7 de novembro de 2007

remember the king

Há alguns anos, fui conhecer Buenos Aires. A capital argentina me encantou em seus recantos, pela cultura e pela arte, pelas histórias fortes de poder e queda, por seus habitantes cheios de gentilezas e críticas, pela majestática decadência das ruas. Fiz o trajeto típico do bom turista: Casa Rosada, Plaza de Mayo, Recoleta, La Boca, Malba... Remexi tudo por ali.

Foi assim que, cansada, depois de muito andar pela Calle Florida, entrei em uma pequena lanchonete. O lugar estava tranqüilo, quase vazio. Pedi um café com creme, que veio rápido e me perfumou a alma, num buquê de espuma espessa. Esse cheiro todo magnético, mágica dentro de uma xicarazinha, me cativava entre todos os prazeres simples.

Como de costume, peguei a colherinha e ataquei primeiro o chantilly todinho, na frente, de entrada. Agora sim, o açúcar. Muito. Mexe. Prova. Que bom!...

Bem mais adocicada e aquecida, olhava para o movimento lá fora, através do vidro imenso da vitrine. Me distraí no transe do cheiro gostoso da bebida e comecei a cantarolar baixinho a música que sempre me vem sem querer quando estou feliz assim: “Wise men say... Only fools rush in... But I can’t help falling in love...With you...

“Também adoro começar pelo creme”. Olhei na direção daquela voz única. Vinha de um homem velho, que tomava o mesmo que eu, sentado à mesa ao lado. Balancei a cabeça, cantos da boca numa curva ascendente, em cumprimento, e me calei.

Devia estar perto de seus setenta anos e parecia ser alto. Os traços delatavam uma beleza envolvente, aliás, num passado nem tão afastado assim desses dias frios de junho. Os cabelos brancos formavam entradas largas sobre os olhos claros de tudo e, engraçado, de sobrancelhas escuras. Certamente tinha algo de extravagante, pois notei que, vestido de preto, calçava sapatos azuis, de camurça. Falava a língua da terra com um acento diferente, quase tão estranho quanto o meu. “Hola, señorita. Perdóname la audacia. Mi nombre es Aaron”, disse, sorridente. Aaron. Tinha um sorriso perfeito, puxado um pouquinho para a direita.

“Olá, senhor! Não se preocupe... Eu sempre começo com o chantilly porque o sabor é mais suave. Misturado ao café o gosto bom do creme some todo!”

“Verdade, verdade. É assim que faço também...”

Ficamos nos analisando, durante alguns segundos decisivos. Não sei dizer porque, mas o olhar direto daquela figura estranha me constrangia. Num debate interno à procura forçosa de uma resposta, fui fulminada por um flash de memória que incomodou. Ele me pareceu familiar.

“A senhorita não é argentina, suponho.”

“Não, não, realmente não sou.”

“Norte-americana?”

Achei graça da confusão. Meu espanhol devia estar uma droga... “Não. Eu sou vizinha, aqui do lado. Brasileira.”

“Ah, brasileira... É uma pena; eu nunca estive no Brasil, senhorita...”

“Marcya.”

“Senhorita Marcya.”

“Mas, tão pertinho, não vai faltar oportunidade, não é?”

“Bem, digamos que eu já esteja muito velho para viajar.”

“Velho? O que é isso? De jeito nenhum; o senhor está ótimo!”

Seu rosto se tornou todo alegre, pela ênfase da última frase.

“Faz tempo que não ouço um bom elogio de uma moça bonita! Às vezes faz falta!...”

Senti-me um pouco envergonhada. De repente me peguei praticamente flertando com um sujeito que encontrei à toa na rua e parecia ter mais idade que meu pai. Não sei o que me deu. Mas a verdade é que estava fascinada por ele. Nunca eu tinha visto antes, tão de perto, um carisma de tantos tentáculos, a me arrastar para dentro das pupilas cerúleas, da voz rouca e melodiosa, do café quente com creme. Agora não podia mais parar.

“O senhor também não é argentino...”

“Eu sou uma ponte cruzando águas tortuosas, querida. Um homem do mundo... Trancado em mim mesmo.”

“Posso adivinhar?”

“Adivinhe então; gosto desses desafios...”

“Ahn... Norte-americano?”

Consegui deixá-lo desconcertado. “Muito perspicaz! Muito perspicaz... A senhorita sempre faz adivinhações tão precisas?”

“Pode me chamar de você”, limitei-me a responder.

“Obrigado. Chamarei sim, com muita honra.”

Ele agora parecia um tanto desconfiado de mim. Olhou o relógio, que marcava quatro da tarde.

“Conheci tantas mulheres na minha juventude, tantas, tantas, e continuo um garoto na tentativa de entendê-las...”

“Não é preciso entendê-las. Basta descobrir como elas gostam de ser tratadas. É a chave do segredo”, falei baixinho.

“E como elas gostam de ser tratadas?”

“É como diz a canção: ‘Don't be cruel... To a heart, that's true…

Dessa vez, o homem ficou realmente preocupado e levantou-se, subitamente. O meu subconsciente me pregara uma bem armada peça.

“Preciso ir embora agora... Me demorei demais aqui. Mas a companhia justificou tanta atenção. A senho... Você... É uma moça encantadora!”

“Senhor... Já não o vi antes em algum lugar?”

“Talvez... Quem é que pode saber?”

Um relance de lembrança correu outra vez na minha frente, brincante, fugitivo, querendo me confundir. Voltei aos meus seis anos de idade, a um noticiário de tevê, a um disco de vinil tocando no volume máximo, a lágrimas sentidas. Comecei a rir. Tudo isso era uma grande loucura. Não podia ser.

You were always on my mind”, arrisquei, numa saudação amorosa de profunda reverência.

O homem virou-se, um tanto surpreso, beijou minha mão com carinho e ofereceu aquele sorriso lindo aos meus olhos molhados, pela última vez.

I’ll remember you”, respondeu ele.

Colocou os óculos escuros, baixou a cabeça e saiu pela porta de vidro caminhando sem pressa, até sumir no meio da multidão da calle, deixando para sempre dentro de mim o sabor doce do creme e o cheiro inesquecível do café daquele lugar.

Um comentário:

Ana Lima disse...

Tbém estou de olhos molhados...
Sua louca maravilhosa! Bjs
anali <:)>