Minha avó costumava dizer que o Grand Papa caiu da escada.
- Ele caiu da escada! Caiu da escada, o coitadinho. Grand Papa, com todo aquele conhecimento, aquelas mãos de artista, morreu de um jeito tão bobo...
Minha avó não falava a palavra “besta”, como eu teria dito, ao me referir à morte tão besta de meu trisavô, o finado Sisson. Aliás, essa era uma das muitas palavras que ela se recusava a dizer, por achar “feia”, desconjuntada, desafinada, inapropriada. A fealdade não combinava com ela. Por isso, em muitas de suas histórias pela vida, Mariazinha preferiu deixar as palavras pouco belas de lado.
Grand Papa, esse não havia conhecido de encostar com a mão. Um lamento que teve que carregar pela vida inteirinha, de tanto que o admirava. Quando nascera, em 1910, já não existia mais seu avô. Também, pudera. Mariazinha veio ao mundo temporã. Sua mãe, imagine, às vésperas de completar quarenta anos, naquela época em que as mulheres de quarenta se resignavam, uma vez que se entregassem, desde os trinta e cinco, ao conformismo com a velhice. Seu irmão mais velho, o Francisco, perto dos 20, já era militar e servia no Quartel-General do exército. Alberto, Alfredo e Ângela vinham em escadinha, na sequência. Assim, a pequena chegou, em meio a mimos e predestinada a crescer entre adultos. Tornou-se o eterno bebê da casa.
Em contrapartida, Mariazinha nunca se opôs a fazer jus aos suspiros encantados que a cercavam. Menininha linda, cheia de talentos e habilidades, repetia com graciosidade todas as quadrinhas que lhe ensinavam.
- Ah, Grand Papa!... Como foi que não o conheci! – dizia, com beicinho de muxoxo.
Era muito criança, a minha avó.
Não no sentido de quem padece de males das idéias, vindas com a idade. É que, apesar de avançada no tempo, tinha certas birras e desatavios juvenis. Nunca entendi muito bem as reações de Mariazinha.
Talvez Grand Papa não teria entendido também, pois Grand Papa, para mim, era apenas um vulto na História. Um homem francês e muito prático, artista dos bons, litogravurista, mas daqueles que vivem do ofício e trabalham duro nas encomendas que serão impressas em larga escala.
Lá em casa, à noite, sento-me à mesa que antes esteve na cozinha dela, da minha avó, para tomar a sopa que eu fiz. Penso no cheiro da comida de Mariazinha, no tempero, no filé de viola ensopado com molho de tomate que ela mesma fazia e ninguém, nunca mais, conseguirá fazer igual.
Grand Maman não teve morte besta. Sofreu, ainda que não soubesse disso. Depois, ela escapou ao meu tempo, no espaço. Roubaram Mariazinha de mim. Eu estava muito longe, em outro país, estudando. Ninguém me disse da morte dela. Pensaram que eu largaria tudo e me despencaria de lá para vê-la pela última vez. Sim, é isso o que eu teria feito, se tivessem me dado chance.
Por isso até hoje - que por agora faz mais de dez anos que ela se foi - digo que Grand Maman caiu da escada também. E esse é um vazio que a gente não preenche mais, dia nenhum, hora nenhuma na vida.
...
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10 de novembro de 2010
22 de setembro de 2010
uma casa muito engraçada
Finalmente, posso considerar-me mudada.
E, na casa nova, tudo tem um colorido sem cor. Apesar das paredes brancas, das portas brancas, das porcelanas brancas, dos azulejos brancos, enxergo as matizes alegres de uma vida reformulada.
Há de chegar muito em breve o tempo de pendurar os quadros.
O lustre da sala ainda não se materializou, o buraco continua ornamentando o teto, mas a luz preenche todos os vazios.
Os armários virão a ser, logo, logo – acredito! -, para aliviar as malas da sina das roupas.
Ainda que um cano esteja entupido, uma parede meio torta, o guarda-roupas velho e o vidro do box um tantinho arranhado, o meu lar tem me trazido as melhores soluções, que se farão cada vez mais por si mesmas, sem muita ajuda ou preocupação.
É um lugar de confluência de bem-querências que ronronam na tranqüilidade de três gatinhas felizes e no enlevo gostoso de um amor muito esperado.
Aqui sim, posso viver os dias. E bem.
E, na casa nova, tudo tem um colorido sem cor. Apesar das paredes brancas, das portas brancas, das porcelanas brancas, dos azulejos brancos, enxergo as matizes alegres de uma vida reformulada.
Há de chegar muito em breve o tempo de pendurar os quadros.
O lustre da sala ainda não se materializou, o buraco continua ornamentando o teto, mas a luz preenche todos os vazios.
Os armários virão a ser, logo, logo – acredito! -, para aliviar as malas da sina das roupas.
Ainda que um cano esteja entupido, uma parede meio torta, o guarda-roupas velho e o vidro do box um tantinho arranhado, o meu lar tem me trazido as melhores soluções, que se farão cada vez mais por si mesmas, sem muita ajuda ou preocupação.
É um lugar de confluência de bem-querências que ronronam na tranqüilidade de três gatinhas felizes e no enlevo gostoso de um amor muito esperado.
Aqui sim, posso viver os dias. E bem.
6 de agosto de 2009
terra vermelha
Eu e Lili íamos todos os dias à venda do turco. Minha mãe o chamava de turco, palavra imediatamente replicada por mim, mas hoje tenho convicção de que tratava-se de um cidadão libanês. Portava um bigode vistoso – assim como sua rechonchuda filha – e apontava para nós suas olheiras enormes e o nariz adunco de seus antepassados. Íamos de bicicleta, umas bicicletinhas de criança pequena, velhinhas, meio desconjuntadas. Na terra vermelha das ruas sem calçadas, canteiros ou asfalto, sumíamos em nuvens de redemoinhos, que havia muitos naquela época. Manifestávamos nossa presença depois que a poeira baixava e assim éramos vistas, de tempos em tempos, como crias de sacis. Enfiávamos as mãozinhas imundas nos bolsos e puxávamos moedas: um cruzeiro com sorte, cinquenta centavos frequentemente. Então atravessávamos a loja escura, cheia de barris de madeira abarrotados de farinhas e grãos, desviávamos das caixas com legumes e verduras, e nos esgueirávamos em direção ao balcão à procura de doces.
O baleiro giratório do armazém do turco ainda rebenta em meus melhores sonhos. Dentro dele, balinha Malukinha de uva e menta, chiclete Ploc e Ping Pong, paçoquinha de rolha, doce de abóbora em forma de coração e de banana cremoso-duro, que vinha dentro de um potinho de casquinha de sorvete, com pazinha para comer. Também tinha maria-mole cor-de-rosa e amarela, que a Lili comia sempre, vindo exibir a língua em Technicolor. Pagávamos e ganhávamos as compras dentro de saquinhos como os de pão, só que bem pequenininhos.
Do outro lado da rua havia uma loja de animais. Nossa rotina diária consistia nisso: primeiro compromisso, doces na venda do turco e segundo, visita aos bichinhos. Gostávamos de afagar os coelhos e alimentar os porquinhos-da-índia com capinzinho colhido ali na frente - Brasília na década de setenta era pura terra e mato. Lá se vendia até pombos, até galinhas e pintinhos, até cágados em aquários! Aquilo era o paraíso para menininhas de sete anos. Mas tínhamos outros afazeres importantes a cumprir para a tarde.
Pular amarelinha riscada com giz de gesso que achávamos jogados nas obras – também havia obras pra todo lado –, e competíamos usando casca de banana em vez de pedrinhas. Brincadeira de imitar “As Panteras” da tevê e todo mundo queria ser a Kelly, que era uma só. Acompanhar as formigas e catar algumas para fazer experiências com álcool de limpeza ou simplesmente descobrir se elas sabiam nadar. Subir na árvore de seiva que dava nódoa na roupa, o mais alto que pudéssemos – a Lili subia mais que eu. Fazer bolo de areia e flores no parquinho que o porteiro do prédio construiu sozinho, com o carinho de um confeiteiro.
Andávamos aquilo tudo sozinhas. Nossos pais nunca souberam por onde brincávamos. Sei só que no começo da noite ouvia um assobio característico ou um grito da janela do quarto andar: “Maaaarcya! Sooobe!” Despedía-me da Lili, deixando tacitamente acordada a agenda para o dia seguinte. E ao entrar em casa tal e qual uma escultura de barro, era obrigada a pular direto na banheira cheia d'água, que sempre ficava vermelha, vermelhinha, como a terra da minha infância.
O baleiro giratório do armazém do turco ainda rebenta em meus melhores sonhos. Dentro dele, balinha Malukinha de uva e menta, chiclete Ploc e Ping Pong, paçoquinha de rolha, doce de abóbora em forma de coração e de banana cremoso-duro, que vinha dentro de um potinho de casquinha de sorvete, com pazinha para comer. Também tinha maria-mole cor-de-rosa e amarela, que a Lili comia sempre, vindo exibir a língua em Technicolor. Pagávamos e ganhávamos as compras dentro de saquinhos como os de pão, só que bem pequenininhos.
Do outro lado da rua havia uma loja de animais. Nossa rotina diária consistia nisso: primeiro compromisso, doces na venda do turco e segundo, visita aos bichinhos. Gostávamos de afagar os coelhos e alimentar os porquinhos-da-índia com capinzinho colhido ali na frente - Brasília na década de setenta era pura terra e mato. Lá se vendia até pombos, até galinhas e pintinhos, até cágados em aquários! Aquilo era o paraíso para menininhas de sete anos. Mas tínhamos outros afazeres importantes a cumprir para a tarde.
Pular amarelinha riscada com giz de gesso que achávamos jogados nas obras – também havia obras pra todo lado –, e competíamos usando casca de banana em vez de pedrinhas. Brincadeira de imitar “As Panteras” da tevê e todo mundo queria ser a Kelly, que era uma só. Acompanhar as formigas e catar algumas para fazer experiências com álcool de limpeza ou simplesmente descobrir se elas sabiam nadar. Subir na árvore de seiva que dava nódoa na roupa, o mais alto que pudéssemos – a Lili subia mais que eu. Fazer bolo de areia e flores no parquinho que o porteiro do prédio construiu sozinho, com o carinho de um confeiteiro.
Andávamos aquilo tudo sozinhas. Nossos pais nunca souberam por onde brincávamos. Sei só que no começo da noite ouvia um assobio característico ou um grito da janela do quarto andar: “Maaaarcya! Sooobe!” Despedía-me da Lili, deixando tacitamente acordada a agenda para o dia seguinte. E ao entrar em casa tal e qual uma escultura de barro, era obrigada a pular direto na banheira cheia d'água, que sempre ficava vermelha, vermelhinha, como a terra da minha infância.
2 de março de 2009
peter pan

Esta foto (clique nela para ampliar) que tirei no Kensington Gardens foi selecionada para compor a sexta edição do "Schmap London Guide", guia online da cidade de Londres. Para acessar o link direto:
http://www.schmap.com/london/toppicks_attractions/p=528/i=528_54.jpg
Também, rodei tanto por lá sozinha que já estava mesmo posando de guia! YES!
(Aproveitando: mil beijos para Fábia e Tó, que cuidaram de mim quando estive lá! Me senti a própria rainha da Inglaterra na casa deles!)
15 de janeiro de 2009
o que os amigos dizem
Estou com dor de dente há dias. E, literalmente, sangue no olho (como diz minha amiga Fabiana), mas é porque tive um derramezinho ocular. Derramezinho nada. Estava enorme e, grudado na minha íris verde, parecia um quadro abstrato de artista plástico japonês (como disse meu amigo Pedro Henrique).
Enquanto isso, o dente dói. Acho que foi porque plantei uma bananeira perfeita na aula de yoga e os meus maxilares irrigaram demais a raiz. Da bananeira não, do dente. Minha amiga Maria disse que estava perfeita e me deu os parabéns. Mas não consegui uma consulta de emergência e esperei pacientemente por três dias para ser atendida com hora marcada. A dor aumentou. Descobri com tristeza que o meu dentista lindo se casou. Nem sei porque me entristeci. Fazia mais de dois anos que eu não ia lá.
O sangue no olho amedrontou todos os meus amigos, menos eu, que não conseguia visualizar aquela mancha vermelha, a não ser bem de perto no espelho. Por insistência deles fui à emergência do serviço médico da Câmara e, como foi um clínico que disse que não era nada, ninguém acreditou. “Vai num especialista!” – disseram em uníssono. Fui ao oftalmologista, que não era casado, mas também não era lindo. E ele repetiu que não era nada mesmo. “Só um derramezinho ocular”. Vai passar em quinze dias. “Até um espirro pode provocar isso”. Um espirro. Aposto que foi a bananeira que eu plantei.
Minha mãe falou que eu não devia mais ficar plantando bananeira na aula de yoga. Olha a minha idade.
E o meu dentista lindo, que não é meu amigo por assim dizer - temos uma relação estritamente profissional - não disse nada. Nem reparou o sangue no olho.
Minha amiga Maíra sempre pergunta: "por que as coisas são assim?"
Enquanto isso, o dente dói. Acho que foi porque plantei uma bananeira perfeita na aula de yoga e os meus maxilares irrigaram demais a raiz. Da bananeira não, do dente. Minha amiga Maria disse que estava perfeita e me deu os parabéns. Mas não consegui uma consulta de emergência e esperei pacientemente por três dias para ser atendida com hora marcada. A dor aumentou. Descobri com tristeza que o meu dentista lindo se casou. Nem sei porque me entristeci. Fazia mais de dois anos que eu não ia lá.
O sangue no olho amedrontou todos os meus amigos, menos eu, que não conseguia visualizar aquela mancha vermelha, a não ser bem de perto no espelho. Por insistência deles fui à emergência do serviço médico da Câmara e, como foi um clínico que disse que não era nada, ninguém acreditou. “Vai num especialista!” – disseram em uníssono. Fui ao oftalmologista, que não era casado, mas também não era lindo. E ele repetiu que não era nada mesmo. “Só um derramezinho ocular”. Vai passar em quinze dias. “Até um espirro pode provocar isso”. Um espirro. Aposto que foi a bananeira que eu plantei.
Minha mãe falou que eu não devia mais ficar plantando bananeira na aula de yoga. Olha a minha idade.
E o meu dentista lindo, que não é meu amigo por assim dizer - temos uma relação estritamente profissional - não disse nada. Nem reparou o sangue no olho.
Minha amiga Maíra sempre pergunta: "por que as coisas são assim?"
12 de novembro de 2008
céu
Pulava em um só dos pés:
Um, dois, três...
Abaixava-me assim
E pegava a pedrinha
Sem pisar na linha!
Tudo vale, vale sim!
Vira e volta.
Joga longe!
Vai até o céu!
E, de lá, altas
As risadas das nuvens brancas
Brincando de ser bichinhos
Branqueavam de giz
As mãozinhas meninas
Que os leves pezinhos
Não pendiam nas linhas!
Mas se errar, me diz...
Vira e volta
Um, dois, três
Começa tudo outra vez...
Um, dois, três...
Abaixava-me assim
E pegava a pedrinha
Sem pisar na linha!
Tudo vale, vale sim!
Vira e volta.
Joga longe!
Vai até o céu!
E, de lá, altas
As risadas das nuvens brancas
Brincando de ser bichinhos
Branqueavam de giz
As mãozinhas meninas
Que os leves pezinhos
Não pendiam nas linhas!
Mas se errar, me diz...
Vira e volta
Um, dois, três
Começa tudo outra vez...
25 de outubro de 2008
constituindo

A TV Câmara está exibindo a série Constituindo, uma reflexão sobre a Constituição brasileira, que completou vinte anos no dia 5 de outubro.
Artistas, intelectuais, esportistas, personalidades conhecidas pelo Brasil escolheram um artigo e expuseram suas críticas, dúvidas e esperanças.
Fiz esse trabalho com muito carinho e tive a sorte de contar com uma equipe maravilhosa do antigo Núcleo de Vídeos Especiais - atual Núcleo de Longos e Promos - do qual (infelizmente) não faço mais parte.
De qualquer maneira, fiquei muito feliz com o resultado e recomendo!
A série Constituindo tem 14 episódios curtinhos, de até cinco minutos cada um, e passa durante a programação da TV Câmara, sem horário definido. Também é exibido na TV Futura, na TV Justiça e na TV Brasil.
Clicando na imagem acima, vocês podem assistir ao episódio que está no Youtube, com a atriz, poetisa e cantora Elisa Lucinda. Espero que gostem!
Assista aos outros episódios da série:
Chico Caruso (cartunista)
Juliana Oliveira (apresentadora do Programa Especial)
Júlio Medaglia (maestro)
Paulo Lins (escritor e roteirista)
Elke Maravilha (atriz)
Rui Amaral (artista plástico)
Roberto Corrêa (violeiro)
Tico Santa Cruz (cantor)
Beth Carvalho (cantora)
Zico (técnico de futebol)
MV Bill (cantor e documentarista)
Sérgio Mamberti (ator)
André Fischer (Mix Brasil)
4 de abril de 2008
sivuca e eu
O sol estava forte demais. No auge da seca brasiliense, flagelava os infelizes que precisavam chegar ao trabalho à uma da tarde, como eu. Para somar aos prejuízos, aquele congestionamento genuíno, precursor dos muitos que existem hoje na cidade. Nessa época, era chefe de reportagem na TV Bandeirantes. A minha ansiedade vivia os píncaros de sua glória e pedia bis.
O carro era mais que um forno para essa laia a qual pertenço, dos indivíduos praticamente desprovidos de melanina. O estacionamento em frente ao prédio, no Setor Comercial Sul, já estava completamente lotado desde muito cedo. E eu, atrasada como nunca.
Antônio, o flanelinha camarada, viu meu carro lá de longe. Engraçado é que ninguém chamava o cara de Toninho. "Ô, dôtora! Tiro um aqui, que já sei que a senhora sai tarde!" Isso era uma senha. Significava que eu iria morrer nuns dez reais pela gentileza. "Valeu. Na volta a gente acerta." Lá de longe onde estava e ficou, ele acenou para mim, como sempre. "Mafioso..."
Subi as escadas até o hall vazio do térreo. Suada, cheia de pastas e bolsas, acho que meio descabelada também, arquejando feito um cão raivoso, não sei se de um cansaço premonitório da semana que viria ou de inconformismo por ficar refém do Antônio toda vez que me atrasava. O elevador ainda estava parado no quinto andar.
Conferi as medidas no espelho escuro enquanto esperava. “Isso aqui já foi menor”. Ajeitei um pouco as mechas ruivas, indomáveis, que já chegavam à cintura. Vi as horas e aproveitei para fulminar o relógio num olhar ácido sulfuroso. "Tou frita. Já devia ter despachado as equipes há muito tempo." Estava nesses pensamentos jogados à toa quando ele chegou.
Devia ter um metro e meio pelo menos. Um cabelão comprido e claro, que não sabia dizer se era loiro ou branco, amarrado num rabo de cavalo. Usava umas sandálias de couro, uns óculos de lentes grossas, uma camisa colorida de turista americano. Parou ao meu lado, diante do elevador, e ficou olhando pra mim com os cantos da boca em curva ascendente.
Eu também fiquei olhando pra ele. Só havia os dois, seres sobrenaturais, ali naquele hall; era sobrenatural que nos encarássemos fixamente, com predisposta simpatia. Não é todo dia que ocorre um alinhamento planetário desse calibre. De meu mirante particular - creio que nesse dia com um metro e noventa e três devido ao salto -, não conseguia despregar a atenção da criatura minúscula e alva, que retribuía da mesma forma. "Que cara mais esquisito. Parece o Sivuca"...
Quando o elevador finalmente chegou, entramos juntos. Apertamos o mesmo andar. Quase os dedos indicadores um do outro. “ET phone home”. Nos reconhecemos. Sem dizer uma palavra, mas com um sorriso querendo nascer gargalhada, continuamos nosso diálogo telepático de extraterrestres de mundos distantes.
Um cavalo marinho passou galopando. Saci Pererê apertou todos os andares, eu acho. Gnomos e elfos flutuavam entre as luzes e sombras. Uns tilintares e reco-recos espirituais ecoaram no espaço mínimo.
O elevador parou no nosso andar. Descemos. Ele não agüentou e me estendeu a mão. Eu lhe dei a minha, agora com a alegria da sonoridade real que tanto esperei ouvir nesses infinitos minutos. "Muito prazer! Meu nome é Hermeto Pascoal."
LEIA TAMBÉM:
"a necessidade da graça"
"remember the king"
"primeiro conto: o jardim"
O carro era mais que um forno para essa laia a qual pertenço, dos indivíduos praticamente desprovidos de melanina. O estacionamento em frente ao prédio, no Setor Comercial Sul, já estava completamente lotado desde muito cedo. E eu, atrasada como nunca.
Antônio, o flanelinha camarada, viu meu carro lá de longe. Engraçado é que ninguém chamava o cara de Toninho. "Ô, dôtora! Tiro um aqui, que já sei que a senhora sai tarde!" Isso era uma senha. Significava que eu iria morrer nuns dez reais pela gentileza. "Valeu. Na volta a gente acerta." Lá de longe onde estava e ficou, ele acenou para mim, como sempre. "Mafioso..."
Subi as escadas até o hall vazio do térreo. Suada, cheia de pastas e bolsas, acho que meio descabelada também, arquejando feito um cão raivoso, não sei se de um cansaço premonitório da semana que viria ou de inconformismo por ficar refém do Antônio toda vez que me atrasava. O elevador ainda estava parado no quinto andar.
Conferi as medidas no espelho escuro enquanto esperava. “Isso aqui já foi menor”. Ajeitei um pouco as mechas ruivas, indomáveis, que já chegavam à cintura. Vi as horas e aproveitei para fulminar o relógio num olhar ácido sulfuroso. "Tou frita. Já devia ter despachado as equipes há muito tempo." Estava nesses pensamentos jogados à toa quando ele chegou.
Devia ter um metro e meio pelo menos. Um cabelão comprido e claro, que não sabia dizer se era loiro ou branco, amarrado num rabo de cavalo. Usava umas sandálias de couro, uns óculos de lentes grossas, uma camisa colorida de turista americano. Parou ao meu lado, diante do elevador, e ficou olhando pra mim com os cantos da boca em curva ascendente.
Eu também fiquei olhando pra ele. Só havia os dois, seres sobrenaturais, ali naquele hall; era sobrenatural que nos encarássemos fixamente, com predisposta simpatia. Não é todo dia que ocorre um alinhamento planetário desse calibre. De meu mirante particular - creio que nesse dia com um metro e noventa e três devido ao salto -, não conseguia despregar a atenção da criatura minúscula e alva, que retribuía da mesma forma. "Que cara mais esquisito. Parece o Sivuca"...
Quando o elevador finalmente chegou, entramos juntos. Apertamos o mesmo andar. Quase os dedos indicadores um do outro. “ET phone home”. Nos reconhecemos. Sem dizer uma palavra, mas com um sorriso querendo nascer gargalhada, continuamos nosso diálogo telepático de extraterrestres de mundos distantes.
Um cavalo marinho passou galopando. Saci Pererê apertou todos os andares, eu acho. Gnomos e elfos flutuavam entre as luzes e sombras. Uns tilintares e reco-recos espirituais ecoaram no espaço mínimo.
O elevador parou no nosso andar. Descemos. Ele não agüentou e me estendeu a mão. Eu lhe dei a minha, agora com a alegria da sonoridade real que tanto esperei ouvir nesses infinitos minutos. "Muito prazer! Meu nome é Hermeto Pascoal."
LEIA TAMBÉM:
"a necessidade da graça"
"remember the king"
"primeiro conto: o jardim"
5 de março de 2008
plástica
Faz alguns anos, acho que tinha uns 30, em crise com tudo na vida, resolvi procurar um cirurgião plástico famoso.
Queria um nariz reto. Tem uma alturinha estranha no meio dele.
“Onde?”
Aqui ó.
“Ahhh...”
E uns seios maiores também. Meus seios são muito pequenos. Acho que o silicone vai resolver todos os meus problemas.
“Deixa eu ver.”
Ó.
“Hummm...”
Pensei também em tirar essas gordurinhas laterais aqui. Eu coloco calça apertada, elas saltam pra fora.
“Gordurinhas...”
É.
“Sei...”
Acho que eu preciso de um preenchimento no bumbum. Tem um buraco enorme de um lado.
“Buraco?”
Algo como um buraco.
"Enorme...”
Ah, tenho pouco queixo. Queria ter um queixo pronunciado. Mas isso eu não sei bem como pode ser feito...
“Eu sei.”
Puxa, que bom!
Depois de muito me ouvir e me examinar, o cirurgião plástico famoso me mandou de volta pra casa, dizendo que eu não precisava dele.
Foi o dia mais feliz da minha vida.
Queria um nariz reto. Tem uma alturinha estranha no meio dele.
“Onde?”
Aqui ó.
“Ahhh...”
E uns seios maiores também. Meus seios são muito pequenos. Acho que o silicone vai resolver todos os meus problemas.
“Deixa eu ver.”
Ó.
“Hummm...”
Pensei também em tirar essas gordurinhas laterais aqui. Eu coloco calça apertada, elas saltam pra fora.
“Gordurinhas...”
É.
“Sei...”
Acho que eu preciso de um preenchimento no bumbum. Tem um buraco enorme de um lado.
“Buraco?”
Algo como um buraco.
"Enorme...”
Ah, tenho pouco queixo. Queria ter um queixo pronunciado. Mas isso eu não sei bem como pode ser feito...
“Eu sei.”
Puxa, que bom!
Depois de muito me ouvir e me examinar, o cirurgião plástico famoso me mandou de volta pra casa, dizendo que eu não precisava dele.
Foi o dia mais feliz da minha vida.
18 de janeiro de 2008
a necessidade da graça
Eu era uma menina - nada pequenina - que queria ser bailarina.
De tanto pedir, insistir, chorar, implorar, rastejar, querer com toda a força, minha mãe resolveu, mesmo com sacrifício, me matricular na academia de balé. Foram apenas seis meses.
Afinal, poderia ser importante para a minha vida futura essa tentativa de contornar a inata falta de graça. Não adiantou muito. Eu já era grande, onze anos completos, enquanto as outras meninas dessa idade iam lá pelos níveis avançados de sapatilha de ponta. Eu decorava os compassos, as posições e seus nomes, mas ficava sempre dura demais, naquela rigidez própria de quem nunca se atreveu. Se bem que os óculos de lentes grossas também não ajudavam.
Num dia de chuva forte que me pegou desprevenida, eu, que ia para a aula de ônibus, fiquei ilhada ali, de sacolinha, meia-calça branca e collant rosa, sentada na porta da academia. Foi quando apareceu na minha frente, de guarda-chuva na mão, o marido da dona. Uma vez havia ouvido alguém dizer que ele era um artista de verdade, consagrado e reverenciado, apesar de eu nunca antes tê-lo visto.
Sorridente, muito branco, uns olhinhos amendoados, achou graça de mim – a graça!
“Tem medo de água, gato escaldado?”
Agora eu é que achava graça dele.
“Vamos que eu levo você de carro. Não vai se molhar não!”
Fui com a família: junto a mulher, ex-bailarina, e o filho pianista. Coubemos muito bem, todos dentro do fusca que ele mesmo dirigia. Colocaram-me no banco da frente e a conversa-quase-monólogo continuou.
“Você dança há muito tempo? E os óculos não atrapalham? Pode ser que óculos atrapalhem uma bailarina, não acha?” E ria.
Prestando uma atenção danada, eu balançava a cabeça, concordava, ria com ele, e me esforçava como nunca para ser graciosa.
“O senhor é artista?”
“Todo mundo é... Você também! A minha arte é a música. Gosta?”
Assenti e ele começou a cantarolar baixinho e gesticular com vigor, olhando pra mim de vez em quando. Não entendi muito bem, mas foi como um encanto: me desprendi do mundo nos movimentos e na melodia. Num instante chegamos a minha casa.
“Pronto, está entregue. Foi um prazer conhecê-la, senhorita bailarina.”
Era a primeira vez que alguém me chamava de bailarina. Sorri e fui andando em direção ao prédio, pés leves e mãozinhas curvadas.
Eu não sabia direito o valor daquele homem. Mas tinha percebido a existência da graça! Nas palavras, nas brincadeiras e nos gestos, que ele me mostrou brevemente, em suas várias manifestações, no caminho de casa, dentro daquele fusquinha. Nunca mais esqueci.
Ele era o maestro Cláudio Santoro.
(Essa cena ocorreu de verdade, no comecinho da década de oitenta. N. da A.)
De tanto pedir, insistir, chorar, implorar, rastejar, querer com toda a força, minha mãe resolveu, mesmo com sacrifício, me matricular na academia de balé. Foram apenas seis meses.
Afinal, poderia ser importante para a minha vida futura essa tentativa de contornar a inata falta de graça. Não adiantou muito. Eu já era grande, onze anos completos, enquanto as outras meninas dessa idade iam lá pelos níveis avançados de sapatilha de ponta. Eu decorava os compassos, as posições e seus nomes, mas ficava sempre dura demais, naquela rigidez própria de quem nunca se atreveu. Se bem que os óculos de lentes grossas também não ajudavam.
Num dia de chuva forte que me pegou desprevenida, eu, que ia para a aula de ônibus, fiquei ilhada ali, de sacolinha, meia-calça branca e collant rosa, sentada na porta da academia. Foi quando apareceu na minha frente, de guarda-chuva na mão, o marido da dona. Uma vez havia ouvido alguém dizer que ele era um artista de verdade, consagrado e reverenciado, apesar de eu nunca antes tê-lo visto.
Sorridente, muito branco, uns olhinhos amendoados, achou graça de mim – a graça!
“Tem medo de água, gato escaldado?”
Agora eu é que achava graça dele.
“Vamos que eu levo você de carro. Não vai se molhar não!”
Fui com a família: junto a mulher, ex-bailarina, e o filho pianista. Coubemos muito bem, todos dentro do fusca que ele mesmo dirigia. Colocaram-me no banco da frente e a conversa-quase-monólogo continuou.
“Você dança há muito tempo? E os óculos não atrapalham? Pode ser que óculos atrapalhem uma bailarina, não acha?” E ria.
Prestando uma atenção danada, eu balançava a cabeça, concordava, ria com ele, e me esforçava como nunca para ser graciosa.
“O senhor é artista?”
“Todo mundo é... Você também! A minha arte é a música. Gosta?”
Assenti e ele começou a cantarolar baixinho e gesticular com vigor, olhando pra mim de vez em quando. Não entendi muito bem, mas foi como um encanto: me desprendi do mundo nos movimentos e na melodia. Num instante chegamos a minha casa.
“Pronto, está entregue. Foi um prazer conhecê-la, senhorita bailarina.”
Era a primeira vez que alguém me chamava de bailarina. Sorri e fui andando em direção ao prédio, pés leves e mãozinhas curvadas.
Eu não sabia direito o valor daquele homem. Mas tinha percebido a existência da graça! Nas palavras, nas brincadeiras e nos gestos, que ele me mostrou brevemente, em suas várias manifestações, no caminho de casa, dentro daquele fusquinha. Nunca mais esqueci.
Ele era o maestro Cláudio Santoro.
(Essa cena ocorreu de verdade, no comecinho da década de oitenta. N. da A.)
4 de janeiro de 2008
18 de dezembro de 2007
7 de agosto de 2007
balas e chocolates

Sei que pode parecer lugar-comum. Talvez todo mundo ache isso de si mesmo. Mas, de verdade, às vezes penso que há coisas que só acontecem comigo.
Cena:
Dirijo o carro da minha mãe – que não tem ar-condicionado nem vidros escurecidos – de janelas abertas por causa do calor de torrar jacaré. Paro no semáforo fechado e muito demorado.
Vem o cara que distribui panfletos.
Obrigada.
Vem a moça que vende pano de prato.
Não, obrigada.
Vem o rapaz da associação beneficente com canetas na mão.
Não, não mesmo, obrigada.
Vem o cara das balas e chocolates. Para diante de mim e dá um passo pra trás, fazendo uma reverência.
Oooiii!
Não, moço, obrigada.
Eu não vou te vender nada não!
Não?
Eu-não-vou-estragar-essa-beleza-com-bala-que-engorda-e-chocolate-que-dá-espinha!
(Começo a rir)
Eusepudesseganhavanaloteriaefaziaumaplásticapraficarpelomenosumpoucobonitopratentarconquistarumaprincesacomovocê!
(Ele fala muito rápido, nem respira. Acho que é porque sabe que o sinal vai abrir a qualquer momento)
Seeupudessetedariatudonomundobeijariaseuspésmaseusouumcarafeiopobreduroenuncavoupoderchegarpertodeumamulhertãomaravilhosa!
(Só consigo gargalhar)
Lindadivinaespetáculodanaturezacomosolhosmaisbonitosqueeujávimasnãosãosóosolhosnãoparecequeétudotudinhomesmoondejáseviuumacoisadessas?
(Ele estica a mão pra mim. Automaticamente, retribuo. Ele beija a minha mão. O motorista do carro do lado começa a rir)
Nuncamaisvoulavaressamãoqueencostounumadeusafeitovocêquecaiudocéunaminhafrentealegrandoaminhavidaedandoluzpromeudia!
(Sorrio)
Olha, o sinal abriu. Obrigada por tudo, viu?
Eu é que agradeço por você existir, princesa.
Acelero o carro e atravesso a avenida comprida pensando em balas e chocolates.
16 de julho de 2007
histórias da lembrança imaginária do mar
Quando eu era pequena, bem pequena mesmo, como as pessoas nunca imaginaram que um dia eu tivesse sido, lembro-me de ter sonhado com o mar.
Não o mar que eu via de perto, da beira da praia de guarda-sóis, picolés e maiôs. Não aquelas ondas ferventes que transbordavam em caldos meus olhinhos de bebê. Nem o que me castigava as bochechas de vermelho pela quentura da areia crepitando.
O mar do meu sonho estava mais para oceano, inteiro no somatório de suas gotas, sequioso de amor pelos peixinhos, bússola de navegantes divagantes, grandiloqüente, me sussurrava nos ouvidos segredos de um belo dia de sol que, não sei porque, naqueles tempos idos, esqueci de viver.
Sinto falta dele. Daquele sal. Do mar do meu sonho, do cheiro de saudade que ele me remete lá de longe, quando tenho essas lembranças vagas. Fuuuuuuuuu... O vento me traz conchinhas rosadas e os tatuís crescem nas idéias. Água verde-azul que me faz mais feliz do que já fui.
Não o mar que eu via de perto, da beira da praia de guarda-sóis, picolés e maiôs. Não aquelas ondas ferventes que transbordavam em caldos meus olhinhos de bebê. Nem o que me castigava as bochechas de vermelho pela quentura da areia crepitando.
O mar do meu sonho estava mais para oceano, inteiro no somatório de suas gotas, sequioso de amor pelos peixinhos, bússola de navegantes divagantes, grandiloqüente, me sussurrava nos ouvidos segredos de um belo dia de sol que, não sei porque, naqueles tempos idos, esqueci de viver.
Sinto falta dele. Daquele sal. Do mar do meu sonho, do cheiro de saudade que ele me remete lá de longe, quando tenho essas lembranças vagas. Fuuuuuuuuu... O vento me traz conchinhas rosadas e os tatuís crescem nas idéias. Água verde-azul que me faz mais feliz do que já fui.
31 de março de 2007
sorte
Eu tenho sorte. Muita. Sempre chego a tempo de pegar o último pão quentinho da fornada. Encontro vaga no estacionamento lotado. Tenho um gato que obedece ordens! Covinhas nas bochechas. Vejo tudo quando fecho os olhos. Ganho rifas e sorteios. Acho um grande amor. Tropeço sem cair, caio sem me machucar, me machuco, mas sara logo. Gargalho fácil às lágrimas. Sei desenhar passarinhos e caracóis em dez segundos. Gosto de arroz com feijão. Danço sozinha na frente do espelho como se estivesse num palco. Desperto a simpatia de quem nunca tinha visto antes. Ouço música aqui dentro, sem precisar de I Pod. Escrevo as maiores bobagens sem medo. Faço pedidos para velinhas de aniversário e para estrelas cadentes até hoje. Sinto cócegas. Consigo decorar poesias enormes! Aprendo todo dia a perceber as lindas histórias que vivi. E vou viver. Com toda a sorte de alegrias.
3 de fevereiro de 2007
o baile
Vestido verde-água-claro
Longo, suave
Fluorescente
Flui flui flui
Quase dois metros de salto alto
Céus! Tão perto dos anjos
Fluido
Flui flui flui
Cabelos vermelhos
Esvoaçam vivos
Fluxos
Flui flui flui
Com as borbulhas
Sorrisos, danças
Flutuo
Flui flui flui
Flautinhas nas idéias
Flechas no coração
Flertes florescem
Espero, que vêm
E o vento canta
Ainda canta lá fora.
Flui flui flui...
Longo, suave
Fluorescente
Flui flui flui
Quase dois metros de salto alto
Céus! Tão perto dos anjos
Fluido
Flui flui flui
Cabelos vermelhos
Esvoaçam vivos
Fluxos
Flui flui flui
Com as borbulhas
Sorrisos, danças
Flutuo
Flui flui flui
Flautinhas nas idéias
Flechas no coração
Flertes florescem
Espero, que vêm
E o vento canta
Ainda canta lá fora.
Flui flui flui...
5 de janeiro de 2007
a artista
Estava na fila do supermercado meio vazio, folheando uma revista boba. Duas ou três tiazinhas conversavam, no caixa ao lado. De repente, ouço uma delas dizer:
- Olha essa moça aí. Parece uma artista.
Na mesma hora levantei a cabeça e olhei pra trás. Queria ver a artista. E o que exatamente isso poderia significar. Ninguém. Olhei para a direita. Um sujeito barrigudo de chinelos, com duas crianças. À esquerda, nada.
Ahn. Não tinha mais. Elas falavam de mim. A artista era eu.
Assim sem graça, voltei rapidamente à revista. Disfarcei: conferi o relógio, contei os pacotes no carrinho, guardei os óculos escuros, resmunguei baixinho que “essa fila não anda!” Foi daí que, bem devagar, tentando não ser percebida, olhei pra mim mesma, pra avaliar, dos pés aos ombros, que era até onde dava pra enxergar, afinal. Tênis pretos, saia jeans toda desfiada, camiseta preta desbotada.
Talvez eu já tivesse sido uma artista mais glamurosa. Ainda não sei qual era a idéia das tias. Mas pouco importa. Me vi artista de cinema, estrela dos anos 40, a piscar na tela, admirada por pipocas e olhos. A música orquestrada introduziu a seqüência.
A saia branca subiu às alturas na passagem pela calçada, deleite de brincadeira safada e quentinha. Para esfriar, mergulhei de maiô colorido e touca de flores, fazendo coreografia de caleidoscópio na piscina. Pulei de lá para dançar cheek to cheek com Fred Astaire, acompanhado de coro de objetos inanimados: cabides, cadeiras, vassouras, sei lá. Beijei languidamente Alain Delon, que desmanchou o francês no meu ouvido... Le prochain... O próximo! Acorda, moça. A fila anda...
Meu olhar entardeceu, nostalgiquinho... Quem sabe a artista que eu queria ser não aflora mesmo de vez em vez, quando estou mais distraída? Essa artista que me fará única, especial e desejada, a cada projeção da fita? É preciso procurar o glamour... Hoje quase aconteceu. E amanhã... Amanhã é um outro dia.
- Olha essa moça aí. Parece uma artista.
Na mesma hora levantei a cabeça e olhei pra trás. Queria ver a artista. E o que exatamente isso poderia significar. Ninguém. Olhei para a direita. Um sujeito barrigudo de chinelos, com duas crianças. À esquerda, nada.
Ahn. Não tinha mais. Elas falavam de mim. A artista era eu.
Assim sem graça, voltei rapidamente à revista. Disfarcei: conferi o relógio, contei os pacotes no carrinho, guardei os óculos escuros, resmunguei baixinho que “essa fila não anda!” Foi daí que, bem devagar, tentando não ser percebida, olhei pra mim mesma, pra avaliar, dos pés aos ombros, que era até onde dava pra enxergar, afinal. Tênis pretos, saia jeans toda desfiada, camiseta preta desbotada.
Talvez eu já tivesse sido uma artista mais glamurosa. Ainda não sei qual era a idéia das tias. Mas pouco importa. Me vi artista de cinema, estrela dos anos 40, a piscar na tela, admirada por pipocas e olhos. A música orquestrada introduziu a seqüência.
A saia branca subiu às alturas na passagem pela calçada, deleite de brincadeira safada e quentinha. Para esfriar, mergulhei de maiô colorido e touca de flores, fazendo coreografia de caleidoscópio na piscina. Pulei de lá para dançar cheek to cheek com Fred Astaire, acompanhado de coro de objetos inanimados: cabides, cadeiras, vassouras, sei lá. Beijei languidamente Alain Delon, que desmanchou o francês no meu ouvido... Le prochain... O próximo! Acorda, moça. A fila anda...
Meu olhar entardeceu, nostalgiquinho... Quem sabe a artista que eu queria ser não aflora mesmo de vez em vez, quando estou mais distraída? Essa artista que me fará única, especial e desejada, a cada projeção da fita? É preciso procurar o glamour... Hoje quase aconteceu. E amanhã... Amanhã é um outro dia.
12 de dezembro de 2006
a flor
Nasceu uma florzinha na espada-de-são-jorge
(é isso mesmo).
No começo, pensei que fosse uma samambaia.
Verdade, a talzinha parece uma samambaia no nascimento
(tão poucas coisas se parecem com uma samambaia além da própria!...)
Então
A tal espada-de-são-jorge
(que parece mesmo uma espada)
Começou a desabrochar, dar brotinhos e espichar bracinhos pra todo lado
(Uma loucura!)
Uma planta muito verde-escura, com bordas amareladas
Uma folha só em cada galho
Comprida e pontuda
Arraigada no vaso de argila com pedrinhas brancas
Plantada numa varanda minúscula
De um apartamentinho diminuto.
E a florzinha-samambaia lá, meio deslocada
(começo a achar que era um disfarce)
Alegrinha e florida apesar de tudo,
Na horinha mais certa colocou as pétalas de fora
E se ofereceu ao mundo como tal.
Que coisa mais estranha...
Como foi que surgiu ali?
Em que outros lugares absurdos
Será que pode aparecer uma flor?
(é isso mesmo).
No começo, pensei que fosse uma samambaia.
Verdade, a talzinha parece uma samambaia no nascimento
(tão poucas coisas se parecem com uma samambaia além da própria!...)
Então
A tal espada-de-são-jorge
(que parece mesmo uma espada)
Começou a desabrochar, dar brotinhos e espichar bracinhos pra todo lado
(Uma loucura!)
Uma planta muito verde-escura, com bordas amareladas
Uma folha só em cada galho
Comprida e pontuda
Arraigada no vaso de argila com pedrinhas brancas
Plantada numa varanda minúscula
De um apartamentinho diminuto.
E a florzinha-samambaia lá, meio deslocada
(começo a achar que era um disfarce)
Alegrinha e florida apesar de tudo,
Na horinha mais certa colocou as pétalas de fora
E se ofereceu ao mundo como tal.
Que coisa mais estranha...
Como foi que surgiu ali?
Em que outros lugares absurdos
Será que pode aparecer uma flor?
3 de setembro de 2006
dindinha

Madrinha fadada...
Longe de ser fada
Talvez enfadonha
Ou fade-out.
Com sua varinha curta
Mesmo sem condão
Transformou abóboras em doces!
Ratinhos em pelúcia!
Carruagens em carrinhos de brincar!
Dindinha se esforça
Espera aquela agüinha
Na maior expectativa
E quer muito não perder o sapatinho
Antes do meio-dia...
Príncipe encantado
De tudo ri.
Enzo nem sabe
Mas quem faz a mágica
É ele!
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