Mostrando postagens com marcador Natureza morta. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Natureza morta. Mostrar todas as postagens

3 de março de 2009

chá das 5 com os imortais

Peter Pan fala pro Dorian Gray:
- Passa o açúcar?
- Um torrão ou dois?
- Deixa de frescura e passa logo esse açucareiro! Não tem torrão nenhum aí!
- Hummm... Grosso!
- Por que você não vai dar uma espiada no seu retrato e larga do meu pé?
- Por isso que a tua sombra já largou do teu pé há muito tempo!

Silêncio constrangedor.

- O último que disse isso perdeu a mão no estômago de um crocodilo.
Todos se olham. Só se ouve o tique-taque do relógio.
- Vamos mudar de assunto – pediu Dom Sebastião. Já estou cansado de guerra.

- A sua pele está maravilhosa, Highlander – elogiou Richard Clayderman.
- É fácil manter. Ninguém precisa perder a cabeça por isso – vira-se para o Conde Drácula – não resisto a essa piadinha.
- Eu já não posso dizer o mesmo... Se pelo menos fosse uma xícara de sangue, em vez desse chá!
- Ofereço o meu, se o gentil cavalheiro assim desejar – disse Dorian Gray atirando um olhar lânguido.
- Que tipo é?
- “A” positivo.
- Lamento, só consumo “O” negativo. A gente vai ficando mais exigente com o tempo... Mas agradeço a oferta.
- Não há de quê.

- Alguém aqui pode me dizer que espécie de biscoito de polvilho duro é esse? Quem fez essa mistura não entendia nada de alquimia – blasfemou Saint Germain. – Nem a pedra filosofal teria quebrado meu dente assim!
Drácula deu um gritinho:
- Ai!
- Que foi?
- Ainda bem que não mordi com o canino.
Um e outro sorveram o chá quente e largaram disfarçadamente seus biscoitos no prato. Não adiantou, pois, ao caírem, rodopiaram fazendo um barulho metálico.

- Se eu soubesse que ia passar a eternidade com vocês...
- O que é que tem?
- Teria morrido de verdade – suspirou Elvis.

27 de junho de 2008

um outro rato

Um rato me persegue por todos os cantos
Enorme, cinzento, ameaçador.

Um rato tal qual uma sombra
Que se reveste de fraternal cumplicidade
Todas as noites quando, ao deitar,
As luzes que me atravessam
Revelam esse monstro em mim.

De repugnância velada
De dores gordurosas
De podridão invisível
Que ameaçam, insistentemente, a minha vida.

Um rato traiçoeiro
Que, aonde quer que eu vá,
Espreita um descuido de existência
Para devorar, regozijado, o amanhã.

Rato que me conforta e alimenta
Espectro vivo ao meu lado
Leve a verdade daqui.

18 de novembro de 2006

auto-retrato

Eu pensei que a vida fosse tão bonita
Quanto um quadro de Van Gogh.

Que o jardim de íris existisse de verdade,
Num lugar que eu iria conhecer um dia
Apesar da flor branca,
No meio de tantas azuis.

Que aquele quase choro que vi suspenso
Bem no olho do retrato,
Tão sentido da incompreensão do mundo,
Poderia ser de pura alegria.

Que os girassóis enlouquecidos de medo
Brincavam de ser fogo vivo
Para fugir do escuro que não são
Ao crepitar de calor.

Que os tentáculos do céu estrelado
Viriam acariciar os ciprestes apontados
Que ali desenharam cometas
Em convulsão de galáxias.

Que os corvos voariam para muito longe
Sumiriam para sempre no horizonte lilás
E os campos de trigo brilhariam novamente
Como o sol do meio-dia.

Eu pensei que a vida fosse tão bonita
Quanto um quadro de Van Gogh.

E ainda quero acreditar
Que não me enganei.

8 de novembro de 2006

fábula











Meu amor é inútil
Pois o tenho aqui sem uso.
É uma sensação que a cigarra velha
Encasulada anos e anos debaixo da terra
Deve ter tido, meditando,
Tanto tempo à espera só
Na sofreguidão do ar...
A cantorinha sonha com o dia em que
Numa manhã madura
Irá se desencavar
Depois de muito sacrifício
E chamar por seu amor
(Ela chama por seu amor!)

Que nem sempre vem.
Algumas conseguem que ele tenha
Ouvidos de escutá-las
E morrem felizes na esperança das pupas
Que vão levá-las a uma nova história
Por mais tempos e tempos.
As outras continuam cantando bolerões
E lacrimejando
Todas as primaveras
Nas esquinas dos jardins deflorados
Até sumirem nas artes das crianças
Na pressa dos carros nas ruas
Ou nas garras de um gato brincalhão.

3 de novembro de 2006

a teia












Uma aranha fez sua teia em meu nariz.

Se estabeleceu calmamente na ponta
Avaliou a vizinhança
Viu que era tão tranqüilo que poderia sossegar.

E aqui está, a teia dela
Delicada e intocada
Já se faz uns bons meses...

A aranha está muito satisfeita.
Mas eu não!

12 de outubro de 2006

o rato

Tinha um rato no meu caminho hoje.

O bicho atravessou a pista diante de mim, bem na hora em que o sinal ia ficando amarelo. Tive que decidir: matava ou não matava o rato?

Era um ratinho preto. Não muito grande não. Mas estava dia claro. Pude vê-lo quase dentro dos olhos. Cauda longa. Patas curtas. Meio hesitante, correu.

Carros atrás de mim já estavam parando. O pardal, o sinal, o rádio alto, óculos escuros, compras, minha mãe gritando “mata o rato, mata o rato”. Foi assim que, numa fração de segundo, ficamos frente a frente. Nós três. O rato, a humanidade e eu.

Me lembrei da ratazana existencialista de Günter Grass (aquele mentiroso). Do Mickey Mouse, do Jerry, do Stuart Little e até do PiuPiu, que apesar de não ser rato, era como se fosse. Me lembrei da peste negra. De todos os ratos da minha vida (indigestos como os sapos que tive que engolir). Dos dois ratinhos de verdade que criei (em menos de duas semanas eram nove). A fêmea me mordeu. E saiu sangue!

Pensei nos bilhões de ratos de laboratório que morrem todos os dias por causas tão nobres quanto a reversão de doenças graves e não tão nobres como o creme anti-rugas da titia. Pensei no Pink e no Cérebro. No domínio do mundo. E, finalmente, em todos os gatos sofridos e injustiçados pelos séculos e séculos afora.

Freio. Fui multada no semáforo. Aquele maldito pardal fotografou a placa do meu carro. Mas quem sou eu para fazer justiça com as próprias mãos? Ratos estão por toda a parte. E sempre estarão.