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10 de novembro de 2010

a escada

Minha avó costumava dizer que o Grand Papa caiu da escada.

- Ele caiu da escada! Caiu da escada, o coitadinho. Grand Papa, com todo aquele conhecimento, aquelas mãos de artista, morreu de um jeito tão bobo...

Minha avó não falava a palavra “besta”, como eu teria dito, ao me referir à morte tão besta de meu trisavô, o finado Sisson. Aliás, essa era uma das muitas palavras que ela se recusava a dizer, por achar “feia”, desconjuntada, desafinada, inapropriada. A fealdade não combinava com ela. Por isso, em muitas de suas histórias pela vida, Mariazinha preferiu deixar as palavras pouco belas de lado.

Grand Papa, esse não havia conhecido de encostar com a mão. Um lamento que teve que carregar pela vida inteirinha, de tanto que o admirava. Quando nascera, em 1910, já não existia mais seu avô. Também, pudera. Mariazinha veio ao mundo temporã. Sua mãe, imagine, às vésperas de completar quarenta anos, naquela época em que as mulheres de quarenta se resignavam, uma vez que se entregassem, desde os trinta e cinco, ao conformismo com a velhice. Seu irmão mais velho, o Francisco, perto dos 20, já era militar e servia no Quartel-General do exército. Alberto, Alfredo e Ângela vinham em escadinha, na sequência. Assim, a pequena chegou, em meio a mimos e predestinada a crescer entre adultos. Tornou-se o eterno bebê da casa.

Em contrapartida, Mariazinha nunca se opôs a fazer jus aos suspiros encantados que a cercavam. Menininha linda, cheia de talentos e habilidades, repetia com graciosidade todas as quadrinhas que lhe ensinavam.

- Ah, Grand Papa!... Como foi que não o conheci! – dizia, com beicinho de muxoxo.

Era muito criança, a minha avó.

Não no sentido de quem padece de males das idéias, vindas com a idade. É que, apesar de avançada no tempo, tinha certas birras e desatavios juvenis. Nunca entendi muito bem as reações de Mariazinha.

Talvez Grand Papa não teria entendido também, pois Grand Papa, para mim, era apenas um vulto na História. Um homem francês e muito prático, artista dos bons, litogravurista, mas daqueles que vivem do ofício e trabalham duro nas encomendas que serão impressas em larga escala.

Lá em casa, à noite, sento-me à mesa que antes esteve na cozinha dela, da minha avó, para tomar a sopa que eu fiz. Penso no cheiro da comida de Mariazinha, no tempero, no filé de viola ensopado com molho de tomate que ela mesma fazia e ninguém, nunca mais, conseguirá fazer igual.

Grand Maman não teve morte besta. Sofreu, ainda que não soubesse disso. Depois, ela escapou ao meu tempo, no espaço. Roubaram Mariazinha de mim. Eu estava muito longe, em outro país, estudando. Ninguém me disse da morte dela. Pensaram que eu largaria tudo e me despencaria de lá para vê-la pela última vez. Sim, é isso o que eu teria feito, se tivessem me dado chance.

Por isso até hoje - que por agora faz mais de dez anos que ela se foi - digo que Grand Maman caiu da escada também. E esse é um vazio que a gente não preenche mais, dia nenhum, hora nenhuma na vida.

...

22 de setembro de 2010

uma casa muito engraçada

Finalmente, posso considerar-me mudada.

E, na casa nova, tudo tem um colorido sem cor. Apesar das paredes brancas, das portas brancas, das porcelanas brancas, dos azulejos brancos, enxergo as matizes alegres de uma vida reformulada.

Há de chegar muito em breve o tempo de pendurar os quadros.

O lustre da sala ainda não se materializou, o buraco continua ornamentando o teto, mas a luz preenche todos os vazios.

Os armários virão a ser, logo, logo – acredito! -, para aliviar as malas da sina das roupas.

Ainda que um cano esteja entupido, uma parede meio torta, o guarda-roupas velho e o vidro do box um tantinho arranhado, o meu lar tem me trazido as melhores soluções, que se farão cada vez mais por si mesmas, sem muita ajuda ou preocupação.

É um lugar de confluência de bem-querências que ronronam na tranqüilidade de três gatinhas felizes e no enlevo gostoso de um amor muito esperado.

Aqui sim, posso viver os dias. E bem.

29 de setembro de 2009

memorial do dia 14 de outubro de 1970 (impressões embrionárias)

Acho que foi mais ou menos quando os Beatles terminaram que eu comecei.


De lá de dentro da barriga da mamãe, teve um dia que ouvi um grito de "goooool..." Era uma descoberta pra mim, esse negócio de ouvir. Tinha desenvolvido recentemente essa, digamos, percepção. Aproveitei para dar meu primeiro chute.


Mais ou menos um mês antes, o Jimi Hendrix fez sua última apresentação. Mais ou menos 21 anos depois, eu o homenageei batizando meu cachorro com esse nome.


A Janis Joplin morreu dez dias antes de eu nascer. Eu sempre gostei de Mercedes-Benz.


Uma semana antes, um militar socialista tomava o poder na Bolívia.

Três dias antes, o arquipélago de Fiji proclamava a sua independência.

Aí, eu nasci. Sei apenas que era o dia dedicado a São Calisto, religioso de devoção dos católicos. Interessante que o tal santo veio ao mundo escravo, comeu o pão-que-o-diabo amassou e acabou virando papa. Ah, sim, as catacumbas dele são as mais visitadas de Roma.

Dez dias depois, Salvador Allende assumia a presidência da República, no Chile.

E um mês depois, no aniversário da minha mãe, é que era o dia certo d'eu nascer. Não quis ser escorpiana não, apesar de ter aprendido a soltar meus veneninhos quando necessário.


A partir daí... Tudo é, literalmente, memorável.

6 de agosto de 2009

terra vermelha

Eu e Lili íamos todos os dias à venda do turco. Minha mãe o chamava de turco, palavra imediatamente replicada por mim, mas hoje tenho convicção de que tratava-se de um cidadão libanês. Portava um bigode vistoso – assim como sua rechonchuda filha – e apontava para nós suas olheiras enormes e o nariz adunco de seus antepassados. Íamos de bicicleta, umas bicicletinhas de criança pequena, velhinhas, meio desconjuntadas. Na terra vermelha das ruas sem calçadas, canteiros ou asfalto, sumíamos em nuvens de redemoinhos, que havia muitos naquela época. Manifestávamos nossa presença depois que a poeira baixava e assim éramos vistas, de tempos em tempos, como crias de sacis. Enfiávamos as mãozinhas imundas nos bolsos e puxávamos moedas: um cruzeiro com sorte, cinquenta centavos frequentemente. Então atravessávamos a loja escura, cheia de barris de madeira abarrotados de farinhas e grãos, desviávamos das caixas com legumes e verduras, e nos esgueirávamos em direção ao balcão à procura de doces.

O baleiro giratório do armazém do turco ainda rebenta em meus melhores sonhos. Dentro dele, balinha Malukinha de uva e menta, chiclete Ploc e Ping Pong, paçoquinha de rolha, doce de abóbora em forma de coração e de banana cremoso-duro, que vinha dentro de um potinho de casquinha de sorvete, com pazinha para comer. Também tinha maria-mole cor-de-rosa e amarela, que a Lili comia sempre, vindo exibir a língua em Technicolor. Pagávamos e ganhávamos as compras dentro de saquinhos como os de pão, só que bem pequenininhos.

Do outro lado da rua havia uma loja de animais. Nossa rotina diária consistia nisso: primeiro compromisso, doces na venda do turco e segundo, visita aos bichinhos. Gostávamos de afagar os coelhos e alimentar os porquinhos-da-índia com capinzinho colhido ali na frente - Brasília na década de setenta era pura terra e mato. Lá se vendia até pombos, até galinhas e pintinhos, até cágados em aquários! Aquilo era o paraíso para menininhas de sete anos. Mas tínhamos outros afazeres importantes a cumprir para a tarde.

Pular amarelinha riscada com giz de gesso que achávamos jogados nas obras – também havia obras pra todo lado –, e competíamos usando casca de banana em vez de pedrinhas. Brincadeira de imitar “As Panteras” da tevê e todo mundo queria ser a Kelly, que era uma só. Acompanhar as formigas e catar algumas para fazer experiências com álcool de limpeza ou simplesmente descobrir se elas sabiam nadar. Subir na árvore de seiva que dava nódoa na roupa, o mais alto que pudéssemos – a Lili subia mais que eu. Fazer bolo de areia e flores no parquinho que o porteiro do prédio construiu sozinho, com o carinho de um confeiteiro.

Andávamos aquilo tudo sozinhas. Nossos pais nunca souberam por onde brincávamos. Sei só que no começo da noite ouvia um assobio característico ou um grito da janela do quarto andar: “Maaaarcya! Sooobe!” Despedía-me da Lili, deixando tacitamente acordada a agenda para o dia seguinte. E ao entrar em casa tal e qual uma escultura de barro, era obrigada a pular direto na banheira cheia d'água, que sempre ficava vermelha, vermelhinha, como a terra da minha infância.

6 de maio de 2009

sueño

Acuerdate, mi amor,
De un día que todavia no vivimos?
Despierta

Caminamos por el Malecón, las manos entrelazadas
El viento jugando con las gotas de las olas suspendidas
A caer en nuestras caras y evaporar, felices, – por así decir –
Con el calor de los cuerpos sudorados del bueno sol.

Acuerdate?

Subimos por La Rambla; alguién cantaba,
Yo le dijo: ahora es todo nuestro, el tiempo.
Pero, en mi sueño, aunque tan bonito fuera,
No había tanto cuanto en tu mirada justo a mi.

Acuerdarte...
Y despierta conmigo
Se me han caído unas lágrimas de nostalgia por el porvenir.

Nosotros siempre
Lejos de las horas muertas
Encantados como un poema recién nacido en la mañana clara.

15 de janeiro de 2009

o que os amigos dizem

Estou com dor de dente há dias. E, literalmente, sangue no olho (como diz minha amiga Fabiana), mas é porque tive um derramezinho ocular. Derramezinho nada. Estava enorme e, grudado na minha íris verde, parecia um quadro abstrato de artista plástico japonês (como disse meu amigo Pedro Henrique).

Enquanto isso, o dente dói. Acho que foi porque plantei uma bananeira perfeita na aula de yoga e os meus maxilares irrigaram demais a raiz. Da bananeira não, do dente. Minha amiga Maria disse que estava perfeita e me deu os parabéns. Mas não consegui uma consulta de emergência e esperei pacientemente por três dias para ser atendida com hora marcada. A dor aumentou. Descobri com tristeza que o meu dentista lindo se casou. Nem sei porque me entristeci. Fazia mais de dois anos que eu não ia lá.

O sangue no olho amedrontou todos os meus amigos, menos eu, que não conseguia visualizar aquela mancha vermelha, a não ser bem de perto no espelho. Por insistência deles fui à emergência do serviço médico da Câmara e, como foi um clínico que disse que não era nada, ninguém acreditou. “Vai num especialista!” – disseram em uníssono. Fui ao oftalmologista, que não era casado, mas também não era lindo. E ele repetiu que não era nada mesmo. “Só um derramezinho ocular”. Vai passar em quinze dias. “Até um espirro pode provocar isso”. Um espirro. Aposto que foi a bananeira que eu plantei.

Minha mãe falou que eu não devia mais ficar plantando bananeira na aula de yoga. Olha a minha idade.

E o meu dentista lindo, que não é meu amigo por assim dizer - temos uma relação estritamente profissional - não disse nada. Nem reparou o sangue no olho.

Minha amiga Maíra sempre pergunta: "por que as coisas são assim?"

4 de novembro de 2008

sobre o tempo que levam os sonhos

O gatinho pequeno está dormindo em cima da mesa do computador novo. Essa mesa que já foi de jantar, muito tempo atrás (talvez nem tanto assim). O computador é novo, mas o desejo de tê-lo é velho. Na verdade trata-se de uma ilha de edição, na qual eu poderei produzir, um dia, meus sonhos mais e mais longínquos ainda: os roteiros que escrevi, há anos. Para isso, comprei uma câmera de vídeo no ano passado – ótima, mas que logo estará ultrapassada, porque atualmente é preciso pouco tempo para isso -, um bom tripé, durante a viagem que fiz a Nova Iorque - sempre quis conhecer Nova Iorque mas tinha vergonha de dizer - e, principalmente, uma cadeira confortável para ficar horas e horas diante do Adobe Première (ou do Avid, que quero aprender a operar direito quando me sobrar um tempo). Aliás, tempo era o que mais havia no assento anterior do meu tão sonhado escritório – agora quase real. Eu me sentava numa cadeirinha delicada, talhada a mão, que foi da cozinha de minha avó, há algumas décadas. E antes disso, da mãe de minha avó. Era até um pecado – apesar de não me sentir mais ameaçada por pecados como me sentia quando criança – mas juro que só ficava trabalhando sobre essa relíquia por uma questão de praticidade: não tinha outro lugar para me sentar. E só aposentei a pobrezinha porque as costas doíam depois de muito tempo ali, envolvida com a informática. Aposentei não. Por questão de tradição, ela foi parar na minha cozinha, que nem é tão nova assim. Pensei que jamais fosse aprender a cozinhar. Demorou, mas consegui. Só que nunca me lembro de comprar conhaque para fazer crêpe Suzette. Quando eu era pequena ouvia esse nome e achava lindo... Sonhava com o dia em que iria prová-lo, apesar de não ter a menor idéia de como o doce era. E o que importa? Naquela época, na padaria onde eu podia gastar minha mesada, os sonhos nunca acabavam antes que eu provasse um. Já na vida não. Mas sou maníaca por doces até hoje. E talvez por esse motivo só tenha usado o computador novo para procurar receitas antigas e restaurar as fotos de minha avó. Enquanto gasto meu tempo, o gatinho pequeno vira-se. Ressona, ronrona, espreguiça. Ele é novo. Ainda tem todo o tempo do mundo. Mesmo que não saiba bem o que isso significa.

5 de agosto de 2008

o trovador

Ele fala assim mesmo, de verdade,
Como se viesse de um outro século, esquecido no passado.
Engraçado.
Cheio de sentimento, elucubra, suspira,
Volta-se com uma filosofada
E conclui um poema seu (ou de outro)
Cheio de aspas, itálicos e travessões rococós.

Eu pensei que fosse brincadeira de assim, recém-conhecer,
Que criança faz pra se mostrar pras visitas.
Mas não era não.

Eu troço com ele:
É um trovador, um poeta errante,
O paladino temporão de tempos que nunca viveu.
De um lirismo imaginado
Que só os bondes de Santa Tereza, os chapéus-coco, as tevês de válvula e as máquinas de escrever podem lembrar.
Ele, ri, me acha graça, de sua meninice inata e sincera.

Mas, depois de muitas cólicas de alegria, distrái-se outra vez no etéreo,
Reencontra Rocinante e Sancho Pança na curva da nuvem,
Chora pra mim todos os seus sonhos insustentáveis,
Todas as suas vontades de envolver a galáxia com os dedos mindinhos,
Todas as suas aflições infinitamente sem solução...

E termina por resolver algumas das minhas.
Estranhamente,
As mais palpáveis e solúveis.

15 de julho de 2008

chegadas e partidas




a caldeira está fervendo
as linhas férreas
e retas
se curvam ao calor

Me espera, condutor!
(tá na hora?)
Avisa, maquinista, que eu vou junto!
(posso ir?)

vamos marcar os assentos
bem próximos, na janela
e viajar

Eu ainda quero alcançar esse trem
(será que dá tempo?)




(Foto que tirei da maria-fumaça de Passa Quatro, MG, na Serra da Mantiqueira)

27 de dezembro de 2007

o que faltou

Faltou espaço.
Faltou tempo.
Faltou ar.
Faltou amar.

Faltou respirar brisa do dia.
Faltou caminhar de olhos fechados.
Faltou confiança e eu sabia
Que faltava olhar para os lados
E enxergar.

Faltou dizer tudo pra quem eu amava,
Mas minhas palavras estavam em falta,
E na hora faltou coragem.
Por outro lado, faltou calar na hora certa,
Que pra isso também é preciso coragem
(Acho que foi ela que mais me faltou).

Faltaram novos filmes, novas músicas.
Faltou pouco para um beijo - ou dois.
Faltaram mãos dadas.
Faltou uma despedida.
Faltou dizer sim
Dizer não.
Faltaram verdades.
Faltou superar
(Pra isso, faltou vontade).

Vi que faltou paciência – essa sempre falta.
Faltaram respostas, porquês, motivos.
Eu sei que faltou sair de casa, ver pessoas, ir pra rua.
Tentar.
Faltou socializar.
Faltaram oportunidades.
Faltou dinheiro.
Faltou um rumo,
Pela falta de alternativas.

Só o que sobrou
Foi a falta grande que eu sinto
De tudo o que faltou
Sobrar no ano que vem vindo
Pra recomeçar a vida
Sem falta
Outra vez.

4 de setembro de 2007

toccata e fuga

No estribilho...
O estribo levantou o martelinho,
Que bateu na bigorna,
(Feliz)

Tocada da música,
Toquei as notas mais altas
Com minhas mãos frias.
(Toco pelo calor que arrebata a pauta)

Fugi quando não mais podia
E na fuga,
Estilhacei os tímpanos.
(Fujo do compasso que abomina a letra)

E, sozinha no tempo, no vácuo e no amor,
Com a concha de meus ouvidos cegos da vida,
Antevi o próximo acorde.
(Mas nem os fantasmas se lembrariam de mim)

4 de junho de 2007

patchuli

Oi, meu amor, venia cá!
Eu?
Sim, venia, que aqui eu resolvo todos os seus problemas!
Todos?
Tenio remédio pra tudo aqui. Olhe só.
O quê?

Você já tem um amor?
Amor?
Uma moça bonita dessa não tem amor?
Ahn... Bem... Pra senhora ver...
Mas gosta de alguém, não é, meu amor?
Seu amor?
Todo mundo tem um amor, meu amor.
É, tem.
Essa essência aqui é ótima.
Qual?
“Vem a meus pés”.
Que planta é essa?
“Vem a meus pés”? Ahhh, é uma planta que faz a pessoa amada vir a seus pés.
A meus pés?
Sim!
Só isso?
E quer mais, meu amor?
Bem... Acho que sim.
Então essa aqui também é tiro e queda...
Ahn?
“Perfume da perseguida”.
Ai, meu Deus!
E o cheiro é bom, meu amor!
E o que é isso vermelho aí dentro do vidro?
Esses pedacinios aqui?
É.
Shhh... É pedacinio da perseguida, meu amor!
Ui!... Não, não gosto de nada feito de bicho, não.
Então olha, tem também o “Agarradinio”...
Agarradinho... Esse parece bom...
É ótimo!
Mas acho que ainda não vai resolver o meu problema...
Ê, problema pai d’égua esse, meu amor!
Pois é...
Você precisa é de um patuá dos mais fortes!
Então?
O “Olho da Bôta”.
Bota?
Bôta.
Bôta???
E não é, meu amor?...
Ai, dona, acho que não tem jeito não.
Tudo tem jeito, meu amor...
Talvez não...
E então, decidiu o que vai levar?
Me dá só um vidrinho de patchuli.

20 de maio de 2007

rapunzel

Meus cabelos compridos se atiram pela janela
Em ondas avermelhadas
Mas ainda não tocam o chão.
Esvoaçam ao vento, tênues, apesar do peso que levam...
Os pássaros roubam os fios que se soltam
E tecem ninhos sanguíneos.
Minhas tranças enormes ainda não alcançam meu desejo
De colocar as mãos na terra
Me libertar da torre escura
E sentir que pode ser real.

15 de novembro de 2006

candidatura

Candidata alta, solteira, simpática
Dispõe-se a uma vaga.
Você, que elege,
Tem que me escolher!
A minha plataforma
Está no armário, não se preocupe.
E tenho propostas
Realmente interessantes...
Pro seu governo, eleitor,
Vote em mim!

8 de novembro de 2006

fábula











Meu amor é inútil
Pois o tenho aqui sem uso.
É uma sensação que a cigarra velha
Encasulada anos e anos debaixo da terra
Deve ter tido, meditando,
Tanto tempo à espera só
Na sofreguidão do ar...
A cantorinha sonha com o dia em que
Numa manhã madura
Irá se desencavar
Depois de muito sacrifício
E chamar por seu amor
(Ela chama por seu amor!)

Que nem sempre vem.
Algumas conseguem que ele tenha
Ouvidos de escutá-las
E morrem felizes na esperança das pupas
Que vão levá-las a uma nova história
Por mais tempos e tempos.
As outras continuam cantando bolerões
E lacrimejando
Todas as primaveras
Nas esquinas dos jardins deflorados
Até sumirem nas artes das crianças
Na pressa dos carros nas ruas
Ou nas garras de um gato brincalhão.

28 de agosto de 2006

estribilho

No meio do escuro nada
Entre os meus cabelos de cipó
Preso, um passarinho.

De onde saiu não me lembro
Por qual janela entrou
O inócuo

Nem se debatia
A não ser em si mesmo
E me fazia rir

Cantou, incauto, um fato ou dois
Tossiu, pediu grãos
Deu voltinhas pelo ar

E ainda que eu não o encontre
Nos horizontes que irradiam desde já
Sei que me entreabriu uma pestana
A que estava a mais cochilar

E agora que aquele voa
Antevejo mil duzentos e cinqüenta e sete
Passarinhos estribilhando

E eu ali
A finalmente
Ouvir a música

15 de agosto de 2006

ruínas

Comecei a erguer uma casa.

De início, não tinha eu as maiores ambições. Queria apenas um lugar onde pudesse me saber feliz. Já morei em alguns diferentes espaços. Mas nenhum que eu chamasse verdadeiramente de lar. E sem nada mais a perder, num estranho segundo, comecei a construção.

Fazia tijolo, concreto armado, pau pra toda obra, madeira de lei, azulejo relevante, era vidro, pedra no sapato, dava na telha, parafusos a menos, ficava só o prego, martelava no dedo. O desalinhamento não veio junto, como eu temia. Subiu tudo numa rapidez de muito investimento.

E assim, sem querer, o que nasceu lugar para morar... Tinha virado um castelo. Com tantos cômodos aconchegantes, tantos vãos e voltam, escadas de caracol, salas imensas, claras varandas, quartos crescentes, jardins suspensos, fechaduras cheias de olhos, armários de C. S. Lewis, cantinhos a perder a conta, portas para outras dimensões, que às vezes desaparecia para me achar lá dentro. Encontrava cem janelas abertas para as nuvens e o sol. Veneza ou Kuala Lumpur. Para a máquina do tempo. Para as savanas africanas ou para uma lagoa dos Lençóis. Na minha própria casa.

Até que, numa noite sem chuva, de volta, cansada depois de um dia de trabalho... Ela não estava mais ali. A casa que eu levantei com carinho e suor foi mais uma vez ao chão, como todas as outras, com tudo o que eu amava lá dentro. Ruiu, e até hoje não sei bem se veio inteira abaixo ou se a demoliram sem pressa, às colherinhas de café sem açúcar.

Sei eu que as ruínas vão ficar, expostas e misteriosas, lindas e gratuitas, abertas à visitação pública. Ou até que reapareça, por fortuito que seja, o desejo de um dia as reconstruir.

8 de agosto de 2006

frutas ácidas

O ácido da minha boca não vai sair. Corrói, mas, estranhamente, transige o doce, que vive por ele, lado a lado, sem, no entanto, poder se misturar. E o doce que por ele é, sofre de amores pelo ácido. Que química é essa que falta, que ligação covalente, que doses de prótons e elétrons, que não chega para uni-los nunca?

Pensei primeiro que esse amor fosse fruto do abacaxi muito maduro, que cortei e me cortou. Quase verteu sangue essa dor! Depois tive a dúvida do limão, a suspeita da laranja, um tomate que levei na cara! O amargo se meteu para reivindicar seu lugar no doce coração. Mas não há fruta que resolva esse impasse, dos gostos que se complementam sem se misturar. Não tem salada nem explicação.

E quisera o doce ser tão sulfúrico, queimar mesmo, para deixar marcas visíveis e indeléveis. E quisera o ácido viver mais açucarado, se entregar sem medo ao néctar, melar ao toque gostoso de todo dia...

Mas histórias de amor são assim: tanto mais bonitas quanto mais impossíveis, tanto mais prováveis quanto mais imiscíveis, que se dessa forma não fossem, não teriam elas sabor.

27 de julho de 2006

sobre cinzas










Depois das cinzas, algo se recompôs. Não era mais o que tinha sido e não parecia muito melhor, assim, de olhar rápido... Disse que vinha nova, nova, feita outra vez, com frescor mocinho, mas lá no fundo do olho, lá onde a gente procura o brilho de dentro, ficava com aquele cheiro de coisa velha, gosto de ontem, chafurdando bolor nos cantinhos da alma.

Ai, que nessas horas tem sempre um pra dizer que o passado tem que ficar lá atrás. Fala mesmo, meu amor, que um dia você também topa de encontrão com o seu. Bem na sua frente.

Pois assim, se procurando e encontrando nesses barrancos, meus destroços teimaram em juntar-se. Não foi de uma vez não. Nem nunca será. Mas se levantaram, unidos aos pontinhos mal cosidos de eterna principiante na vida. Fênix das mais raras (como todas elas, aliás), ainda tenta enxergar as próprias pernas, sem perceber que já a sustentam de pé.