Mostrando postagens com marcador Crônicas de Viagem. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crônicas de Viagem. Mostrar todas as postagens

9 de novembro de 2009

o mundo num copo d'água

Coloquei o globo terrestre num copo d'água
Feito uma dentadura que observa,
Em meio a muxoxos de borbulhas,
O mundo distorcendo-se lá fora.
Flutuações dentifrícias
Num dia de devaneios banguelas.

Coloquei-o e o esqueci lá.

22 de março de 2009

el camino al caminar

Eu gostava de caminhar pelo Malecón. Gostava de ver aquela avenida beira-mar lindíssima meio abandonada, com seus prédios desbotados, querendo cair, mas sem muita motivação. Ali sentia-me verdadeiramente no passado, lá pelos fins dos anos 50, que foi quando o tempo parou em Cuba. Das janelas sem varandas, quase nenhum dos habitantes olhava, já sabidos e enjoados que estavam da paisagem que, apesar de divina, não enchia a barriga de ninguém.

A praia de La Habana não tinha areia. Somente pedras, o muro de contenção e a água azul-nervoso, se debatendo num desejo louco de arrastar aquelas construções decadentes para o fundo. A brisa não havia. Era um vento forte, um vento que descabelava tudo, principalmente nas temporadas ciclônicas, em que ele quase me levava pelos ares. Mas eu já levitava. Sentia o gosto de sal perfumado, o cheiro de mar de quando eu era criança, o olhar de filme antigo nos passos arrastados daquela gente que sorri.

Toda hora passava um calhambeque fazendo barulho ou um cadillac rabo-de-peixe soltando fumaça preta fedorenta que empesteava tudo. Os táxis Mercedes de luxo também, esses sim, sem deixar um rastro de ruído sequer. Silenciosos, abençoados com ar-condicionado, carregavam os endinheirados que se hospedavam no Habana Libre, se banhavam na Varadero paradisíaca, zanzavam pela linda Habana Vieja, dançavam salsa na Tropicana e depois de dez dias no país voltavam pra casa achando que o comunismo deu certo.

Nos fins-de-semana, aquele passeio público se enchia de namorados. Dezenas de trios de músicos percorriam o caminho com violão, flautinha e bongô – os instrumentos variavam –, e se agarravam aos turistas e aos amantes, esperando ganhar uns trocados. Cantavam sempre as mesmas músicas românticas que, um dia, apesar de gostar delas, cansei de ouvir. “Esto no puede ser no más que una canción... Quisiera fuera una declaración de amor... Romántica, sin reparar en formas tales... Que pongan freno a lo que siento ahora a raudales... Te amo, te amo, eternamente, te amo...”

Tenho saudades das tardes de sol no Malecón em Havana.

2 de março de 2009

peter pan




















Esta foto (clique nela para ampliar) que tirei no Kensington Gardens foi selecionada para compor a sexta edição do "Schmap London Guide", guia online da cidade de Londres. Para acessar o link direto:

http://www.schmap.com/london/toppicks_attractions/p=528/i=528_54.jpg

Também, rodei tanto por lá sozinha que já estava mesmo posando de guia! YES!

(Aproveitando: mil beijos para Fábia e Tó, que cuidaram de mim quando estive lá! Me senti a própria rainha da Inglaterra na casa deles!)

22 de janeiro de 2009

morango e chocolate

Assisti a "Morango e Chocolate" e fiquei fascinada com aquele lugar. Agora eu precisava tomar sorvete de morango e chocolate na Coppelia, senão meu filho poderia nascer com essa cara. De morango, de chocolate, de sorvete ou de Coppelia. Vivia um desejo alucinado de encarar a fila, sentar naquela mesona enorme e torcer para que os sabores do dia fossem morango e chocolate. É que ali não tinha querer. Eles serviam o sabor que tivesse no dia.

Anos depois, fui até lá.

Nessa tal fila, tinha de tudo. Todo o tipo de gente estranha: putas de sapatos de plataforma, crianças de uniforme de escola, trabalhadores braçais, avós de alguém, turistas branquelos de óculos escuros, estudantes fazendo farra. Era tanta gente que dava mais de uma volta no quarteirão. O último podia enxergar o primeiro do seu lado. Alguns levavam suas próprias colheres, o que me fez pressentir que talvez lá dentro todo mundo compartilhasse dos mesmos talheres, como manda um bom comunismo, conjugando babas das mais diversas origens.

Mesmo sem colher pessoal, fiquei lá, por quase duas horas, tostando no sol. Ainda dei essa falta de sorte, de ir num dia de intenso calor. Mas havia todo o charme envolvente da situação, que me dava forças para insistir, ainda que suada e queimada.

Entravam na sorveteria grupos de vinte, se não me engano. O negócio era como uma corrida. As pessoas sentavam, os sorvetes eram servidos e havia um tempo para comer, senão tiravam as taças antes que terminassem. Pelo menos a brincadeira saia barata. Duas bolas custavam um peso cubano, ou seja, praticamente nada.

Quando estava bem perto, algo como a sessenta pessoas do início da fila, alguém saiu dizendo que só tinha sabor baunilha. Foi uma decepção terrível. Baunilha?! Pensei muito e resolvi desistir. Depois de todo o esforço, não aguentava mais aquele sol inteiro só pra mim, um sacrifício desproporcional à descorada baunilha. Voltaria, num dia frio, chegaria mais cedo, sei lá.

Foi quando ouvimos que a barraquinha que havia em frente à Coppelia vendia o mesmo sorvete. Só que ali era mais caro, aliás muito caro, para os turistas das excursões que tinham pressa e não podiam esperar na fila. Havia colheres individuais e era permitido também escolher os sabores. Tinha até casquinha. Resolvemos pagar – com dólar – pra ver. Ou degustar. Morango e chocolate, claro.

E era ruim, viu? Muito ruim. Péssimo. Era sorvete feito com água; nada de leite, nananina. O gosto era genuinamente artificial. Na verdade, não consegui distinguir muito bem um sabor do outro. Parecia tudo igual. Acho que foi, sem muito titubeio, um dos piores que já tomei na vida. Depois de quase um ano vivendo na ilha, eu deveria ter imaginado que seria assim.

A fila nunca mais me pegou. Mas todas as vezes que passava em frente à Coppelia, me sentava e ficava olhando para ela. Aquela gente toda esperando por morangos e chocolates que não iam vir. Descobri que os enganados mentem, espalham que o sorvete é ótimo, uma iguaria, como numa peça de mau gosto, para o ouvinte ficar encantado e as ganas o transportarem um dia para aquele lugar exótico, com sabores cubanos que nunca existiram de verdade em Cuba, como num filme de cinema.

29 de julho de 2008

o primeiro quadro



A gente chegou lá, duas da tarde, no Leblon, conforme o combinado.
O cara estava pintando um quadro.
- Viram? Meu primeiro quadro.
Algo assim meio Van Gogh, meio Andy Warhol.
- Resolvi pintar a minha própria cara porque ninguém pode reclamar. Só eu.
Eu não reclamaria se você pintasse um retrato meu.
(Ele riu)
Mas é o primeiro mesmo? Você nunca pintou tela nenhuma?
- Não. Era um sonho nosso. Meu e do meu irmão. Mas a gente começou a desenhar no papel e aí... Era mais barato.
Eu diria que você está indo muito bem.
- Obrigado.
Não acredito que a gente está aqui registrando o seu primeiro quadro.
- É. Olha, vou pintar mais um auto-retrato nesse quadradinho aqui.
Pincela pontilhista, colorido, meio Seurat agora.
- Esse é o mais parecido comigo, não é?
Depende de como você acorda.
(Ele riu de novo)
Remexe o pincel pra lá e pra cá, começa a pintar outro.
Depois você poderia nos mostrar umas charges?
- Você quer que eu pare o meu trabalho pra te mostrar o meu próprio trabalho?
Não. Se você preferir a gente pode ficar aqui o dia todo.
- Justo agora que eu estava ficando parecido com o Lobão!
Levanta e vai caminhando para um armário de ferro com gavetas largas.
Lobão? Eu vi um quê de Arnaldo Antunes...
- Arnaldo Antunes! Arnaldo Antunes... É mesmo...
Será que tem alguma de 1988?
- Eu não sou tão organizado assim...
Vasculha as gavetas cheias de pastas com desenhos. Fecha uma, abre outra.
Se não achar, tudo bem, não precisa se preocupar... A gente já gravou bastante.
- Não, espera aí... Olha: o Ulysses com a Constituição.
Genial, genial!
- Tá bom?
Puxa, ficou bom demais! Obrigada mesmo.
Grava, grava, grava, de perto, de longe, de tudo que é jeito.
Será que você tiraria uma foto com a gente?
- Foto? É para o trabalho?
Não, é tietagem mesmo.
(Riu)
- Claro, vamos. Todo mundo aqui atrás.
Com o primeiro quadro?!
- É.
Pô, Chico, essa vai entrar pra história.

(Flashes lembrados da entrevista com Chico Caruso para o programa Constituindo, da TV Câmara)

7 de julho de 2008

lembranças de um outro dia frio

Quando abri os olhos, estava tudo escuro. O despertador dos anos oitenta era implacável e o tilintar estridente acordaria a casa inteira se eu não fosse rápida. A velha cama de molas enferrujadas rangeu e chacoalhou por trinta segundos com um único movimento do meu braço. Recorde mundial.

Queria, mas não podia tomar banho. A essa hora ainda não havia água na torneira e os barris imensos de plástico azul – nem Deus sabe o que havia ali antes - estavam vazios desde ontem à noite. Coloquei uma roupa limpa, porém muito surrada, e saí sem tomar café. Não tinha. Era preciso fazer essa refeição na escuela.

A casa onde estava hospedada ficava em Vedado, um bairro de classe média alta pós-decadente, de aparelhos de tevê com antenas enferrujadas e geladeiras certeiramente responsáveis pelo buraco na camada de ozônio do planeta. As construções eram lindas, moderníssimas para quem viveu em 1958, mas dessa época em diante não viram mais uma pintura, uma restauração, uma reforminha.

Estava ali na mesma rua de familiares de Raul Castro e, diante do prédio deles, um homem vestido de verde postava guarda diuturnamente. Ao atravessar, sempre ficava na dúvida se deveria olhar para ele ou não.

O movimento era pouco àquela hora. Mesmo assim, as avenidas já cheiravam forte a óleo e fumaça, mais que em qualquer outro lugar do mundo onde estive. Alguns Cadillacs desmoronados faziam um barulho alarmante, de enxame de marimbondos enlouquecidos, mas os motoristas não pareciam muito preocupados com isso.

Eu precisava caminhar um bom trecho sozinha por entre as calles até o ponto do ônibus amarelo da década de 50 – carinhosamente chamado de “la guágua” - que me levaria à escuela. No trajeto, passava bem em frente ao suntuoso cemitério Cristóbal Colón, orgulho para a população cubana, onde jaziam alguns dos grandes heróis da revolução – ou alguma coisa deles. Sentia arrepios.

Afinal, aquele era um dia frio – sim, creiam, também faz frio em La Habana. E, muito diferente do meu distante planalto central, a cidade era tão úmida que às vezes acreditava na possibilidade real de cortar a massa de ar com uma faca. Parecia até que andava dentro d’água, vencendo a resistência do meio a cada passo.

Todos os dias, no trajeto, um sujeito qualquer me atirava uma cantada boba. Depois vinha outro. E mais outro. Nem lembro quantos – isso é muito comum por lá. Meus brios fermentavam, ainda que soubesse que os elogios dos rapazes não tinham nada de sincero. Todos queriam deixar a ilha um dia. E, para eles, fora a aventura de atravessar as 90 milhas que os separavam de Miami numa bóia de pneu de caminhão, um bom casamento era o jeito mais curto e agradável para isso. Pouco me importava. Que continuassem com aquelas declarações de fulminante paixão eterna a cada esquina. Faziam-me bem.

Na calçada, uma mulher negra, de coque encarapitado bem no topo da cabeça, vendia uns bolos de cremes e confeitos multicoloridos, pronta para sair correndo ou enfiá-los dentro de uma sacola a qualquer momento. No mesmo rumo, se não me engano, outros me ofereceriam ovos e pães, com a discrição própria a quem sabe que faz algo ilícito. “Huevos? Pan?” Apontavam para a comida escondida dentro do casaco. Já estava ficando com fome.

Ao chegar ao ponto da guágua, mesmo cedo como fui, a fila já estava grande, enorme, gigantesca! Esse era um costume dos nativos, do qual não havia como escapar. Pensando bem, as filas faziam parte do cotidiano de todas as sociedades contemporâneas. Por que não aqui? Consegui até um lugar para sentar. Em cima da roda, mas me sentei. Voltaria para casa no fim da tarde, escurecendo outra vez, para mais uma noite de molas e sonhos em Havana.

4 de junho de 2008

reflexivas



















Marcya, Maíra e o terraço do Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque,
refletidos no big cachorro de balão de Jeff Koons (clique nas imagens para ampliar).

24 de março de 2008

praaaaaaaaia!



















Vista do quarto do hotel onde fiquei, em Vila Velha (ES)...
Clique na foto para ampliar.

25 de janeiro de 2008

encenação 2008

Fotos da encenação anual da fundação da Vila de São Vicente, a primeira cidade do Brasil. Foi lá que estive nos últimos dias, filmando e fotografando o espetáculo. Clique na imagem para ampliar:














23 de janeiro de 2008

ossos do ofício

Tia, me filma!
Tia!
Me filma!
Que canal que é?
Hein?
Que canal?
Onde passa?
Como faz pra ver?
Tia, manda o DVD pra mim?
Que dia que passa?
Você é da Globo?
Eu vou aparecer na Globo!
Nem é da Globo!
Se não é da Globo eu não quero não...
Eu já apareci na matéria da Globo.
Já me filmaram ali!
Ah, não é de foto não?
Mostra eu, mostra eu!
Deixa eu me ver aí na câmera?
Onde liga?
Apareci bem de pertinho!
Uhuuuu!
Tia, olha só isso!
Olha só!
Eu cobro cachê...
Olha a gente aqui!
Me filma!
Tiaaaaaaa!

19 de janeiro de 2008

7 de novembro de 2007

remember the king

Há alguns anos, fui conhecer Buenos Aires. A capital argentina me encantou em seus recantos, pela cultura e pela arte, pelas histórias fortes de poder e queda, por seus habitantes cheios de gentilezas e críticas, pela majestática decadência das ruas. Fiz o trajeto típico do bom turista: Casa Rosada, Plaza de Mayo, Recoleta, La Boca, Malba... Remexi tudo por ali.

Foi assim que, cansada, depois de muito andar pela Calle Florida, entrei em uma pequena lanchonete. O lugar estava tranqüilo, quase vazio. Pedi um café com creme, que veio rápido e me perfumou a alma, num buquê de espuma espessa. Esse cheiro todo magnético, mágica dentro de uma xicarazinha, me cativava entre todos os prazeres simples.

Como de costume, peguei a colherinha e ataquei primeiro o chantilly todinho, na frente, de entrada. Agora sim, o açúcar. Muito. Mexe. Prova. Que bom!...

Bem mais adocicada e aquecida, olhava para o movimento lá fora, através do vidro imenso da vitrine. Me distraí no transe do cheiro gostoso da bebida e comecei a cantarolar baixinho a música que sempre me vem sem querer quando estou feliz assim: “Wise men say... Only fools rush in... But I can’t help falling in love...With you...

“Também adoro começar pelo creme”. Olhei na direção daquela voz única. Vinha de um homem velho, que tomava o mesmo que eu, sentado à mesa ao lado. Balancei a cabeça, cantos da boca numa curva ascendente, em cumprimento, e me calei.

Devia estar perto de seus setenta anos e parecia ser alto. Os traços delatavam uma beleza envolvente, aliás, num passado nem tão afastado assim desses dias frios de junho. Os cabelos brancos formavam entradas largas sobre os olhos claros de tudo e, engraçado, de sobrancelhas escuras. Certamente tinha algo de extravagante, pois notei que, vestido de preto, calçava sapatos azuis, de camurça. Falava a língua da terra com um acento diferente, quase tão estranho quanto o meu. “Hola, señorita. Perdóname la audacia. Mi nombre es Aaron”, disse, sorridente. Aaron. Tinha um sorriso perfeito, puxado um pouquinho para a direita.

“Olá, senhor! Não se preocupe... Eu sempre começo com o chantilly porque o sabor é mais suave. Misturado ao café o gosto bom do creme some todo!”

“Verdade, verdade. É assim que faço também...”

Ficamos nos analisando, durante alguns segundos decisivos. Não sei dizer porque, mas o olhar direto daquela figura estranha me constrangia. Num debate interno à procura forçosa de uma resposta, fui fulminada por um flash de memória que incomodou. Ele me pareceu familiar.

“A senhorita não é argentina, suponho.”

“Não, não, realmente não sou.”

“Norte-americana?”

Achei graça da confusão. Meu espanhol devia estar uma droga... “Não. Eu sou vizinha, aqui do lado. Brasileira.”

“Ah, brasileira... É uma pena; eu nunca estive no Brasil, senhorita...”

“Marcya.”

“Senhorita Marcya.”

“Mas, tão pertinho, não vai faltar oportunidade, não é?”

“Bem, digamos que eu já esteja muito velho para viajar.”

“Velho? O que é isso? De jeito nenhum; o senhor está ótimo!”

Seu rosto se tornou todo alegre, pela ênfase da última frase.

“Faz tempo que não ouço um bom elogio de uma moça bonita! Às vezes faz falta!...”

Senti-me um pouco envergonhada. De repente me peguei praticamente flertando com um sujeito que encontrei à toa na rua e parecia ter mais idade que meu pai. Não sei o que me deu. Mas a verdade é que estava fascinada por ele. Nunca eu tinha visto antes, tão de perto, um carisma de tantos tentáculos, a me arrastar para dentro das pupilas cerúleas, da voz rouca e melodiosa, do café quente com creme. Agora não podia mais parar.

“O senhor também não é argentino...”

“Eu sou uma ponte cruzando águas tortuosas, querida. Um homem do mundo... Trancado em mim mesmo.”

“Posso adivinhar?”

“Adivinhe então; gosto desses desafios...”

“Ahn... Norte-americano?”

Consegui deixá-lo desconcertado. “Muito perspicaz! Muito perspicaz... A senhorita sempre faz adivinhações tão precisas?”

“Pode me chamar de você”, limitei-me a responder.

“Obrigado. Chamarei sim, com muita honra.”

Ele agora parecia um tanto desconfiado de mim. Olhou o relógio, que marcava quatro da tarde.

“Conheci tantas mulheres na minha juventude, tantas, tantas, e continuo um garoto na tentativa de entendê-las...”

“Não é preciso entendê-las. Basta descobrir como elas gostam de ser tratadas. É a chave do segredo”, falei baixinho.

“E como elas gostam de ser tratadas?”

“É como diz a canção: ‘Don't be cruel... To a heart, that's true…

Dessa vez, o homem ficou realmente preocupado e levantou-se, subitamente. O meu subconsciente me pregara uma bem armada peça.

“Preciso ir embora agora... Me demorei demais aqui. Mas a companhia justificou tanta atenção. A senho... Você... É uma moça encantadora!”

“Senhor... Já não o vi antes em algum lugar?”

“Talvez... Quem é que pode saber?”

Um relance de lembrança correu outra vez na minha frente, brincante, fugitivo, querendo me confundir. Voltei aos meus seis anos de idade, a um noticiário de tevê, a um disco de vinil tocando no volume máximo, a lágrimas sentidas. Comecei a rir. Tudo isso era uma grande loucura. Não podia ser.

You were always on my mind”, arrisquei, numa saudação amorosa de profunda reverência.

O homem virou-se, um tanto surpreso, beijou minha mão com carinho e ofereceu aquele sorriso lindo aos meus olhos molhados, pela última vez.

I’ll remember you”, respondeu ele.

Colocou os óculos escuros, baixou a cabeça e saiu pela porta de vidro caminhando sem pressa, até sumir no meio da multidão da calle, deixando para sempre dentro de mim o sabor doce do creme e o cheiro inesquecível do café daquele lugar.

3 de novembro de 2007

joaninhas impossíveis


Quando eu era menina, de assim uns sete anos, tinha uma coleção de joaninhas. Esse bichinho pintado, que vivia aos mil nas plantinhas dos anos 70, e por isso podia até ser colecionado, de repente sumiu de junto do olhar da gente. Não sei se foi porque eu cresci e passei a reparar menos nessas pequenezas bonitas que as crianças enxergam. Mas acho que não.

Aliás, penso até que percebi o primeiro sinal do estapafúrdio que virou o clima do planeta quando voltei à árvore da minha infância e procurei, procurei, procurei... Achei uma, uminha só. A última joaninha.

Antes não. Nas árvores por aí, em especial nas amoreiras, encontrava delas aos montes, dezenas, com manchinhas variadas na carapaça das costas. Brancas com pintinhas pretas. Pretas com pintinhas vermelhas. Vermelhas com pintinhas pretas. Que alegria boa que me dava de achar as cores todas num mesmo dia!

Pegava a caixinha de fósforos vazia, daquelas com um olho desenhado no rótulo. Forrava com folhinha de amora e ia caçar. Olhava para cima até ficar de pescoço doído. Catava com carinho e elas retribuíam passeando nas mãos, passadas de uma pra outra, fazendo cosquinha, perninhas rápidas, obedientes, sem voar. Mesmo assim, eu as colocava dentro da caixa e levava pra casa. Acho que ninguém nunca soube. Pode parecer maldade, mas não era não.

É que me vinha uma felicidade que se derramava em sorrisos, isso só por vê-las passear pela superfície lisa do vidro de maionese onde eu guardava amorosamente a minha efêmera coletânea. Durava apenas um dia. Um dia, que era o tempo que eu achava justo aprisionar uma joaninha. De manhã, me levantava cedo e as libertava todinhas pela janela. Ficava olhando cada uma despertar, esticar as asinhas e partir num zumbidinho surdo. Em segundos, desapareciam no azul do céu, no vermelhão dos redemoinhos daquela época, no verde aventureiro que escalava até o quarto andar do prédio.

Desde então, creio que desenvolvi um contato extra-sensorial com as joaninhas, como se fosse teleguiada. Elas é que me aprisionavam agora. Nos cantos mais bizarros do mundo me deparo com uma. Uminha só.

Há dez anos, em Tanger, no Marrocos, entrei num navio para fazer a travessia até Algeciras, na Espanha, vinda de uma primeira viagem ao deserto. Estava muito bem no convés, olhando a água que se alastrava perfeitamente ao redor da embarcação, como tem que ser, sem vista de terra firme. Vai daí que sinto a familiar cosquinha no braço. Olho, era uma joaninha, uma joaninha mesmo, que achou de pousar em mim ali, no meio do oceano. Brinquei muito com ela, como de costume. Não voou. Tirei fotos, mas o close da joaninha não ficou muito bom. Houve quem não acreditasse.

Em Roma também, já se faz nem sei quanto tempo. No meio das ruínas antigas, eu com um mochilão nas costas - acho que me confundiu com uma delas, super-ultra-mega desenvolvida.

Mais uma apareceu na capital de Botsuana, Gaborone, num passeio ao parque local. De janelas abertas, nem desci do carro, lá vem a bolotinha voadora. Aterrissa no meu ombro, como o papagaio do pirata. Faz nada não. Deixa ela aí. Meu cabelo tá preso. Eu não capturo mais joaninhas.

A última foi a que notei no casaco branco de minha mãe, no meio da multidão de uma loja de departamentos em Madrid. Mas houve outras, muitas outras, que já nem me lembro mais.

Talvez elas façam parte de uma sociedade secreta, da confraria das joaninhas que pretendem salvar a Terra - tomara que consigam. Eu, que não tenho fé em nada, com elas, ao contrário, sempre tive certeza de que carregavam algo de especial. E continuo a acreditar. Talvez o meu papel nesse plano seja o de escrever essas coisas. E talvez se possa dizer – e claro, digam sim! - que eu sou alegremente manipulada por joaninhas impossíveis.

31 de outubro de 2007

a gincana




















Não sabíamos ainda, mas ela estava começando, secretamente, naquele exato momento. Um cronômetro misterioso disparava a cada vez que os guias diziam “vocês têm quarenta minutos para visitar todos os monumentos, tirar fotos e almoçar. Nos encontramos aqui no ônibus”. Ainda por cima, eles falavam em portunhol. Ou, pior, em espaguês. Descobri. Era um código.

Um deles se chamava Jesús. “Aquele que me seguir, encontrará o caminho”. Em verdade vos digo: fiquei preocupada quando alguém comentou “Jesús está chamando”. E respondi: “é cedo. Não é chegada a hora”. Todos os guias tinham nomes de anjos. Miguel, Rafaela... Tudo bem que um se chamava Alejandro. Mas, por quê?

Comecei a desconfiar quando, ao chegar ao hotel, na primeira noite em Barcelona, liguei a tevê do quarto e começava, naquele segundo preciso, o primeiro capítulo da última temporada de Lost. E eu ainda não tinha visto. Foi bastante esclarecedor para mim.

Outros fatos enigmáticos continuaram a ocorrer, sucessivamente, naqueles dias. Minha mãe estava saindo de uma loja de departamentos no centro de Madri, às oito da tarde – é, oito lá é tarde –, as ruas tão lotadas que não dava pra ver o chão. Por minutos a perco. Procuro com os olhos, de meu mirante privativo e, ao distingui-la, de costas, casaco branco no meio da multidão, me aproximo e encontro o improvável: uma joaninha rechonchuda, caminhando tranqüila pela superfície de lã. Uma joaninha. Só podia ser um bônus.

Em todos os lugares aonde íamos, mal colocávamos o pé fora do ônibus turístico, sinos de igrejas badalavam. Acho que era um aviso da organização. Ou então, só colocávamos o pé fora do ônibus em horas cheias e meias.

Visitamos o Escorial, que é ao mesmo tempo mosteiro, igreja, palácio e túmulo de Felipe II da Espanha, erigido em homenagem a San Lorenzo “aquele que morreu na parilla” segundo a aparentemente inofensiva guia. Ela repetia a informação a cada minuto e fazia questão de mostrar as grelhas de churrasco representadas em detalhes da decoração. Muito revelador. Chegamos ao lindíssimo altar-mór quando soaram os acordes do órgão secular, obra-prima do gênero. A mulher virou-se para nós, solene, e disse: “incrível. Magnífico. Este órgão quase nunca é tocado”. E enfatizou: “quase nunca”.

Numa cidadezinnha chamada Évora, nossa primeira paragem em Portugal, nossos guias nos fizeram andar um bocado na companhia deles, para depois nos largar no meio de uma praça e condenar: "São quarenta e cinco minutos aqui. Vamos nos reencontrar lá no ônibus". Para o Minotauro seria moleza. As labirínticas ruelas nos conduziam a becos sem saída e lugar nenhum. Matei a charada. O lugar mais comentado pelos guias no caminho foi a tal Capela dos Ossos. É pra lá que nós vamos.

O nome "Capela dos Ossos" era literal. Na entrada, a mensagem de boas-vindas: “Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos". Maravilha. Minha mãe se sentiu mal lá dentro. Milhares de crânios, tíbias e perônios, rádios e cúbitos, costelinhas, carpos, metacarpos e falangezinhas, entre outros, davam o toque bizarro à decoração. Ouvi um sussurro com a voz de Jack Pallance no meu ouvido: "acredite... Se quiser".

Entre todas as experiências pouco convencionais, também não foi pouco estranho que eu e mamãe tenhamos sido expulsas do Oceanário de Lisboa no meio do passeio porque Vladimir Putin, presidente da Rússia, tinha ido visitar os peixinhos exatamente naquele dia, acompanhado de um exército da KGB – claro que ainda existe – que mais parecia os homens de preto, vestidos de terno e óculos escuros? Bem que quando chegamos achei esquisitos os barcos da polícia, o pessoal do serviço de inteligência portuguesa (ai, Jesús!), os helicópteros imensos e as metralhadoras carregadas pra todo lado. Peixinhos... Sei.

A última prova começou na Torre de Belém. Fomos severamente informados: “neste Café aqui ao lado há o único banheiro desse passeio de duas horas. O único. Depois não digam que eu não avisei...” Nesse instante, senti que foi dada a partida. “Vocês têm trinta minutos para conhecer a Torre, tirar fotos, e voltar para o ônibus a tempo para o Mosteiro dos Jerônimos. Ah! E não se esqueçam da sala de banhos...” Percebi um leve sarcasmo nessa frase final.

Antes da Torre, corri para o banheiro, afinal, ele era único e bem disfarçado. O monumento
eu já conhecia e ia ficar lá, pelos tempos afora, se mostrando pra todo mundo. Dava pra tirar uma foto de longe. De mais a mais, naquele momento específico, nada era mais monumental que o banheiro.

Na corrida descobri que o acesso era gratuito somente àqueles que tomassem pelo menos uma bica, ahn, café expresso. Droga! Filas enormes no balcão; meus concorrentes saíram na frente. Isso não vai ficar assim. Perguntando, descobri uma máquina que vendia fichas para uso exclusivo do troninho. Cinqüenta centavos. Cinqüenta centavos? Cadê essa moeda maldita? Vasculha, vasculha, vasculha!

Minha mãe veio salvar a pátria com um euro e direito a duas descargas consecutivas. Na hora de puxar a fichinha, veio um angolano correndo. “Não, não, não usem isso não!” Pronto. Mais surpresas da engenhosa competição. Que é que você quer? Aonde você vai? Volta aqui! Não usa por quê? Desgraçado. O angolano fugiu correndo de novo. Do jeito que a coisa está, acho que vou trapacear.

Funcionário do Café, ele volta logo, com uma ficha personalizada, encaçapa o euro mais que depressa e passa duas vezes o código de barras que libera a entrada. Entendi tudo. Decifrei a senha. Olhei para meus adversários na bicha, ahn, fila, e tive vontade de mostrar a língua. A peça final estava garantida. Mas nada se encaixava ainda.

Cumprimos todas as tarefas, com louvor. Ainda busco pelo prêmio, mas algo me diz que ele já está conosco. Estamos aqui: vivas, sãs e salvas, com todas as relíquias escondidas nas retinas e nas máquinas fotográficas.