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23 de janeiro de 2009

a bailarina (sem noção)

Esta menina,
Enorme desse jeito
Quer ser bailarina.

Conhece dó e ré,
Mas mal e mal para em pé.

Conhece Mi e Fá,
Mas quando inclina o corpo é tombo na certa.

Conhece lá e Si,
Mas arregala os olhos e cai na gargalhada.

Roda, roda, roda, raspando o teto com seu bração,
Fica tonta e se esborracha no chão.

Põe no cabelo um arco de florzinha
E diz que já se acostumou a levantar sozinha.

Esta menina
A essa altura do campeonato
Quer ser bailarina.

Mas depois esquece todas as cobranças
E vai pagar mico, se acabar nas danças!

16 de agosto de 2008

caquinhos



















"Os cacos da vida, colados, formam uma estranha xícara.
Sem uso, ela nos espia do aparador."

Carlos Drummond de Andrade

25 de dezembro de 2007

da fina arte de laminar amêndoas


















Compre as amêndoas – caríssimas - mas não muitas, para sobrar um dinheirinho para o peru. O suficiente para encher meia xícara de chá, o que, provavelmente, contará umas cinqüenta amêndoas.

São diminutas, muito duras, enrugadinhas, protegidas por peles morenas que, infelizmente, é necessário tirar, ainda que pareça impossível. Por isso, não se deixe intimidar. Chegando à cozinha, prepare-se para cuidar delas. Isto demanda tempo.

Numa panela, coloque água e leve ao fogo alto. Quando ferver, desligue. Acrescente as amêndoas e deixe aferventar por três minutos. Cronômetro.

Prepare uma outra tigela, esta com água e gelo. Passado o tempo, desfaça-se da água fervida e transfira as amêndoas quentes para boiarem junto com os cubinhos gelados.

É o choque térmico que faz com que a pele das meninas se solte. Uma pena. Ou melhor, um peeling. Deixe esfriar por dois minutos. Cronômetro. Assim, ficam geladas.

Em seguida, retire as peles. Bronzeadas que eram, tornam-se brancas, dessas mais frescas, que passam bloqueador solar até à noite. Contudo, é preciso dizer: as rugas continuam ali.

As capinhas ficam soltas, como um balãozinho murcho, mas não saem sozinhas. Com a ponta de uma faca pequena deve-se furar e puxá-las com cuidado, uma a uma, delicadamente, das cento e cinqüenta amêndoas. Neste ínterim, preaqueça o forno a 160ºC (temperatura baixa), por dez minutos. Termômetro. Cronômetro.

Depois de descascadas, ou peladas, ou despeladas, ou escalpeladas, ou escaldadas, ou produzidas por tratamento estético, organize as mil e quinhentas amêndoas numa assadeira.

Coloque-as dentro do forno - desligado - por dez minutos. Cronômetro. Ah, chacoalhe a assadeira de vez em quando para que elas se animem um pouco e assem por igual.

Tempo findo, diga às garotas que a sessão de bronzeamento artificial acabou – afinal, fizeram descamação pra quê? Organize todas elas em cima de uma tábua e peça para ficarem quietas – mulheres quando se juntam...

Agora sim, tem início o verdadeiro trabalho artístico. Com um bisturi, digo, uma faquinha, muito afiada, comece a cortar as cem mil e quinhentas amêndoas em lâminas bem finas.

A princípio, você vai laminar os dedos com mais facilidade que as amêndoas. É que eles são mais macios. Mas não se preocupe. Depois de partir um milhão e quinhentas mil delas, é possível cortar uma única, com cerca de 1cmx0,5cm em pelo menos oito pedaços. Cuidado para não ser soterrado.

Depois de terminado, aprecie no arroz metido a besta, na salada sofisticada, na decoração da sobremesa.

E lembre-se alegremente: ainda tem que preparar o peru, que é um só!

11 de abril de 2007

canção para cair em mim













O cavalinho rodou
O carrossel
A roda gigante
A roda da fortuna
As bolas no globo rodaram
Os discos
Os filmes
Os parafusos
A engrenagem rodava
O relógio
O girassol
O moinho
O redemoinho
A bailarina
As luas rodariam
As órbitas
Os olhos
O assoalho
Gira circula volteia
Tudo rodando
E eu tonta da vida
Tonta
Tanto, tanto


12 de outubro de 2006

o rato

Tinha um rato no meu caminho hoje.

O bicho atravessou a pista diante de mim, bem na hora em que o sinal ia ficando amarelo. Tive que decidir: matava ou não matava o rato?

Era um ratinho preto. Não muito grande não. Mas estava dia claro. Pude vê-lo quase dentro dos olhos. Cauda longa. Patas curtas. Meio hesitante, correu.

Carros atrás de mim já estavam parando. O pardal, o sinal, o rádio alto, óculos escuros, compras, minha mãe gritando “mata o rato, mata o rato”. Foi assim que, numa fração de segundo, ficamos frente a frente. Nós três. O rato, a humanidade e eu.

Me lembrei da ratazana existencialista de Günter Grass (aquele mentiroso). Do Mickey Mouse, do Jerry, do Stuart Little e até do PiuPiu, que apesar de não ser rato, era como se fosse. Me lembrei da peste negra. De todos os ratos da minha vida (indigestos como os sapos que tive que engolir). Dos dois ratinhos de verdade que criei (em menos de duas semanas eram nove). A fêmea me mordeu. E saiu sangue!

Pensei nos bilhões de ratos de laboratório que morrem todos os dias por causas tão nobres quanto a reversão de doenças graves e não tão nobres como o creme anti-rugas da titia. Pensei no Pink e no Cérebro. No domínio do mundo. E, finalmente, em todos os gatos sofridos e injustiçados pelos séculos e séculos afora.

Freio. Fui multada no semáforo. Aquele maldito pardal fotografou a placa do meu carro. Mas quem sou eu para fazer justiça com as próprias mãos? Ratos estão por toda a parte. E sempre estarão.