Vixe, hoje é sexta-feira, 13.
Estacionei o carro no sol e aquilo vai estar um forno de microondas quando eu voltar.
Será que o Locke morreu mesmo?
Estou com uma vontade louca de comprar uns vestidos, uns sapatos novos... Mas eu não posso! Sai, sai!
Esse BBB 9 tá uma bosta.
Acho que meu dedinho do pé está ficando dormente.
Esse barulho foi do estômago de alguém? Jesus!
Amanhã tem aula de balé clássico, bem no horário do almoço, e já sei que vou sair furiosa de fome e devorar o que estiver pelo caminho. Seja lá o que for.
Será que eu não vou poder ser bailarina porque não existe collant do meu tamanho?
Odeio rede sem fio. Odeio!
Huahuahuahuahuahuahuahuahua! Mas por que eu estou rindo?
Acho que sonhei com o Brad Pitt.
Que horas será que são?
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13 de fevereiro de 2009
2 de fevereiro de 2009
pensamentos miados

Meus instintos felinos dizem que hoje vai ter atum. Pressinto o cheiro do atum, mesmo dentro da lata. Ela vai comer atum hoje. Sanduíche de atum. Tenho certeza! É que hoje é dia dela sair cedo com uma roupa engraçada, bolsa grande e tênis. Ah, os tênis! Amo aqueles cadarços mais que tudo nas minhas sete vidas. Fora o atum. E iogurte de morango. E caixas, claro.
Então, nos dias em que ela sai assim, volta no fim da manhã e come rápido. Não suja nada na cozinha. Não fica nada pra fuçar escondido quando ela vai embora. Principalmente se for um dia depois da visita daquela mulher baixinha do aspirador de pó. Vocês sabem do que se trata, não é? O aspirador de pó é um monstro que fica dias trancado no armário. Ele é pior que qualquer cachorro. Pior que o veterinário. Pior que o petshop. Pior que o secador de cabelos. Odeio o aspirador de pó.
A tal mulher baixinha vem uma vez por semana, liberta o monstro, limpa tudo, esfrega panos e cheiros esquisitos no chão e nos móveis, tira meus odores da casa inteira e depois eu tenho que ficar salivando em tudo de novo! É um inferno! Um serviço que não acaba nunca.
Ela abriu o armário da cozinha. Acho que está procurando a lata de atum. Não. Vai colocar aquele troço marrom no leite. Eu já gostei de leite, muito tempo atrás. Mas agora leite me embrulha o estômago. Passo mal e não ponho pra fora apenas as singelas bolas de pelos. Acho que estou ficando velha. Imagina, já vou fazer nove anos de vida! Ainda bem que tenho outras seis.
Ela me chamou. Será que eu vou? Ou não? Essa indecisão me mata. Acho que vou, bem devagar, pra não parecer que estou obedecendo. Vou me atirar nos pés dela e espero sinceramente que isso valha uma boa recompensa, do tipo coçadinha na barriga. Ou um pedaço maior de atum.
11 de agosto de 2008
sobre flexibilidade
Aproveitando as manifestações zen que começaram no post anterior.
Hoje, estava eu na aula de ioga, numa posição que chamaria de, no mínimo, não recomendável para pessoas que têm problemas de coluna. Fazia "o arado": deitada no chão, as pernas esticadas passam para trás por cima da cabeça, a ponta do nariz praticamente grudada no umbigo, a nuca inteira cravada no piso.
E, apesar de minha pouca flexibilidade, consigo fazer isso magistralmente. Sou até capaz de relaxar nessa postura incômoda e antinatural. Não sei bem o porquê disso. Mas o fato é que foi assim, nessa pose invertida, que tive uma breve iluminação.
Comecei a sentir um orgulho de mim mesma, uma satisfação pessoal de fazer isso tão bem quanto o professor - ou melhor que ele - que me levou a imaginar o quanto é bom ser flexível. Pensei também como era difícil para mim me virar no movimento contrário: quando a ordem era esticar para a frente, eu parava feito uma árvore no meio do caminho, dura, estática, travada, impossibilitada de encostar os dedos das mãos nos dos pés.
Por que sou tão vergável para algumas coisas e tão inflexível para outras?
E assim, nesse curtíssimo e estranho momento filosófico de minha existência, concluí que posso ser mais feliz quanto mais flexível puder ser. Em todos os aspectos da vida. É aquela velha história do bambu que se verga ao vento sem quebrar.
Vamos ver se isso dá certo.
Hoje, estava eu na aula de ioga, numa posição que chamaria de, no mínimo, não recomendável para pessoas que têm problemas de coluna. Fazia "o arado": deitada no chão, as pernas esticadas passam para trás por cima da cabeça, a ponta do nariz praticamente grudada no umbigo, a nuca inteira cravada no piso.
E, apesar de minha pouca flexibilidade, consigo fazer isso magistralmente. Sou até capaz de relaxar nessa postura incômoda e antinatural. Não sei bem o porquê disso. Mas o fato é que foi assim, nessa pose invertida, que tive uma breve iluminação.
Comecei a sentir um orgulho de mim mesma, uma satisfação pessoal de fazer isso tão bem quanto o professor - ou melhor que ele - que me levou a imaginar o quanto é bom ser flexível. Pensei também como era difícil para mim me virar no movimento contrário: quando a ordem era esticar para a frente, eu parava feito uma árvore no meio do caminho, dura, estática, travada, impossibilitada de encostar os dedos das mãos nos dos pés.
Por que sou tão vergável para algumas coisas e tão inflexível para outras?
E assim, nesse curtíssimo e estranho momento filosófico de minha existência, concluí que posso ser mais feliz quanto mais flexível puder ser. Em todos os aspectos da vida. É aquela velha história do bambu que se verga ao vento sem quebrar.
Vamos ver se isso dá certo.
10 de julho de 2008
exame de coração
"Ô, mulher sem coração!"
É, foi isso o que ele disse.
Sempre tive pressão baixa. Mas, não sei porque, encasquetei que precisava revisar geral. Talvez pelo aumento considerável da atividade física, talvez pela lembrança longínqua de um propalado prolapso da válvula mitral no passado adolescente, sei lá, resolvi procurar um cardiologista.
Abri meu coração pra ele. Depois de perguntar sobre o histórico de toda a família e ouvir um quilométrico desfiar de "nãos", me receitou uma lista de exames de todos os tipos, muitos deles feitos ali no próprio consultório, o que me fez até desconfiar da autenticidade das preocupações do médico com meu suposto problema. No final, decidi: vamos onerar um pouquinho o plano de saúde. É pra isso mesmo que eu estou pagando.
Pra começar, coloquei um aparelho de monitoramento de pressão 24 horas. Na rua, todo mundo olhando pra mim. Debaixo da blusa, meu bíceps crescia misteriosamente como se eu fosse o Popeye comendo espinafre. Prrrrrrrrrrr. Fuuuu. Fuuuu. Fuuuu. Fuuuu. Fuuuu. Sssshhhhhhh...
O negócio preso no meu braço enchia de ar a cada quinze minutos, durante o dia inteiro – e depois, a noite inteira -, infalível e inflalível, o que, realmente, deve ter contribuído bastante para aumentar como nunca a minha pressão arterial. Prrrrrrrrrrr. Fuuuu. Fuuuu. Fuuuu. Fuuuu. Fuuuu. Sssshhhhhhh...
Fui trabalhar com esse bagulho pendurado. Me senti a mulher-bomba. E até que não era má idéia. Logo ao chegar, mandaram que eu fizesse um videozinho lindo de última hora, com imagens cedidas pela tevê local de uma cidadezinha do interior de sei lá onde. Acho que o nome terminava com "-aba". Enfim... Da meia hora de fita gravada, não tinha um só take que tivesse foco ou enquadramento. Prrrrrrrrrrr. Fuuuu. Fuuuu. Fuuuu. Fuuuu. Fuuuu. Sssshhhhhhh... Pensei que o troço fosse explodir. Fiquei com o coração na mão.
O teste de esforço físico fez jus ao título. Me acabei naquela esteira, arfando feito cachorro que caiu do caminhão de mudança, e corria numa inclinação nível "Aconcágua" sem equipamento de escalada. O técnico que acompanhava o exame tinha coração de pedra.
Moççççouu! Arf... Arf... Arf...
(Nada dele me olhar)
Mooooooooooçu!
"Sim, pode falar."
Nããou... Arf... Arf... Eeeuu nãããoouuu poss falar... Arf... Arf... Eeeeuuu... Nããooou... Agüeeentuuu... Maaaaisss!!!
"Agüenta mais um pouquinho sim."
Eeeuuu... Arf... Arf... Vouuuu... Arf... Arf... Pulá...
"Só faltam dez segundos!"
Dezzz seee... Arf... Arf... Dezzz seeeggg...
(Pulei)
Arf... Arf... Arf... Arf... Arf... Arf...
"Puxa vida, você estava indo tão bem!"
Nããoou tava nãããouu... Arf... Arf... Juro que nããoouu... Arf... Arf...
Na avaliação oficial desse teste, conforme atestava o laudo – e apesar dos dez segundos,- fiquei bem acima da média "das mulheres da mesma idade". Que desaforo. Cortou meu coração.
Ainda fiz uma ecografia cardíaca, vai saber exatamente para quê. Ah, sim. Foi aí que descobriram: meu coração é minúsculo - pesa menos de 200g.
"Ô, mulher sem coração!"
Tá explicado.
Muito satisfeito e risonho, o médico disse que eu não tinha absolutamente nada além de uma saúde de ferro.
O senhor, em compensação, tem um coração de ouro!
(Ele sorriu – acho que não entendeu a piada)
"Parabéns!"
Para o senhor também.
Saí de lá com aquela papelada assinada e certificada, que garantia que meu órgão cardíaco ia muito bem, obrigada, apesar dos trancos que já levou pela vida afora. Ainda assim, desconfiei. Sabia que estava calejado, maltratado e precisava de muito mais cuidado e carinho.
É, foi isso o que ele disse.
Sempre tive pressão baixa. Mas, não sei porque, encasquetei que precisava revisar geral. Talvez pelo aumento considerável da atividade física, talvez pela lembrança longínqua de um propalado prolapso da válvula mitral no passado adolescente, sei lá, resolvi procurar um cardiologista.
Abri meu coração pra ele. Depois de perguntar sobre o histórico de toda a família e ouvir um quilométrico desfiar de "nãos", me receitou uma lista de exames de todos os tipos, muitos deles feitos ali no próprio consultório, o que me fez até desconfiar da autenticidade das preocupações do médico com meu suposto problema. No final, decidi: vamos onerar um pouquinho o plano de saúde. É pra isso mesmo que eu estou pagando.
Pra começar, coloquei um aparelho de monitoramento de pressão 24 horas. Na rua, todo mundo olhando pra mim. Debaixo da blusa, meu bíceps crescia misteriosamente como se eu fosse o Popeye comendo espinafre. Prrrrrrrrrrr. Fuuuu. Fuuuu. Fuuuu. Fuuuu. Fuuuu. Sssshhhhhhh...
O negócio preso no meu braço enchia de ar a cada quinze minutos, durante o dia inteiro – e depois, a noite inteira -, infalível e inflalível, o que, realmente, deve ter contribuído bastante para aumentar como nunca a minha pressão arterial. Prrrrrrrrrrr. Fuuuu. Fuuuu. Fuuuu. Fuuuu. Fuuuu. Sssshhhhhhh...
Fui trabalhar com esse bagulho pendurado. Me senti a mulher-bomba. E até que não era má idéia. Logo ao chegar, mandaram que eu fizesse um videozinho lindo de última hora, com imagens cedidas pela tevê local de uma cidadezinha do interior de sei lá onde. Acho que o nome terminava com "-aba". Enfim... Da meia hora de fita gravada, não tinha um só take que tivesse foco ou enquadramento. Prrrrrrrrrrr. Fuuuu. Fuuuu. Fuuuu. Fuuuu. Fuuuu. Sssshhhhhhh... Pensei que o troço fosse explodir. Fiquei com o coração na mão.
O teste de esforço físico fez jus ao título. Me acabei naquela esteira, arfando feito cachorro que caiu do caminhão de mudança, e corria numa inclinação nível "Aconcágua" sem equipamento de escalada. O técnico que acompanhava o exame tinha coração de pedra.
Moççççouu! Arf... Arf... Arf...
(Nada dele me olhar)
Mooooooooooçu!
"Sim, pode falar."
Nããou... Arf... Arf... Eeeuu nãããoouuu poss falar... Arf... Arf... Eeeeuuu... Nããooou... Agüeeentuuu... Maaaaisss!!!
"Agüenta mais um pouquinho sim."
Eeeuuu... Arf... Arf... Vouuuu... Arf... Arf... Pulá...
"Só faltam dez segundos!"
Dezzz seee... Arf... Arf... Dezzz seeeggg...
(Pulei)
Arf... Arf... Arf... Arf... Arf... Arf...
"Puxa vida, você estava indo tão bem!"
Nããoou tava nãããouu... Arf... Arf... Juro que nããoouu... Arf... Arf...
Na avaliação oficial desse teste, conforme atestava o laudo – e apesar dos dez segundos,- fiquei bem acima da média "das mulheres da mesma idade". Que desaforo. Cortou meu coração.
Ainda fiz uma ecografia cardíaca, vai saber exatamente para quê. Ah, sim. Foi aí que descobriram: meu coração é minúsculo - pesa menos de 200g.
"Ô, mulher sem coração!"
Tá explicado.
Muito satisfeito e risonho, o médico disse que eu não tinha absolutamente nada além de uma saúde de ferro.
O senhor, em compensação, tem um coração de ouro!
(Ele sorriu – acho que não entendeu a piada)
"Parabéns!"
Para o senhor também.
Saí de lá com aquela papelada assinada e certificada, que garantia que meu órgão cardíaco ia muito bem, obrigada, apesar dos trancos que já levou pela vida afora. Ainda assim, desconfiei. Sabia que estava calejado, maltratado e precisava de muito mais cuidado e carinho.
30 de janeiro de 2008
uma grande festa
Bibi tá surtada. Um surto de alegria inesgotável, já faz quase um mês. Desde que chegou à minha casa, vinda de uma gaiolinha no veterinário, que dividia com a mãe e o irmão, ela não para de correr. Ela não para um segundo. Parece que descobriu um admirável mundo novo, uma enormidade de espaço nunca antes vista, naqueles poucos metros quadrados, e precisa aproveitar logo, porque, talvez, na cabecinha dela, possa acabar um dia. E nesse deslumbre da física e do aconchego, sobe no sofá, cai de cabeça, entra no armário, debaixo da cama, em cima da mesa, dentro da máquina de lavar, não consegue frear, se agarra no tapete, se estabaca em todo canto, come muito, muito, muito, contente! Tudo para ela e suas unhas afiadas é uma grande festa! E assim, vendo essa felicidade toda, ininterrupta, vou querendo ficar feliz também.
17 de dezembro de 2007
o miado
Comecei a ouvir um miado estridente de filhote. Num instante, mais de mil havia ao meu redor, a gritar de desespero, numa esganação de fome. Eram muitos e eu uma só. Estranhamente, não se exasperavam nem brigavam uns com os outros. Não arranhavam nem corriam. Apenas andavam em círculos e miavam em súplica.
Virei-me na cama com a lambida de lixa de meu gato de verdade, que tinha vindo se aninhar mais perto, enquanto eu não recuperava a consciência do despertar. Os berros vinham de fora.
Fiquei um tempo acordada olhando para o teto escuro, imaginando como eu me sentiria se aquela criatura morresse ali sozinha, sem que ninguém tivesse feito nada por ela. Maldita consciência, a uma hora dessas! Olhei o relógio: quatro da manhã. O meu sentimentalismo fracote achou que era cedo demais para um surto.
Mas o bicho continuou lá, naquela sinfonia dos aflitos, apelando para a minha compaixão e para o desafino da dor nos meus ouvidos. A coragem me empurrou num pulo. Enfiei uma roupa, coloquei leite num potinho e desci, de caixa de sapatos à mão. É, eu estava disposta a tudo.
O porteiro me disse que o bichano ficava correndo de carro em carro no estacionamento. O último que chegasse, mais quentinho, era o escolhido, até que o frio viesse de novo. Perguntei por uma lanterna. E lá fui eu, me postar de quatro no chão para olhar debaixo de todos os estacionados até encontrar o gatinho.
O descobri preso no motor de um jipe, arisco, em pânico de se perceber notado. Desliguei a luz e fiquei esperando, quieta. Quando desceu, cinzento, magrinho, estiquei o braço para pegá-lo. Mas ele foi mais rápido – sempre são! Fugiu para outro carro e eu voltei a minha abnegada tarefa, com toda a paciência que nunca tive.
Foi assim até umas cinco e meia mais ou menos, quando o dia já ia clareando. Exausta, desisti da luta e me rendi ao instinto felino, mais ágil e mais esperto que eu. Sei também que o sofrimento é um aprendizado. O bichinho deve ter levado uns tantos chutes na vida breve que teve até ali. Generalizou os seres humanos e para ele, todos eram apenas cruéis.
Subi no elevador pensando em nossa derrota, afinal, perdemos ambos. O gato se foi. Mais um dos tantos gatos que se foram da minha vida. Só espero que, pelo menos este, pare logo de me acordar à noite, a me atormentar com sua lembrança esgoelada.
Virei-me na cama com a lambida de lixa de meu gato de verdade, que tinha vindo se aninhar mais perto, enquanto eu não recuperava a consciência do despertar. Os berros vinham de fora.
Fiquei um tempo acordada olhando para o teto escuro, imaginando como eu me sentiria se aquela criatura morresse ali sozinha, sem que ninguém tivesse feito nada por ela. Maldita consciência, a uma hora dessas! Olhei o relógio: quatro da manhã. O meu sentimentalismo fracote achou que era cedo demais para um surto.
Mas o bicho continuou lá, naquela sinfonia dos aflitos, apelando para a minha compaixão e para o desafino da dor nos meus ouvidos. A coragem me empurrou num pulo. Enfiei uma roupa, coloquei leite num potinho e desci, de caixa de sapatos à mão. É, eu estava disposta a tudo.
O porteiro me disse que o bichano ficava correndo de carro em carro no estacionamento. O último que chegasse, mais quentinho, era o escolhido, até que o frio viesse de novo. Perguntei por uma lanterna. E lá fui eu, me postar de quatro no chão para olhar debaixo de todos os estacionados até encontrar o gatinho.
O descobri preso no motor de um jipe, arisco, em pânico de se perceber notado. Desliguei a luz e fiquei esperando, quieta. Quando desceu, cinzento, magrinho, estiquei o braço para pegá-lo. Mas ele foi mais rápido – sempre são! Fugiu para outro carro e eu voltei a minha abnegada tarefa, com toda a paciência que nunca tive.
Foi assim até umas cinco e meia mais ou menos, quando o dia já ia clareando. Exausta, desisti da luta e me rendi ao instinto felino, mais ágil e mais esperto que eu. Sei também que o sofrimento é um aprendizado. O bichinho deve ter levado uns tantos chutes na vida breve que teve até ali. Generalizou os seres humanos e para ele, todos eram apenas cruéis.
Subi no elevador pensando em nossa derrota, afinal, perdemos ambos. O gato se foi. Mais um dos tantos gatos que se foram da minha vida. Só espero que, pelo menos este, pare logo de me acordar à noite, a me atormentar com sua lembrança esgoelada.
9 de julho de 2007
4 de junho de 2007
patchuli
Oi, meu amor, venia cá!
Eu?
Sim, venia, que aqui eu resolvo todos os seus problemas!
Todos?
Tenio remédio pra tudo aqui. Olhe só.
O quê?
Você já tem um amor?
Amor?
Uma moça bonita dessa não tem amor?
Ahn... Bem... Pra senhora ver...
Mas gosta de alguém, não é, meu amor?
Seu amor?
Todo mundo tem um amor, meu amor.
É, tem.
Essa essência aqui é ótima.
Qual?
“Vem a meus pés”.
Que planta é essa?
“Vem a meus pés”? Ahhh, é uma planta que faz a pessoa amada vir a seus pés.
A meus pés?
Sim!
Só isso?
E quer mais, meu amor?
Bem... Acho que sim.
Então essa aqui também é tiro e queda...
Ahn?
“Perfume da perseguida”.
Ai, meu Deus!
E o cheiro é bom, meu amor!
E o que é isso vermelho aí dentro do vidro?
Esses pedacinios aqui?
É.
Shhh... É pedacinio da perseguida, meu amor!
Ui!... Não, não gosto de nada feito de bicho, não.
Então olha, tem também o “Agarradinio”...
Agarradinho... Esse parece bom...
É ótimo!
Mas acho que ainda não vai resolver o meu problema...
Ê, problema pai d’égua esse, meu amor!
Pois é...
Você precisa é de um patuá dos mais fortes!
Então?
O “Olho da Bôta”.
Bota?
Bôta.
Bôta???
E não é, meu amor?...
Ai, dona, acho que não tem jeito não.
Tudo tem jeito, meu amor...
Talvez não...
E então, decidiu o que vai levar?
Me dá só um vidrinho de patchuli.
Eu?
Sim, venia, que aqui eu resolvo todos os seus problemas!
Todos?
Tenio remédio pra tudo aqui. Olhe só.
O quê?
Você já tem um amor?
Amor?
Uma moça bonita dessa não tem amor?
Ahn... Bem... Pra senhora ver...
Mas gosta de alguém, não é, meu amor?
Seu amor?
Todo mundo tem um amor, meu amor.
É, tem.
Essa essência aqui é ótima.
Qual?
“Vem a meus pés”.
Que planta é essa?
“Vem a meus pés”? Ahhh, é uma planta que faz a pessoa amada vir a seus pés.
A meus pés?
Sim!
Só isso?
E quer mais, meu amor?
Bem... Acho que sim.
Então essa aqui também é tiro e queda...
Ahn?
“Perfume da perseguida”.
Ai, meu Deus!
E o cheiro é bom, meu amor!
E o que é isso vermelho aí dentro do vidro?
Esses pedacinios aqui?
É.
Shhh... É pedacinio da perseguida, meu amor!
Ui!... Não, não gosto de nada feito de bicho, não.
Então olha, tem também o “Agarradinio”...
Agarradinho... Esse parece bom...
É ótimo!
Mas acho que ainda não vai resolver o meu problema...
Ê, problema pai d’égua esse, meu amor!
Pois é...
Você precisa é de um patuá dos mais fortes!
Então?
O “Olho da Bôta”.
Bota?
Bôta.
Bôta???
E não é, meu amor?...
Ai, dona, acho que não tem jeito não.
Tudo tem jeito, meu amor...
Talvez não...
E então, decidiu o que vai levar?
Me dá só um vidrinho de patchuli.
15 de dezembro de 2006
o saci
Eu era uma criança assim: calada. Ficava olhando, analisando, associando... Por exemplo, eu nunca acreditei em Papai Noel não. Muito surreal pra mim, aquele velho gordo de barba branca, vestido de vermelho. Esquisitão. Sei lá. Não fazia o menor sentido isso. Alguns até apareciam de algodão na cara, cabelo de boneca, bochechas vermelhas de rouge. Vários e diferentes deles. Nunca me enganaram.
A lógica era bem outra. Tinha que combinar com o dia-a-dia, com o que eu via na rua, em casa. Eu precisava da dúvida. Se duvidasse, é porque já estava desconfiada da real existência. Por isso é que a verdade pura me fazia flutuar mais que o sonho. Eu acreditava em Saci. Piamente.
Eu via lá no Sítio do Pica-Pau Amarelo e era tão material aquilo, tão verossímil, que eu não encontrava argumentos para negar. Menino negro de uma perna só. OK. Já tinha visto em algum lugar. Eu acho. Fumava cachimbo. OK. O vizinho também fumava cachimbo. Passeava no redemoinho. OK. E como havia redemoinhos em Brasília na década de 70! Essa era a maior das provas. Lindos e vermelhos, rodopiavam vira-mexe nos momentos mais inusitados. Toda vez que o poeirão subia pelos ares, a certeza aguçava e me enchia de idéias e armadilhas ardilosas de capturar saci.
Juro que tentei. Arrumei a garrafa com rolha, fiz um “X” vermelho no fundo com lápis de cera, pra ele não tentar fugir. O que estava mais complicado era a peneira de taquara. Então fui usar uma de plástico, da minha mãe coar o suco. Não funcionou. O equipamento não era adequado para a empreitada. Com tanto amadorismo fica difícil trabalhar. E assim, na falta de recursos apropriados, não consegui pegar o Saci, ainda que com abundância de matéria-prima.
O tempo passou. Muito. Nunca pensei que um dia fosse acabar ficando com raiva dele, por motivos profissionais, é claro. É que o Saci virou burocrata. Arrumou emprego em Brasília e agora faz lobby no Congresso. Os redemoinhos se foram. Quero ver é quem captura um agora.
A lógica era bem outra. Tinha que combinar com o dia-a-dia, com o que eu via na rua, em casa. Eu precisava da dúvida. Se duvidasse, é porque já estava desconfiada da real existência. Por isso é que a verdade pura me fazia flutuar mais que o sonho. Eu acreditava em Saci. Piamente.
Eu via lá no Sítio do Pica-Pau Amarelo e era tão material aquilo, tão verossímil, que eu não encontrava argumentos para negar. Menino negro de uma perna só. OK. Já tinha visto em algum lugar. Eu acho. Fumava cachimbo. OK. O vizinho também fumava cachimbo. Passeava no redemoinho. OK. E como havia redemoinhos em Brasília na década de 70! Essa era a maior das provas. Lindos e vermelhos, rodopiavam vira-mexe nos momentos mais inusitados. Toda vez que o poeirão subia pelos ares, a certeza aguçava e me enchia de idéias e armadilhas ardilosas de capturar saci.
Juro que tentei. Arrumei a garrafa com rolha, fiz um “X” vermelho no fundo com lápis de cera, pra ele não tentar fugir. O que estava mais complicado era a peneira de taquara. Então fui usar uma de plástico, da minha mãe coar o suco. Não funcionou. O equipamento não era adequado para a empreitada. Com tanto amadorismo fica difícil trabalhar. E assim, na falta de recursos apropriados, não consegui pegar o Saci, ainda que com abundância de matéria-prima.
O tempo passou. Muito. Nunca pensei que um dia fosse acabar ficando com raiva dele, por motivos profissionais, é claro. É que o Saci virou burocrata. Arrumou emprego em Brasília e agora faz lobby no Congresso. Os redemoinhos se foram. Quero ver é quem captura um agora.
3 de dezembro de 2006
trindade
Pois é.
Pensei melhor e concluí
Que eu agora sou três
(fascinante esse negócio de trindade).
Então,
Eu sou o ego (a parte mais sem graça).
Descobri que a Lindinha (meu gato)
É o id
(não, ela não é idiota).
E o alter, coitado,
Esse está perdido por aí,
À procura de um W que o faça ter sentido.
Pensei melhor e concluí
Que eu agora sou três
(fascinante esse negócio de trindade).
Então,
Eu sou o ego (a parte mais sem graça).
Descobri que a Lindinha (meu gato)
É o id
(não, ela não é idiota).
E o alter, coitado,
Esse está perdido por aí,
À procura de um W que o faça ter sentido.
15 de outubro de 2006
gato mia
Hoje o gato amanheceu falando. Olhei pra ele e disse “gato não fala”, no que respondeu “quantas vezes preciso repetir que sou fêmea?” Quantas vezes? Várias vezes. Por favor, queira repetir várias vezes. Estou muito interessada em ouvir. Não é todo dia que a gente vê um gato falante. Desculpe. Gata. Por que você não disse isso antes?
Sempre chamei o gato de gato. Desde que o encontrei, lá se vão cinco anos e doze filhotes. Passamos poucas e boas juntos. Várias casas, apartamentos, viagens, brigas, temporadas na casa da mamãe, pisões no rabo, arranhões, miadaria no meio da noite, idas ao veterinário, ratinhos de brinquedo e de verdade, lagartixas, sumiços, bolas de pêlos, pêlos e mais pêlos, ronronares, toneladas de areia, espreguiçadas, manhas e dengues.
“Que é que você quer? Diga logo. Só não venha me dizer agora que é a minha consciência”. Ele disse “não, não sou a sua consciência. Sou a sua desculpa”. Droga de gato chato. Só podia ser gata. As fêmeas são tão existencialistas! Era só o que me faltava...
“Desculpa? Que desculpa?” – perguntei. “Você já tem tudo o que precisa pra ser só.” – respondeu o gato. “Toda vez que eu mio, escondida no escuro, você vem me encontrar. Me coloca no colo, brinca um pouco, se senta no sofá, calça os chinelos e voltar a assistir à tevê.” – continuou. “Mas você nem mia mais! Agora você fala!” – revidei. “Isso”, ele falou mesmo, “é pra você parar de me procurar. Deixar de tatear no nada conhecido das suas paredes, à procura do gato que, garanto, vai estar sempre aqui. No mesmo lugar.”
Olhei através da janela fechada. A tevê ligada, o computador no colo, hoje o telefone não tocou e eu também não toquei nele. O cinema que prometi a mim mesma se foi com as horas. Estou desarrumada e ainda não jantei. As luzes da casa continuam apagadas. Estou no escuro.
Gato mia.
Sempre chamei o gato de gato. Desde que o encontrei, lá se vão cinco anos e doze filhotes. Passamos poucas e boas juntos. Várias casas, apartamentos, viagens, brigas, temporadas na casa da mamãe, pisões no rabo, arranhões, miadaria no meio da noite, idas ao veterinário, ratinhos de brinquedo e de verdade, lagartixas, sumiços, bolas de pêlos, pêlos e mais pêlos, ronronares, toneladas de areia, espreguiçadas, manhas e dengues.
“Que é que você quer? Diga logo. Só não venha me dizer agora que é a minha consciência”. Ele disse “não, não sou a sua consciência. Sou a sua desculpa”. Droga de gato chato. Só podia ser gata. As fêmeas são tão existencialistas! Era só o que me faltava...
“Desculpa? Que desculpa?” – perguntei. “Você já tem tudo o que precisa pra ser só.” – respondeu o gato. “Toda vez que eu mio, escondida no escuro, você vem me encontrar. Me coloca no colo, brinca um pouco, se senta no sofá, calça os chinelos e voltar a assistir à tevê.” – continuou. “Mas você nem mia mais! Agora você fala!” – revidei. “Isso”, ele falou mesmo, “é pra você parar de me procurar. Deixar de tatear no nada conhecido das suas paredes, à procura do gato que, garanto, vai estar sempre aqui. No mesmo lugar.”
Olhei através da janela fechada. A tevê ligada, o computador no colo, hoje o telefone não tocou e eu também não toquei nele. O cinema que prometi a mim mesma se foi com as horas. Estou desarrumada e ainda não jantei. As luzes da casa continuam apagadas. Estou no escuro.
Gato mia.
10 de setembro de 2006
inquisição
O gato me observa.De vez em quando ele faz assim. Escolhe um bom lugar, senta-se diante de mim e estático fica, como uma escultura egípcia, de olhos arregalados, a me perceber, com sua sutil sensibilidade felina.
Gato, para com isso.
Sinto-me inquirida. Que é que você quer com esse olhar azul? Tem ração. Tem agüinha. Tem leite. Tem ratinho de brinquedo. Tem cadarços. Tem poltrona de tecido. Tem quentinho. Tem novelo. Tem bola de papel amassado. Tem janela aberta. Tem graminha. Tem caixa. Tem armário. O que mais um gato pode querer, pergunto.
Fala!
Ele pisca uma vez ou duas. Considera. Analisa. Ameaça soltar uma ironia. E permanece ali, a me hipnotizar. Ah, esqueci de dizer: o gato é fêmea.
Não me assusta não.
Dizem que o gato vê o outro mundo. Ou um outro mundo, na perspectiva flexível daquele que é capaz de sempre, sempre cair de pé.
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