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22 de setembro de 2010
uma casa muito engraçada
Finalmente, posso considerar-me mudada.
E, na casa nova, tudo tem um colorido sem cor. Apesar das paredes brancas, das portas brancas, das porcelanas brancas, dos azulejos brancos, enxergo as matizes alegres de uma vida reformulada.
Há de chegar muito em breve o tempo de pendurar os quadros.
O lustre da sala ainda não se materializou, o buraco continua ornamentando o teto, mas a luz preenche todos os vazios.
Os armários virão a ser, logo, logo – acredito! -, para aliviar as malas da sina das roupas.
Ainda que um cano esteja entupido, uma parede meio torta, o guarda-roupas velho e o vidro do box um tantinho arranhado, o meu lar tem me trazido as melhores soluções, que se farão cada vez mais por si mesmas, sem muita ajuda ou preocupação.
É um lugar de confluência de bem-querências que ronronam na tranqüilidade de três gatinhas felizes e no enlevo gostoso de um amor muito esperado.
Aqui sim, posso viver os dias. E bem.
E, na casa nova, tudo tem um colorido sem cor. Apesar das paredes brancas, das portas brancas, das porcelanas brancas, dos azulejos brancos, enxergo as matizes alegres de uma vida reformulada.
Há de chegar muito em breve o tempo de pendurar os quadros.
O lustre da sala ainda não se materializou, o buraco continua ornamentando o teto, mas a luz preenche todos os vazios.
Os armários virão a ser, logo, logo – acredito! -, para aliviar as malas da sina das roupas.
Ainda que um cano esteja entupido, uma parede meio torta, o guarda-roupas velho e o vidro do box um tantinho arranhado, o meu lar tem me trazido as melhores soluções, que se farão cada vez mais por si mesmas, sem muita ajuda ou preocupação.
É um lugar de confluência de bem-querências que ronronam na tranqüilidade de três gatinhas felizes e no enlevo gostoso de um amor muito esperado.
Aqui sim, posso viver os dias. E bem.
29 de setembro de 2009
memorial do dia 14 de outubro de 1970 (impressões embrionárias)
Acho que foi mais ou menos quando os Beatles terminaram que eu comecei.

De lá de dentro da barriga da mamãe, teve um dia que ouvi um grito de "goooool..." Era uma descoberta pra mim, esse negócio de ouvir. Tinha desenvolvido recentemente essa, digamos, percepção. Aproveitei para dar meu primeiro chute.

Mais ou menos um mês antes, o Jimi Hendrix fez sua última apresentação. Mais ou menos 21 anos depois, eu o homenageei batizando meu cachorro com esse nome.

A Janis Joplin morreu dez dias antes de eu nascer. Eu sempre gostei de Mercedes-Benz.
Uma semana antes, um militar socialista tomava o poder na Bolívia.
Três dias antes, o arquipélago de Fiji proclamava a sua independência.
Aí, eu nasci. Sei apenas que era o dia dedicado a São Calisto, religioso de devoção dos católicos. Interessante que o tal santo veio ao mundo escravo, comeu o pão-que-o-diabo amassou e acabou virando papa. Ah, sim, as catacumbas dele são as mais visitadas de Roma.
Dez dias depois, Salvador Allende assumia a presidência da República, no Chile.
E um mês depois, no aniversário da minha mãe, é que era o dia certo d'eu nascer. Não quis ser escorpiana não, apesar de ter aprendido a soltar meus veneninhos quando necessário.
A partir daí... Tudo é, literalmente, memorável.
11 de setembro de 2009
escatológicas
Plena sexta-feira, sabe como é... Vamos lá.
Encontrar uma pessoa conhecida num banheiro público é sempre constrangedor. Principalmente se é alguém que você não vê há muito tempo ou que não viu quase nunca. E, mais ainda, se o nome dessa criatura não passa de uma diminuta penumbra num recôndito recanto de sua mente.
Descargas quase que simultâneas. Saídas no mesmo segundo. Encaradas encurraladas. Cabeça balança, olhos arregalam. Lava as mãos, vira pro lado, disfarça e...
- Olá!
- Ooooi!... Ahn... Querida!
- Tudo bem?
- Tudo!...
- Há quanto tempo, hein?
- Pois é...
- Quando foi a última vez que nos vimos?
- A última vez?
- Acho que foi naquele barzinho lá na Asa Norte, não foi?
- É... Ahn... Foi! Foi isso mesmo...
- Mas não era dentro do banheiro! Hahahaha!
- Hahahaha... Não era...
- Mas tenho certeza que foi lá.
- Foi, foi.
Sorrisão observando, imóvel; meus dedos pingando com leve aspecto de maracujá passado.
- Você me dá licença? Preciso enxugar as mãos.
- Claro! Uma toalha ou duas?
- Três. Qualidade ruim, não enxuga nada, sabe como é.
- Hahahahaha! Você continua engraçada!
- Hahaha... Obrigada. Você também.
- Que bom!
- Eu vou indo então.
- Bom te ver!
- Ótimo...
- Tchau!
- Tchau.
Eu lá dentro, desfazendo-me de um inocente xixi. A mulher ao lado, concluindo seu plano maligno de detonar uma hecatombe nuclear. Descarga demorada. Muito demorada. Sai. Uma colega dela lavava as mãos, mas foi pega antes que pudesse reagir.
- Ai, menina, eu não consigo fazer fora de casa... É fogo!
(E combustível altamente inflamável)
- É eu também não sou nenhum reloginho.
(Apesar do tique-taque ser audível)
- Aí, quando sinto que a coisa vem, não dá pra segurar.
(Mas interdite o local, minha senhora!)
- Ah, é melhor não segurar mesmo não. Vai que depois não dá mais conta...
(O que você quer dizer com “não dá mais conta”?)
- É menina, resolvi meu problema agora!
(E criou um outro enorme para a camada de ozônio)
- Fez muito bem.
(Não, de novo não!)
- Hihihihihi!
(Esse xixi não acaba?)
- Ai, menina, eu não consigo fazer fora de casa... É fogo!
(E combustível altamente inflamável)
- É eu também não sou nenhum reloginho.
(Apesar do tique-taque ser audível)
- Aí, quando sinto que a coisa vem, não dá pra segurar.
(Mas interdite o local, minha senhora!)
- Ah, é melhor não segurar mesmo não. Vai que depois não dá mais conta...
(O que você quer dizer com “não dá mais conta”?)
- É menina, resolvi meu problema agora!
(E criou um outro enorme para a camada de ozônio)
- Fez muito bem.
(Não, de novo não!)
- Hihihihihi!
(Esse xixi não acaba?)
3 de março de 2009
chá das 5 com os imortais
Peter Pan fala pro Dorian Gray:
- Passa o açúcar?
- Um torrão ou dois?
- Deixa de frescura e passa logo esse açucareiro! Não tem torrão nenhum aí!
- Hummm... Grosso!
- Por que você não vai dar uma espiada no seu retrato e larga do meu pé?
- Por isso que a tua sombra já largou do teu pé há muito tempo!
Silêncio constrangedor.
- O último que disse isso perdeu a mão no estômago de um crocodilo.
Todos se olham. Só se ouve o tique-taque do relógio.
- Vamos mudar de assunto – pediu Dom Sebastião. Já estou cansado de guerra.
- A sua pele está maravilhosa, Highlander – elogiou Richard Clayderman.
- É fácil manter. Ninguém precisa perder a cabeça por isso – vira-se para o Conde Drácula – não resisto a essa piadinha.
- Eu já não posso dizer o mesmo... Se pelo menos fosse uma xícara de sangue, em vez desse chá!
- Ofereço o meu, se o gentil cavalheiro assim desejar – disse Dorian Gray atirando um olhar lânguido.
- Que tipo é?
- “A” positivo.
- Lamento, só consumo “O” negativo. A gente vai ficando mais exigente com o tempo... Mas agradeço a oferta.
- Não há de quê.
- Alguém aqui pode me dizer que espécie de biscoito de polvilho duro é esse? Quem fez essa mistura não entendia nada de alquimia – blasfemou Saint Germain. – Nem a pedra filosofal teria quebrado meu dente assim!
Drácula deu um gritinho:
- Ai!
- Que foi?
- Ainda bem que não mordi com o canino.
Um e outro sorveram o chá quente e largaram disfarçadamente seus biscoitos no prato. Não adiantou, pois, ao caírem, rodopiaram fazendo um barulho metálico.
- Se eu soubesse que ia passar a eternidade com vocês...
- O que é que tem?
- Teria morrido de verdade – suspirou Elvis.
- Passa o açúcar?
- Um torrão ou dois?
- Deixa de frescura e passa logo esse açucareiro! Não tem torrão nenhum aí!
- Hummm... Grosso!
- Por que você não vai dar uma espiada no seu retrato e larga do meu pé?
- Por isso que a tua sombra já largou do teu pé há muito tempo!
Silêncio constrangedor.
- O último que disse isso perdeu a mão no estômago de um crocodilo.
Todos se olham. Só se ouve o tique-taque do relógio.
- Vamos mudar de assunto – pediu Dom Sebastião. Já estou cansado de guerra.
- A sua pele está maravilhosa, Highlander – elogiou Richard Clayderman.
- É fácil manter. Ninguém precisa perder a cabeça por isso – vira-se para o Conde Drácula – não resisto a essa piadinha.
- Eu já não posso dizer o mesmo... Se pelo menos fosse uma xícara de sangue, em vez desse chá!
- Ofereço o meu, se o gentil cavalheiro assim desejar – disse Dorian Gray atirando um olhar lânguido.
- Que tipo é?
- “A” positivo.
- Lamento, só consumo “O” negativo. A gente vai ficando mais exigente com o tempo... Mas agradeço a oferta.
- Não há de quê.
- Alguém aqui pode me dizer que espécie de biscoito de polvilho duro é esse? Quem fez essa mistura não entendia nada de alquimia – blasfemou Saint Germain. – Nem a pedra filosofal teria quebrado meu dente assim!
Drácula deu um gritinho:
- Ai!
- Que foi?
- Ainda bem que não mordi com o canino.
Um e outro sorveram o chá quente e largaram disfarçadamente seus biscoitos no prato. Não adiantou, pois, ao caírem, rodopiaram fazendo um barulho metálico.
- Se eu soubesse que ia passar a eternidade com vocês...
- O que é que tem?
- Teria morrido de verdade – suspirou Elvis.
31 de janeiro de 2009
a coruja
Eu estava passando pela placa de "proibido estacionar" e tinha uma coruja estacionada nela. O bicho girou a cabeça 180 graus para acompanhar o meu caminho com aqueles olhões amarelos. Acho que ninguém viu a coruja, só eu. A placa era muito alta. Nos encaramos uma à outra, quase de frente, apesar de meu pescoço não girar 180 graus. Por um segundo, ventou um receio de que ela me atacasse, pressentindo perigo para alguma ninhada escondida por perto. Mas não. Ficamos cúmplices. E acho até que ela sorriu pra mim.
27 de agosto de 2008
caos doméstico matutino
- 7h30 - Despertador toca.
- 7h40 - Despertador toca de novo. (Tá bom, já ouvi!)
- 7h50- Vestir a roupa da academia. Arrumar a bolsa.
- 8h05 - Tomar café.
- 8h10 - Enfiar as gatas nas caixinhas.
- 8h20 - Nova tentativa.
- 8h25 - Jogar ração lá dentro.
- 8h30 - Banho de Bibi e Lindinha no pet shop (hora marcada).
- 8h45 - O pet shop ainda está fechado e eu estou esperando na porta com as duas gatas nas caixinhas, em miados altos.
- 8h50 - Minha mãe me liga no celular pra dizer que a faxineira e o homem da capa do sofá não vão poder ir hoje. Nada do pet shop abrir.
- 9h - O pet shop abre.
- 9h - Horário da faxineira. CANCELADO (Putz, tenho um encontro romântico no sábado e uma pilha de louça suja na pia)...
- 9h01 - Ligar para a faxineira e EXIGIR um horário antes de sábado.
- 9h10 - Demitir a faxineira
- 9h20 - Tentar achar outra faxineira.
- 9h30 - Desistir de demitir a faxineira e perguntar educadamente se ela pode ir na sexta-feira caso eu pague o dobro.
- 9h50 - Buscar as gatas cheirosinhas no pet shop.
- 9h58 - Tentar fotografar as gatas com as fitinhas lilás no pescoço antes que elas arranquem tudo.
- 10h - Prova da capa do sofá. CANCELADO
- 10h01 - Ligar para o Procon.
- 10h05 - Limpar as caquinhas antes que as gatas limpinhas pulem na areia suja.
- 10h06 - Escovar a Bibi para tirar a areia suja.
- 10h10 - Alguém trancou meu carro no estacionamento. BUZINAR bastante.
- 10h20 - Aula de yoga.
- 10h25 - Chegada à aula de yoga.
- 10h26 - Esticar a esteira de yoga entre quatro pessoas de braços curtos.
- 11h10 - Alguns hematomas depois, termina a aula de yoga.
- 11h30 - Almoçar no self-service da esquina.
- 11h55- Arrepender-se por não ter comido sobremesa. Correr pra casa.
- 12h - O porteiro combinou comigo de fazer uns servicinhos com a furadeira lá em casa.
- 12h10 - Fazer a lista dos furos necessários nas paredes.
- 12h15 - O porteiro não apareceu até agora.
- 12h30 - Me arrumar para o trabalho. Cadê o porteiro?!
- 12h31 - Tomar banho. Escorreguei no tapete e dei uma topada na parede (sem furos).
- 12h40 - Fazer curativo no dedão roxo.
- 12h50 - Chamar o porteiro pelo interfone. (Ué... Ele foi almoçar...)
- 13h19 - Xingar o porteiro.
- 13h20 - Sair para o trabalho.
- 13h23 - Gran finale: a chave do carro cai no poço do elevador...
19 de agosto de 2008
o urubu
Pra ninguém dizer que estou mentindo: foto do urubu original
Costumeira cena inicial do seriado: diante da tevê desligada com o laptop no colo, de chinelos e pijamas. O que não descrevi nesse cenário, é que em oposição a mim existe um janelão sempre aberto. Do sexto andar onde moro, mesmo sentada no sofá, dá pra ver a cobertura do prédio vizinho, que nada mais é que um terraço vazio e reto - até que vez ou outra pouse um pombo gordo, exaurido da subida.
Digitava com os olhos cravados na tela, mas sentia que um movimento estranho lá fora, tão alto, embaçava sutilmente a visão periférica. Não cheguei a atentar, a princípio. Mas depois de alguns dias, com a insistência da repetição, encafifada, finalmente levantei a cabeça para averiguar.
Incrível a fixação paranóica, ainda que despercebida, na tela do computador. Dias assim, sem prestar atenção a minha volta, não notei que pousava ali na minha frente, além dos pombos de praxe, um imenso urubu. A gente deve sempre esperar se surpreender na vida.
Confesso que a aparição foi extremamente desafiadora para meu léxico inventivo.
Urubua
Urubula
Urubola
Uruboa
Sei lá. É que o urubu parecia fêmea. Um animal jovem e bonito, de penas brilhantes e olhar meiguinho. Quem é que diz que isso come lixo?
O fato é que, de início, entrei numa neura de simbolismos alucinatórios. Lembrei de Joãozinho Trinta. De Maupassant e Alan Poe também. Quando olhava para o bicho, juro que quase esperava que ele me dissesse a qualquer momento: “nunca mais”...
Hoje não. Depois que me acostumei com a visita diária e passei a acompanhar seu desenvolvimento com o zelo de uma ama, chego a sentir falta quando ele não vem. Me apeguei, apesar dos gatos não gostarem muito. E agora mesmo, enquanto escrevo isso, o urubu está ali, descansado e satisfeito, tomando seu solzinho pousado na minha sorte.
Costumeira cena inicial do seriado: diante da tevê desligada com o laptop no colo, de chinelos e pijamas. O que não descrevi nesse cenário, é que em oposição a mim existe um janelão sempre aberto. Do sexto andar onde moro, mesmo sentada no sofá, dá pra ver a cobertura do prédio vizinho, que nada mais é que um terraço vazio e reto - até que vez ou outra pouse um pombo gordo, exaurido da subida.Digitava com os olhos cravados na tela, mas sentia que um movimento estranho lá fora, tão alto, embaçava sutilmente a visão periférica. Não cheguei a atentar, a princípio. Mas depois de alguns dias, com a insistência da repetição, encafifada, finalmente levantei a cabeça para averiguar.
Incrível a fixação paranóica, ainda que despercebida, na tela do computador. Dias assim, sem prestar atenção a minha volta, não notei que pousava ali na minha frente, além dos pombos de praxe, um imenso urubu. A gente deve sempre esperar se surpreender na vida.
Confesso que a aparição foi extremamente desafiadora para meu léxico inventivo.
Urubua
Urubula
Urubola
Uruboa
Sei lá. É que o urubu parecia fêmea. Um animal jovem e bonito, de penas brilhantes e olhar meiguinho. Quem é que diz que isso come lixo?
O fato é que, de início, entrei numa neura de simbolismos alucinatórios. Lembrei de Joãozinho Trinta. De Maupassant e Alan Poe também. Quando olhava para o bicho, juro que quase esperava que ele me dissesse a qualquer momento: “nunca mais”...
Hoje não. Depois que me acostumei com a visita diária e passei a acompanhar seu desenvolvimento com o zelo de uma ama, chego a sentir falta quando ele não vem. Me apeguei, apesar dos gatos não gostarem muito. E agora mesmo, enquanto escrevo isso, o urubu está ali, descansado e satisfeito, tomando seu solzinho pousado na minha sorte.
7 de agosto de 2008
efeito borboleta
Foto de Fernanda Marques

Eu usava um chapéu de abas largas
Coisa que nunca faço!
Eu fui à cidadezinha de Passa Quatro
Mas não tinha estado lá antes!
Eu embarquei na Maria Fumaça
E fiz essa viagem pela primeira vez!
Pois nesse dia de tantas novidades,
veio a borboleta e pousou em mim
Na minha cabeça encoberta
Nas minhas idéias floridas
No meu coração descorado
E tantos viram e disseram
Que, mesmo sem tê-la visto,
Eu acreditei, feliz!

Eu usava um chapéu de abas largas
Coisa que nunca faço!
Eu fui à cidadezinha de Passa Quatro
Mas não tinha estado lá antes!
Eu embarquei na Maria Fumaça
E fiz essa viagem pela primeira vez!
Pois nesse dia de tantas novidades,
veio a borboleta e pousou em mim
Na minha cabeça encoberta
Nas minhas idéias floridas
No meu coração descorado
E tantos viram e disseram
Que, mesmo sem tê-la visto,
Eu acreditei, feliz!
10 de julho de 2008
exame de coração
"Ô, mulher sem coração!"
É, foi isso o que ele disse.
Sempre tive pressão baixa. Mas, não sei porque, encasquetei que precisava revisar geral. Talvez pelo aumento considerável da atividade física, talvez pela lembrança longínqua de um propalado prolapso da válvula mitral no passado adolescente, sei lá, resolvi procurar um cardiologista.
Abri meu coração pra ele. Depois de perguntar sobre o histórico de toda a família e ouvir um quilométrico desfiar de "nãos", me receitou uma lista de exames de todos os tipos, muitos deles feitos ali no próprio consultório, o que me fez até desconfiar da autenticidade das preocupações do médico com meu suposto problema. No final, decidi: vamos onerar um pouquinho o plano de saúde. É pra isso mesmo que eu estou pagando.
Pra começar, coloquei um aparelho de monitoramento de pressão 24 horas. Na rua, todo mundo olhando pra mim. Debaixo da blusa, meu bíceps crescia misteriosamente como se eu fosse o Popeye comendo espinafre. Prrrrrrrrrrr. Fuuuu. Fuuuu. Fuuuu. Fuuuu. Fuuuu. Sssshhhhhhh...
O negócio preso no meu braço enchia de ar a cada quinze minutos, durante o dia inteiro – e depois, a noite inteira -, infalível e inflalível, o que, realmente, deve ter contribuído bastante para aumentar como nunca a minha pressão arterial. Prrrrrrrrrrr. Fuuuu. Fuuuu. Fuuuu. Fuuuu. Fuuuu. Sssshhhhhhh...
Fui trabalhar com esse bagulho pendurado. Me senti a mulher-bomba. E até que não era má idéia. Logo ao chegar, mandaram que eu fizesse um videozinho lindo de última hora, com imagens cedidas pela tevê local de uma cidadezinha do interior de sei lá onde. Acho que o nome terminava com "-aba". Enfim... Da meia hora de fita gravada, não tinha um só take que tivesse foco ou enquadramento. Prrrrrrrrrrr. Fuuuu. Fuuuu. Fuuuu. Fuuuu. Fuuuu. Sssshhhhhhh... Pensei que o troço fosse explodir. Fiquei com o coração na mão.
O teste de esforço físico fez jus ao título. Me acabei naquela esteira, arfando feito cachorro que caiu do caminhão de mudança, e corria numa inclinação nível "Aconcágua" sem equipamento de escalada. O técnico que acompanhava o exame tinha coração de pedra.
Moççççouu! Arf... Arf... Arf...
(Nada dele me olhar)
Mooooooooooçu!
"Sim, pode falar."
Nããou... Arf... Arf... Eeeuu nãããoouuu poss falar... Arf... Arf... Eeeeuuu... Nããooou... Agüeeentuuu... Maaaaisss!!!
"Agüenta mais um pouquinho sim."
Eeeuuu... Arf... Arf... Vouuuu... Arf... Arf... Pulá...
"Só faltam dez segundos!"
Dezzz seee... Arf... Arf... Dezzz seeeggg...
(Pulei)
Arf... Arf... Arf... Arf... Arf... Arf...
"Puxa vida, você estava indo tão bem!"
Nããoou tava nãããouu... Arf... Arf... Juro que nããoouu... Arf... Arf...
Na avaliação oficial desse teste, conforme atestava o laudo – e apesar dos dez segundos,- fiquei bem acima da média "das mulheres da mesma idade". Que desaforo. Cortou meu coração.
Ainda fiz uma ecografia cardíaca, vai saber exatamente para quê. Ah, sim. Foi aí que descobriram: meu coração é minúsculo - pesa menos de 200g.
"Ô, mulher sem coração!"
Tá explicado.
Muito satisfeito e risonho, o médico disse que eu não tinha absolutamente nada além de uma saúde de ferro.
O senhor, em compensação, tem um coração de ouro!
(Ele sorriu – acho que não entendeu a piada)
"Parabéns!"
Para o senhor também.
Saí de lá com aquela papelada assinada e certificada, que garantia que meu órgão cardíaco ia muito bem, obrigada, apesar dos trancos que já levou pela vida afora. Ainda assim, desconfiei. Sabia que estava calejado, maltratado e precisava de muito mais cuidado e carinho.
É, foi isso o que ele disse.
Sempre tive pressão baixa. Mas, não sei porque, encasquetei que precisava revisar geral. Talvez pelo aumento considerável da atividade física, talvez pela lembrança longínqua de um propalado prolapso da válvula mitral no passado adolescente, sei lá, resolvi procurar um cardiologista.
Abri meu coração pra ele. Depois de perguntar sobre o histórico de toda a família e ouvir um quilométrico desfiar de "nãos", me receitou uma lista de exames de todos os tipos, muitos deles feitos ali no próprio consultório, o que me fez até desconfiar da autenticidade das preocupações do médico com meu suposto problema. No final, decidi: vamos onerar um pouquinho o plano de saúde. É pra isso mesmo que eu estou pagando.
Pra começar, coloquei um aparelho de monitoramento de pressão 24 horas. Na rua, todo mundo olhando pra mim. Debaixo da blusa, meu bíceps crescia misteriosamente como se eu fosse o Popeye comendo espinafre. Prrrrrrrrrrr. Fuuuu. Fuuuu. Fuuuu. Fuuuu. Fuuuu. Sssshhhhhhh...
O negócio preso no meu braço enchia de ar a cada quinze minutos, durante o dia inteiro – e depois, a noite inteira -, infalível e inflalível, o que, realmente, deve ter contribuído bastante para aumentar como nunca a minha pressão arterial. Prrrrrrrrrrr. Fuuuu. Fuuuu. Fuuuu. Fuuuu. Fuuuu. Sssshhhhhhh...
Fui trabalhar com esse bagulho pendurado. Me senti a mulher-bomba. E até que não era má idéia. Logo ao chegar, mandaram que eu fizesse um videozinho lindo de última hora, com imagens cedidas pela tevê local de uma cidadezinha do interior de sei lá onde. Acho que o nome terminava com "-aba". Enfim... Da meia hora de fita gravada, não tinha um só take que tivesse foco ou enquadramento. Prrrrrrrrrrr. Fuuuu. Fuuuu. Fuuuu. Fuuuu. Fuuuu. Sssshhhhhhh... Pensei que o troço fosse explodir. Fiquei com o coração na mão.
O teste de esforço físico fez jus ao título. Me acabei naquela esteira, arfando feito cachorro que caiu do caminhão de mudança, e corria numa inclinação nível "Aconcágua" sem equipamento de escalada. O técnico que acompanhava o exame tinha coração de pedra.
Moççççouu! Arf... Arf... Arf...
(Nada dele me olhar)
Mooooooooooçu!
"Sim, pode falar."
Nããou... Arf... Arf... Eeeuu nãããoouuu poss falar... Arf... Arf... Eeeeuuu... Nããooou... Agüeeentuuu... Maaaaisss!!!
"Agüenta mais um pouquinho sim."
Eeeuuu... Arf... Arf... Vouuuu... Arf... Arf... Pulá...
"Só faltam dez segundos!"
Dezzz seee... Arf... Arf... Dezzz seeeggg...
(Pulei)
Arf... Arf... Arf... Arf... Arf... Arf...
"Puxa vida, você estava indo tão bem!"
Nããoou tava nãããouu... Arf... Arf... Juro que nããoouu... Arf... Arf...
Na avaliação oficial desse teste, conforme atestava o laudo – e apesar dos dez segundos,- fiquei bem acima da média "das mulheres da mesma idade". Que desaforo. Cortou meu coração.
Ainda fiz uma ecografia cardíaca, vai saber exatamente para quê. Ah, sim. Foi aí que descobriram: meu coração é minúsculo - pesa menos de 200g.
"Ô, mulher sem coração!"
Tá explicado.
Muito satisfeito e risonho, o médico disse que eu não tinha absolutamente nada além de uma saúde de ferro.
O senhor, em compensação, tem um coração de ouro!
(Ele sorriu – acho que não entendeu a piada)
"Parabéns!"
Para o senhor também.
Saí de lá com aquela papelada assinada e certificada, que garantia que meu órgão cardíaco ia muito bem, obrigada, apesar dos trancos que já levou pela vida afora. Ainda assim, desconfiei. Sabia que estava calejado, maltratado e precisava de muito mais cuidado e carinho.
27 de junho de 2008
um outro rato
Um rato me persegue por todos os cantos
Enorme, cinzento, ameaçador.
Um rato tal qual uma sombra
Que se reveste de fraternal cumplicidade
Todas as noites quando, ao deitar,
As luzes que me atravessam
Revelam esse monstro em mim.
De repugnância velada
De dores gordurosas
De podridão invisível
Que ameaçam, insistentemente, a minha vida.
Um rato traiçoeiro
Que, aonde quer que eu vá,
Espreita um descuido de existência
Para devorar, regozijado, o amanhã.
Rato que me conforta e alimenta
Espectro vivo ao meu lado
Leve a verdade daqui.
Enorme, cinzento, ameaçador.
Um rato tal qual uma sombra
Que se reveste de fraternal cumplicidade
Todas as noites quando, ao deitar,
As luzes que me atravessam
Revelam esse monstro em mim.
De repugnância velada
De dores gordurosas
De podridão invisível
Que ameaçam, insistentemente, a minha vida.
Um rato traiçoeiro
Que, aonde quer que eu vá,
Espreita um descuido de existência
Para devorar, regozijado, o amanhã.
Rato que me conforta e alimenta
Espectro vivo ao meu lado
Leve a verdade daqui.
6 de fevereiro de 2008
os pássaros
29 de dezembro de 2006
o morcego

(Dessa vez, com a empáfia de parodiar Augusto dos Anjos. Desculpo-me de antemão. Mas foi inevitável.)
Quase meia-noite. No quarto de tevê, sono puro.
Meu Deus! E este morcego! Agora, olha isso:
Atravessou de um lado para outro, preciso,
Rodopiou pelo teto e sumiu no corredor escuro.
Não me mordeu a goela nem nada assim sensual
Que fosse vampiro, fantasiei com vontade,
Na bruta ardência orgânica da sede...
(Ando vendo tevê demais; melhor mudar de canal).
Cadê ele? – Digo – Ergo-me animada!
Vou com o gato, de lençol na mão, caçá-lo.
Empurro móveis, o olho arregalo,
Entro nos quartos, procuro, procuro e nada!
Ele não sabe que quero ajudá-lo... Chego
Bem perto. Lindinha bate um papo. Ele se senta,
Faz amizade, ri muito e diz que, de medo, está farto!
"A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra,
Imperceptivelmente, em nosso quarto!"
25 de setembro de 2006
os sapos

(com a soberba de parodiar Manuel Bandeira)
Vão os sapos se enfurnando
Na garganta bem profunda
E aos pulos engordando
Entalados na penumbra
A luz nem procuram, se a temos.
Enterram-se, os verruguentos,
E quando os esquecemos
Berram alto, lá de dentro.
Tantos sapos engolidos
Que a cantarola sem fim
Martela em meus ouvidos
“Foi”, “Não foi”, “Foi sim”!
Asco verde, gordo e feio,
Gelado de acre gosto
O alívio que não veio
Me estrangula num sufoco!
A saparia malévola
Repete-se ao infinito
Frio soluço na treva
Que não desce, nem no grito!
Fiquem, sapos da minha vida!
Pouco importa o que me lembrem
A mim não deixarão saída
Pra me despertar, coaxem! Sempre!
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