão. Por minutos a perco. Procuro com os olhos, de meu mirante privativo e, ao distingui-la, de costas, casaco branco no meio da multidão, me aproximo e encontro o improvável: uma joaninha rechonchuda, caminhando tranqüila pela superfície de lã. Uma joaninha. Só podia ser um bônus.

Em todos os lugares aonde íamos, mal colocávamos o pé fora do ônibus turístico, sinos de igrejas badalavam. Acho que era um aviso da organização. Ou então, só colocávamos o pé fora do ônibus em horas cheias e meias.

Visitamos o Escorial, que é ao mesmo tempo mosteiro, igreja, palácio e túmulo de Felipe II da Espanha, erigido em homenagem a San Lorenzo “aquele que morreu na parilla” segundo a aparentemente inofensiva guia. Ela repetia a informação a cada minuto e fazia questão de mostrar as grelhas de churrasco representadas em detalhes da decoração. Muito revelador. Chegamos ao lindíssimo altar-mór quando soaram os acordes do órgão secular, obra-prima do gênero. A mulher virou-se para nós, solene, e disse: “incrível. Magnífico. Este órgão quase nunca é tocado”. E enfatizou: “quase nunca”.

Numa cidadezinnha chamada Évora, nossa primeira paragem em Portugal, nossos guias nos fizeram andar um bocado na companhia deles, para depois nos largar no meio de uma praça e condenar: "São quarenta e cinco minutos aqui. Vamos nos reencontrar lá no ônibus". Para o Minotauro seria moleza. As labirínticas ruelas nos conduziam a becos sem saída e lugar nenhum. Matei a charada. O lugar mais comentado pelos guias no caminho foi a tal Capela dos Ossos. É pra lá que nós vamos.

O nome "Capela dos Ossos" era literal. Na entrada, a mensagem de boas-vindas: “Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos". Maravilha. Minha mãe se sentiu mal lá dentro. Milhares de crânios, tíbias e perônios, rádios e cúbitos, costelinhas, carpos, metacarpos e falangezinhas, entre outros, davam o toque bizarro à decoração. Ouvi um sussurro com a voz de Jack Pallance no meu ouvido: "acredite... Se quiser".

Entre todas as experiências pouco convencionais, também não foi pouco estranho que eu e mamãe tenhamos sido expulsas do Oceanário de Lisboa no meio do passeio porque Vladimir Putin, presidente da Rússia, tinha ido visitar os peixinhos exatamente naquele dia, acompanhado de um exército da KGB – claro que ainda existe – que mais parecia os homens de preto, vestidos de terno e óculos escuros? Bem que quando chegamos achei esquisitos os barcos da polícia, o pessoal do serviço de inteligência portuguesa (ai, Jesús!), os helicópteros imensos e as metralhadoras carregadas pra todo lado. Peixinhos... Sei.

A última prova começou na Torre de Belém. Fomos severamente informados: “neste Café aqui ao lado há o único banheiro desse passeio de duas horas. O único. Depois não digam que eu não avisei...” Nesse instante, senti que foi dada a partida. “Vocês têm trinta minutos para conhecer a Torre, tirar fotos, e voltar para o ônibus a tempo para o Mosteiro dos Jerônimos. Ah! E não se esqueçam da sala de banhos...” Percebi um leve sarcasmo nessa frase final.

Antes da Torre, corri para o banheiro, afinal, ele era único e bem disfarçado. O monumento
eu já conhecia e ia ficar lá, pelos tempos afora, se mostrando pra todo mundo. Dava pra tirar uma foto de longe. De mais a mais, naquele momento específico, nada era mais monumental que o banheiro.

Na corrida descobri que o acesso era gratuito somente àqueles que tomassem pelo menos uma bica, ahn, café expresso. Droga! Filas enormes no balcão; meus concorrentes saíram na frente. Isso não vai ficar assim. Perguntando, descobri uma máquina que vendia fichas para uso exclusivo do troninho. Cinqüenta centavos. Cinqüenta centavos? Cadê essa moeda maldita? Vasculha, vasculha, vasculha!

Minha mãe veio salvar a pátria com um euro e direito a duas descargas consecutivas. Na hora de puxar a fichinha, veio um angolano correndo. “Não, não, não usem isso não!” Pronto. Mais surpresas da engenhosa competição. Que é que você quer? Aonde você vai? Volta aqui! Não usa por quê? Desgraçado. O angolano fugiu correndo de novo. Do jeito que a coisa está, acho que vou trapacear.

Funcionário do Café, ele volta logo, com uma ficha personalizada, encaçapa o euro mais que depressa e passa duas vezes o código de barras que libera a entrada. Entendi tudo. Decifrei a senha. Olhei para meus adversários na bicha, ahn, fila, e tive vontade de mostrar a língua. A peça final estava garantida. Mas nada se encaixava ainda.

Cumprimos todas as tarefas, com louvor. Ainda busco pelo prêmio, mas algo me diz que ele já está conosco. Estamos aqui: vivas, sãs e salvas, com todas as relíquias escondidas nas retinas e nas máquinas fotográficas.

14 de outubro de 2007

Odeio. Adoro.

Levantei de mau humor.

O telefone tocou às dez da manhã e, de repente, me dei conta de que já eram onze. Era a minha tia, querendo dar os parabéns. Odeio aniversário. Odeio acordar tarde. Odeio horário de verão, ainda mais na primavera.

Tive insônia. Acho que devo ter dormido de fato às quatro da madrugada, digo, cinco. A geladeira estava completamente vazia. A única sobrevivente, aliás, já nas últimas, era uma maçã. Não sei o que me deu que comprei essa maçã. Odeio maçã.

Eu tenho que arrumar a mala. Viajo amanhã e a minha casa está uma bagunça, que é algo que odeio. Vou com a minha mãe para a Espanha, de excursão. Odeio seguir guarda-chuvas. Tive dor-de-barriga só de pensar em entrar num avião. Quanto mais rodo o mundo, menos gosto. Odeio avião. Não tem ninguém pra levar a gente e vamos ter que ir para o aeroporto de táxi. Odeio táxi.

O Gato não está aqui e sinto falta dele e de suas reclamações. O costume me faz ficar na espreita, andando na ponta dos pés, com medo de pisar no rabo dele a qualquer momento. Tropecei no ratinho de brinquedo e meu coração disparou. Odeio essa sensação.

Fui almoçar fora, só eu e minha mãe, porque meu pai come num restaurante natural que eu realmente odeio, e não há data especial que o demova dessa idéia fixa. O peixe tinha algumas espinhas. Odeio espinhas. Todas elas.

Hoje vai passar na televisão uma droga de jogo de futebol do Brasil, contra não sei quem, eliminatória da Copa do Mundo. Odeio televisão. Odeio futebol. Odeio os fanáticos por futebol, que ficam berrando e soltando rojão no domingo. Odeio domingo.

Eu odeio pensar naquele Smurf Ranzinza (Smurf... Odeio lembrar dessas coisas que mais da metade do planeta nem sonha que um dia existiram), que vivia repetindo “eu odeio” e associar essa diminuta criatura azul a mim mesma. Odeio o Lula Molusco. Odeio o Patolino. Odeio o Zangado da Branca de Neve. Odeio maçã. De novo.

Estou com TPM, sim, aposto que foi isso que você pensou (odeio quem pensa isso). Mas essa é apenas uma das milhares de pequenas engrenagens da imensa e complexa estrutura que move o meu mau humor.

No momento, acho que só tem uma coisa que eu adoro (e preciso muito – além de chocolate e sexo, é claro): férias. Féééééériaaaaaaasssss!!!

10 de outubro de 2007

furada

Cheguei em cima das 11, um tantinho apreensiva assim. Afinal, fazia muito tempo que já não acreditava mais nessas coisas. Terapias alternativas, meditação transcendental, iridologia, abdução, sei lá mais o quê. Joguei tudo no mesmo saco. Sofismas. Nada zen me comove.

Agora estava ali, feito uma besta, descrente que nem cartesiano, na ante-sala decorada com aguinha jorrando na fontezinha de pedra, circulinho de yin-yang na parede, musiquinha new age tipo Enya de fundo, caixinha com areia e bolinhas de cristal pra desenhar imagens do subconsciente com o rastelinho. Ahhhh!

Tudo bem, eu queria provar pra mim mesma que poderia estar enganada. Esse negócio aí, criatura, vem de uma cultura milenar! Conhecimento de séculos, percebe? Deve fazer sentido... Pra alguém. Pior que isso seria a fisioterapia, os remédios pra dor. Até que gosto da minha tendinite, acho que é charmosinha, mas ela já estava ficando exibida demais. O medo de pagar um mico foi menor e, apesar de tudo, o plano de saúde estava pagando. Não o mico. A consulta. Talvez os dois.

Olhava para os lados, cruzava e descruzava as pernas, balançava os pés, conferia o relógio, “se demorar mais um minuto, voumembora”. Sim, mais um minuto e o ridículo que eu não queria sentir - mas berrava aqui dentro - ficaria insuportável.

E pareceu até que o escândalo tácito tinha sido ouvido. A terapeuta abriu a porta cinco segundos depois. Senhora bonita, loira, falava um português perfeito, muito diferente do velho chinês de barbas brancas até o pé que eu esperava encontrar. Dizia-se acupunturista.

Ela perguntou tudo da minha vida, feito homeopata. Será que vai diluir as agulhas em água numa proporção de um pra mil? Aí pediu pra ver meus pulsos, os dois juntos, e me mandou mostrar a língua. “Com prazer”. Lancei o olhar nas anotações e deu pra ver que ela escrevia “língua pálida e trêmula”. Pálida e trêmula? De músculo mais vigoroso do corpo humano, transformou-se num Pincher. Que queu tou fazendo aqui?...

Começou a tortura chinesa. “Dói?” Ai. “Dói?” Aaai... “Dói?” Aaaaaaiii!!! Descobri que tudo dói. Mas pensei que isso fosse culpa do ácido lático. Pega agulhinha e tuf! Nas costas. Depois outra, outra e mais outra. Umas dez. Vinte. Depois da oitava pontada perdi a noção. “Agora deita”. Deita? Como assim? Eu não sou faquir não, dona! “Não, não. As agulhas estão atravessadas. Pode vir”. Atravessadas, hein?... Ninguém tinha me falado sobre isso antes. Agora sei como São Sebastião se sentiu.

Deitada lá, com os eletrodos nos pés e nas mãos... Prrrrr... Tuc-tuc-tuc... Prrrrr... Tuc-tuc-tuc... Prrrrr... Tuc-tuc-tuc... Devia parecer um misto de Hellraiser com a noiva do Frankenstein.

Dizem que há quem relaxe – e durma! – enquanto fica ali todo espetado. Mas eu, furadinha de cima a baixo, com a insistência do BG de mantra nos ouvidos, claro, comecei a pensar besteira. E se esse prédio pega fogo? Eu estou aqui deitada de calcinha e sutiã, com agulhas até no crânio. Acho que vi um vídeo desses na Internet outro dia. Saio correndo pela porta desse jeito? Eu tenho sutiãs mais bonitos! E se as agulhadas atingem alguma artéria importante? Será que pode ser perigoso? Rolar uma hemorragia? E se esse aparelho aí entra em curto e me dá um choque? Qual será a voltagem desse bagulho? Ela não falou quanto tempo vou ter que ficar imóvel aqui!

Vinte e nove minutos e trinta e quatro segundos mais tarde, a terapeuta está de volta. Me livra dos eletrodos, dos fios, das agulhas todas, menos uma, dolorosamente descoberta na hora de vestir a blusa. Uuugh... Acho que a senhora esqueceu algo nas minhas costas... “Hihihihihi! É mesmo...” Hihihi. Aposto que uma ou outra devem estar cravadas embaixo da minha pele até hoje.

Para finalizar, sementinhas nas orelhas, fixadas com um esparadrapo cor da pele - não sei de quem - mais imperativo que Superbonder. “Aperte umas quatro vezes por dia. E só tire na próxima consulta”. Sim, senhora. Próxima consulta...

Saí do consultório me sentindo ridícula. Minhas orelhas latejavam e eu nem conseguia mais avaliar se alguém estava falando mal de mim ou não. Por via das dúvidas, mordi a gola da blusa com força. Nessa, quase esqueci o elevador e saí voando pela janela, como o Dumbo. Parecia que todo mundo estava sim, falando mal dos canteiros nas minhas orelhas.

Bem, dos males o menor... Tomara que sejam gérberas. São as minhas favoritas.

6 de outubro de 2007

as palavras certas

Drummond,
Se você estivesse aqui hoje
Esse nosso mundo cinzento e triste
Teria pelo menos
A cor e o conforto das palavras certas.

24 de setembro de 2007

segundo conto: ratos e ratos

Roc-roc-roc-roc-roc... A roedura não parava. Sons de patinhas correndo de um lado para o outro. De vez em quando, uns chiadinhos trocados, como se fossem indicações de tarefas a serem executadas. Muito engraçado! Roc-roc-roc-roc-roc... Pareciam até trabalhadores empenhados na concepção de um objetivo comum, operários incansáveis no fervor ininterrupto do dever. Não se mostravam, os tímidos, mas o barulhinho que faziam na labuta dedicada se ouvia na casa toda. Roc-roc-roc-roc-roc...

Por isso, há semanas que Ed não conseguia dormir. De manhã, via bostinhas, pêlos, pedacinhos mínimos de madeira roída por todo o lado – vestígios dos invisíveis. Devia engolir um monte desses dejetos nos momentos em que ressonava, babando exausto da insônia, de boca aberta. Mas ele se perturbava muito menos com a sujeira que com o saber dos bichos ali, como que conspirando, a noite inteira. Já estava ficando paranóico. Logo ele, que achava esse negócio de paranóia uma frescura.

Ednaldo era um cara que a gente pode chamar de repulsivo. Além de grosso, era porco, com uma vocação natural para a sujeira. Na construção onde trabalhava, era conhecido pela alcunha de “Fed”. Ninguém queria ficar muito perto dele – os colegas tinham medo de levar um coice ou pegar umas pulgas. Chegava em casa daquele jeito; banho, que é bom, nada. Pelo menos não tinha amigos, nem parentes próximos; morava só, num sobradinho desmontando, de um subúrbio pouco familiar da cidade. A casa inteira cheirava mal, fedor acre de descaso, podre, azedo, mofado, tudo junto.

Mas Ed vivia bem, dentro da sordidez comum a seu dia-a-dia. Ele não se importava com nada. Até que, uma noite, enquanto palitava as sobras do jantar nos dentes com a ponta de uma faca, ouviu um barulho esquisito. Vinha da embalagem de alumínio do prato feito de anteontem, que ainda estava no chão, perto da lixeira transbordando mais de duas semanas de porcariada.

Num súbito interesse, levantou o olhar. O recipiente se mexeu. Ednaldo aproximou-se, na espreita. A quentinha pressentiu o perigo e aquietou-se. De um pulo, Ed levantou a embalagem rapidamente e descobriu: era um rato enorme de gordo. O bicho saiu correndo apavorado – acho que ficou enojado da visão –, mas Ed não podia deixá-lo escapar. No impulso, atirou a faca e acertou em cheio o ventre do animal, que caiu estrebuchando num guincho sofrido e estridente.

Ed chegou mais perto para ver o resultado de sua obra. Puxou a faca. A criatura triste revirava-se na agonia, banhada em sangue quente. Com a maior satisfação, Ed viu saírem daquela barriga uns dez fetos. “A cretina da ratazana tava prenha! Ia encher a minha casa de gabiru, a desgraçada.” Alguns dos recém-nascidos pareciam estar vivos. Contorciam-se no meio de um muco repugnante, desesperados pela vida. Não adiantou. Um pisão os esmigalhou todinhos. Rindo-se, Ed olhou para a sola do pé. “Tão pensando que iam escapar, otários?”

Roc-roc-roc-roc-roc... Desse dia em diante, perdeu o sossego que tinha – uma vez que a companhia das moscas já não o incomodava há tempos. “Não agüento mais essa praga na minha cabeça!” Num vaivém incessante, os roedores continuavam seu labor. “O que será que tanto fazem, esses diabos?” Roc-roc-roc-roc-roc... Numa intrigante obstinação, os ratinhos tocavam a empreitada, sem recear nem um pouco as ameaças daquele sujeito asqueroso. Se duvidar, até se divertiam com isso. Agora, o forro do teto do sobrado era o palco principal do espetáculo. Curioso... Às vezes parecia até uma orquestra, tão ritmada e constante! Fosse Ed uma pessoa menos rude, teria notado a beleza da execução. Roc-roc-roc-roc-roc... “Acabem com essa zoeiraaa!”

Farto do ruído interminável, Ed resolveu contra-atacar. Arrumou umas dez ratoeiras e colocou-as em todos os cantos possíveis. Passados uns dias, viu que não adiantava, era como se nada houvesse: estranhamente, foram todas ignoradas. Aquele queijo fétido ficava ali, apodrecendo, de ração para as baratas engordarem. “Merda”, vociferou Ed, em seu costumeiro palavreado. “Ainda fui gastar dinheiro com rato!”

Arrumou, então, um gato vagabundo, com a incumbência de exterminar os invasores. Mas o felino não agüentou, nem os maus tratos nem as refeições – restos do Ed. Certamente, algumas lixeiras do bairro tinham coisa melhor. O bichano foi namorar em cima do muro e fugiu de vez, não sem antes colaborar com a percussão dos incansáveis roedores cantando uma melodia tortuosa durante a noitada. “Tá mancomunado com os ratos, imbecil? Vai! Passa fora, porqueira”, praguejou Ed, atirando um sapato pestilento no bicho.

Roc-roc-roc-roc-roc... “Me deixem em paz!” Começou a achar que estava ficando maluco. “É isso que vocês querem! Me enlouquecer!” Roc-roc-roc-roc-roc...

Já era dia claro quando Ed fechou os olhos.

Assim que o homem adormeceu, os ratos silenciaram, pela primeira vez. Logo começaram a sair de suas tocas e, em pouco tempo, um bando imenso correu para fora do casarão, em plena luz do sol. Dezenas deles: grandes, pequenos, rechonchudos, magrelos, saíram aos trambolhões, por cima uns dos outros, numa debandada em desvario. Pessoas na rua gritaram, mulheres fecharam portas e janelas. Parecia uma praga do Egito, que o mundo ia se acabar, disseram alguns. Mas os pequeninos queriam apenas se esconder de novo, desaparecer na escuridão fraternal de um bueiro, libertos, para sempre. Tinham terminado, enfim.

De repente, ouviu-se um grito lancinante de pavor. Um estrondo terrível sacudiu a rua toda. A poeira subiu alto. Chamaram os bombeiros, que demoraram muito a chegar. Os vizinhos nem lamentaram tanto. “Casa velha, era questão de tempo acontecer uma tragédia”, disse um. “O sujeito que morava ali não cuidava de nada, o lugar ficava um lixo, abandonado aos ratos” concluiu outro. “Que Deus o tenha. Ainda bem que alma não fede”, finalizaram, com mal disfarçados sorrisinhos. Os seres humanos sabem ser insensíveis à desgraça alheia.

Mas os ratos, não. Unidos, conhecem a força que têm juntos, para perpetuar a espécie. Precavidos, se preservam. Só gostam de passear fora dos esgotos à luz do luar, quando conseguem relaxar, se esquivar da perpétua perseguição. É assim que eles dissipam suas dores de excluídos da convivência pacífica com os outros animais, condenados que são pelo estigma da imundície que carregam. Isso, até o dia em que se cansarem de assumir a escória da Terra. Inteligentes como são, seriam capazes de tudo.

10 de setembro de 2007

primeiro conto: o jardim

(Este conto participa de um concurso. do Núcleo de Literatura da CD. O final já existia desde muito; estava escrito aqui no blog)

Pontinhas de galhos ressequidos denunciavam os bulbos que dormiam e, sem querer, saltavam da terra escura exposta ao chão cru. As forquilhas que desejaram ser brotos foram deixadas ao acaso do tempo, esquecidas nos canteiros desfeitos em abandono. Havia muitas outras coisas que se fazer ali, antes de se pensar em flores. O que um dia foi visto como jardim era agora um espelho perfeito para o recinto de tantos aflitos.

Casa de repouso era um epíteto ameno para o sanatório de paredes forjadas sobre pedras frias. Apesar de tudo, era um lugar limpo e arejado, como poucos naquele tempo. Lá se sofria e se orava. As freiras passavam de um lado para o outro em suas vestes monótonas, cumprimentavam-se, apressavam-se em cuidar de seus doentes. Chamavam os quartos de “celas”.

Era verão e eu gostava de caminhar quando havia luz e calor. Sonhava em sair daquele prédio insípido para ver de perto o verde dos ciprestes do outro lado dos muros, mas não me deixavam. Queria afastar-me dos tons de cinza que venciam o cubículo de ângulos tortos onde tentava dormir às noites. A minha vida inteira já havia sido assim. Triste, pálida, sem cor.

Tinha trinta e seis anos. Não conheci quem quisesse comigo compartilhar uma família. Perdi a chance de ser mãe. Os meus, todos se foram cedo e, sozinha, envelheci. Escaparam-me a razão e a vontade de ser. E minha existência incolor começou a pedir insistentemente o vermelho do sangue. Obedeci. Meus pulsos ainda ardiam quando acordei, muito longe de casa. Os vizinhos se apavoraram. Pensaram que eu estivesse louca.

Mas eu não temia os mortos – que me lembre, nunca temi. Ao contrário, identificava-me com eles, sentia um carinho cúmplice, quente e fraterno. Eu queria essa proximidade. Eram eles que me protegiam da escuridão noturna, quando os pesadelos visitavam os dementes. Eram os gritos que me aterrorizavam. Os loucos embarcavam em seus sonhos ruins com a intensidade da razão que nunca tiveram.

Um deles - acho que por esse motivo - não dormia. Varava a penumbra iluminado de velas equilibradas, que traçavam em seu rosto o aspecto da alma atormentada. Eu sempre o via sair. Sumia, arrastando suas correntes pelas trevas; só voltava quase ao amanhecer. E assim, amante dos fantasmas como eu, passei a amá-lo também.

Soube que tínhamos a mesma idade. A princípio, lembro-me bem, pareceu-me apenas mais um espectro, como todos os outros, vagando pelos corredores desbotados. Mas em pouco reparei melhor: o homem trazia no corpo a marca dos pigmentos criadores. Mãos, calças, casaco, chapéu. Às vezes até a barba exibia um respingo insólito. Ele era um pintor! Cerúleo, Cádmio, Cobalto, Ocre, Nápoles, Carmim. As tintas denunciavam o ofício e o faziam cheirar forte por isso; o fedor de Saturno a gotejar veneno em suas idéias.

Cheguei a ouvir cochichos de que era perigoso. Vez ou outra, jorravam de seu olhar ácido uns espasmos de violência incontida, explosões da galáxia distante que só ele conhecia. Eu sei. Os tentáculos de luz das estrelas queriam agarrá-lo e levá-lo para o outro mundo. Mas tinha medo de ir. Gritava e se contorcia em dores, no desespero da dúvida. Dentro de minhas próprias dúvidas, observava de longe o lamento das matizes vivas.

O que mais me intrigava, porém, é que o homem estranho se abandonava todos os dias diante de um ponto fixo do jardim morto e ficava lá, por incontáveis horas de sol e vento, sentado num banco duro de ferro, admirando o nada. Deleitava-se na expressão do solo nu, levantava as mãos e pintava uma tela invisível, como se estivesse enxergando contornos no vazio. E se mostrava assim, em êxtase, por tudo o que os outros não podiam ver. Ele, tão estranho quanto eu, pensei.

Até que, num dia de manhã luminosa, levantei-me mais cedo que todos. Foi o sol que me despertou e me tomou pela mão até o ar fresco lá fora. Respirei muito fundo e senti o prazer das batidas de meu coração, mostrando-me que estava viva. Foi quando, à distância, percebi algo diferente.

Em frente ao banco de ferro, as íris irrompiam cachos e botões. Não podia acreditar naquilo. Até ontem, o que existia era o terreno puro, sem cuidado, desfalecido. Agora, mil folhas polpudas espichavam seus bracinhos como que espreguiçando, acordadas para o dia e para a luz. Tons de violeta e azul, com miolos amarelos, flores cheias avançavam em pétalas para dentro de minhas pupilas incrédulas. Sentei-me e fiquei assim, levada pelo fascínio de um jardim recém-nascido, imaginando se, o tempo todo, ele não estivera ali, diante de mim.

- Você está vendo aquela flor branca?

Nunca tinha ouvido uma voz tão serena. Havia sim, uma única flor branca, solitária, entre todas aquelas cores. Senti-me feliz. A lembrança dos urros insensatos daquele homem dissiparam-se para sempre no entremeio das nuvens poucas do céu.

- Sim.

Uma revoada negra atravessou o pátio do hospício.

- Aquela flor branca sou eu.

Fiquei a admirar a solidão de um entre tantos iguais. Pela primeira vez, o artista colocou em mim aqueles olhos singularmente tristes:

- Você acha que o jardim de íris existe de verdade?

E eu respondi, com as íris brilhando:

- Não, Vincent. Acho que não.