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9 de novembro de 2009

o mundo num copo d'água

Coloquei o globo terrestre num copo d'água
Feito uma dentadura que observa,
Em meio a muxoxos de borbulhas,
O mundo distorcendo-se lá fora.
Flutuações dentifrícias
Num dia de devaneios banguelas.

Coloquei-o e o esqueci lá.

11 de setembro de 2009

escatológicas

Plena sexta-feira, sabe como é... Vamos lá.

Encontrar uma pessoa conhecida num banheiro público é sempre constrangedor. Principalmente se é alguém que você não vê há muito tempo ou que não viu quase nunca. E, mais ainda, se o nome dessa criatura não passa de uma diminuta penumbra num recôndito recanto de sua mente.
Descargas quase que simultâneas. Saídas no mesmo segundo. Encaradas encurraladas. Cabeça balança, olhos arregalam. Lava as mãos, vira pro lado, disfarça e...

- Olá!
- Ooooi!... Ahn... Querida!
- Tudo bem?
- Tudo!...
- Há quanto tempo, hein?
- Pois é...
- Quando foi a última vez que nos vimos?
- A última vez?
- Acho que foi naquele barzinho lá na Asa Norte, não foi?
- É... Ahn... Foi! Foi isso mesmo...
- Mas não era dentro do banheiro! Hahahaha!
- Hahahaha... Não era...
- Mas tenho certeza que foi lá.
- Foi, foi.

Sorrisão observando, imóvel; meus dedos pingando com leve aspecto de maracujá passado.

- Você me dá licença? Preciso enxugar as mãos.
- Claro! Uma toalha ou duas?
- Três. Qualidade ruim, não enxuga nada, sabe como é.
- Hahahahaha! Você continua engraçada!
- Hahaha... Obrigada. Você também.
- Que bom!
- Eu vou indo então.
- Bom te ver!
- Ótimo...
- Tchau!
- Tchau.

Eu lá dentro, desfazendo-me de um inocente xixi. A mulher ao lado, concluindo seu plano maligno de detonar uma hecatombe nuclear. Descarga demorada. Muito demorada. Sai. Uma colega dela lavava as mãos, mas foi pega antes que pudesse reagir.

- Ai, menina, eu não consigo fazer fora de casa... É fogo!
(E combustível altamente inflamável)
- É eu também não sou nenhum reloginho.
(Apesar do tique-taque ser audível)
- Aí, quando sinto que a coisa vem, não dá pra segurar.
(Mas interdite o local, minha senhora!)
- Ah, é melhor não segurar mesmo não. Vai que depois não dá mais conta...
(O que você quer dizer com “não dá mais conta”?)
- É menina, resolvi meu problema agora!
(E criou um outro enorme para a camada de ozônio)
- Fez muito bem.
(Não, de novo não!)
- Hihihihihi!
(Esse xixi não acaba?)

10 de janeiro de 2009

se meu apartamento falasse

O piso está ficando cheio de riscos. Eu ando de salto, pra lá e pra cá, apesar de ser tão alta descalça. Para ganhar impulso, os gatos cravam as unhas no chão na brincadeira de correr. Tenho mania de trocar os móveis de lugar. Arrasto tudo sozinha. Depois olho pra baixo e vejo os rastros de minha obra. Porcaria de laminado. Espero que o proprietário do apartamento não se lembre muito bem como ele era antes. Corro riscos.

Tenho um verdadeiro ódio daquele lustre da sala. Ódio mesmo. Me recosto na minha maravilhosa poltrona vermelha de design (que eu amo) e fico observando aquilo ali. Aquele encosto de lustre. Um verdadeiro encosto. Quando penso em algo muito ruim lembro do lustre, imediatamente. Tipo Laranja Mecânica. Que espécie de pessoa coloca uma aberração dessas no meio da sala?

E tem a porta. É uma porta, essa porta. Coisa de gente, no mínimo, sem gosto. Com umas treliças falsas esculpidas na madeira (deve ser laminado também). Eu quero bater naquela porta, bater, bater, bater com força. Acho até que alguém já tentou isso antes, porque ela está meio torta pra um lado. Fica uma frestinha em cima. E para completar, a maçaneta é travada do lado de fora. Se é a porta que bate, adeus.

O quarto de televisão seria a suíte. Digo seria porque tem tantos armários, tantos, armários ensandecidos e genuinamente horrorosos, armários até no teto, até em cima da porta, até na janela... Que a minha cama não cabe lá. E nem eu queria dormir num lugar tão claustrofóbico, que parece que à noite, o monstro do armário de puxadores dourados vai me engolir.

As persianas verticais são velhas e não tapam claridade nenhuma. Tenho medo dos cordões arrebentarem quando puxo e chego a desistir de abri-las. Também, que diferença faz? Os suportes das correntinhas que unem uma persiana à outra são de plástico e depois de uns meses de sol direto começam a desmanchar na mão, feito biscoitinho de polvilho caseiro. Difícil de engolir. O passatempo favorito dos gatos é morder e puxar essas correntinhas, até arrancar tudo. Já perdi as contas de quantas "unidades de suporte plástico" comprei e instalei.

Detesto o rodateto. Fritei os miolos num árduo exercício de raciocínio lógico, para concluir que eram de isopor e não de gesso, como os convencionais. É que, bem em cima das portas de vidro, um pedaço dele ficou pendurado. Se fosse de gesso teria caído direto. Era algo surreal aquele rodateto com aspecto de gesso pendurado daquele jeito. Um desafio às leis da gravidade. Pensei em tanta coisa... Será que é de papel? Papelão. Ahnnn... Plástico. Ou, se tiver sorte, é apenas uma miragem, uma alucinação. Vai sumir quando eu abrir os olhos de novo. Putz. Continua ali.

Mas vamos falar de coisas que eu gosto no apartamento, além dos meus próprios móveis e objetos.

...

A vista do Lago Paranoá, lá fora.

1 de novembro de 2007

Mar se há

Olha, eu não vou à praia porque não posso, porque a praia fica longe.

Mas eu gosto do gosto do sal na boca depois do mergulho
Da dormência que a areia traz no crepitar na pele
Da água quente aqui dentro
Da espuma esfinge
Das conchinhas perdidas por seus moluscos
Do ventinho, contando umas piadas
Do mordiscar das ondas nas pernas
Do enterrar dos pés aos pouquinhos
Daquele cheiro de maresia
Que me leva de volta ao lar.

16 de junho de 2007

biscoito chinês

Não tem nem três meses, eu me considerava uma pessoa de sorte, do fundo do meu coração. Mas, de repente, não sei porque, tudo desandou: perdi o namorado, briguei no trabalho, a insônia voltou, meus aparelhos eletrônicos pifaram todos de uma só vez sem que nem um raio tivesse caído nas redondezas.

E, assim, tive certeza. A maré começou.

Sábado, 10h40. Eu precisava ter saído, feito mil coisas na rua. Mas tinha acabado de acordar, com aquela cara de bife que fritou a noite inteira na cama sem conseguir dormir. Chamei o gato trinta vezes pra repassar um carinho e ele não veio. Ué... O gato obedecia ordens até três meses atrás...

Eu não percebi na hora, mas era um sinal.

Tomei banho quente, pelando. Com calor, botei um vestido fininho. Fui arrumar a cama, organizar uns papéis, depois checar uns e-mails. O estômago roncou. 11h50 sem comer nada.

Pensei em ir ao self-service da esquina, apesar de ainda insistirem em repetir essa chatice de que a cidade não tem esquinas. Foi quando a preguiça bateu de novo, forte. Vamos parar com esse negócio de ficar andando, respirando ar puro, pegando sol. Vou é chamar o China In Box.


Quarenta minutos depois, toca o interfone. Corro pra pegar o dinheiro e vejo o gato na sala de tevê, se digladiando com o ratinho de brinquedo. Abro a porta e o entregador mascarado, com capacete de motociclista na cabeça, me estica a sacolinha e o troco. Obrigada.

Foi o tempo de olhar pra baixo e ver que o gato escapulia feito um raio (ah! O raio!) por baixo das minhas pernas, miando em direção às escadas do andar de baixo. Fração de segundos: dou três passos rápidos e longos, alcanço o gato e escuto o “cablam”! De costas, penso ainda: “cablam”???

Me viro e vejo a porta fechada, irremediavelmente fechada. Por que fui abrir a janela? Eu não gostava mesmo de ar puro!...


O motoqueiro mascarado entra correndo no elevador fazendo cara de “não tenho nada a ver com isso”, claro, sem deixar de rir disfarçadamente.

A minha ansiedade deu um duplo tuíste mortal carpado pra trás.

Estava ali, no meio do corredor escuro, de vestidinho, chinelos, descabelada, com o almoço, o troco e o gato na mão, trancada do lado de fora de casa. Pensei no “Homem Nu”. Aliás, pensei na minha vida inteira como num cineminha. Queria morrer.

Fiquei estática, estatelada e apalermada por alguns segundos. Segundos não, minutos. Minutos? Pareceram horas. Olhei para a porta. Pateticamente, forcei a maçaneta travada. O gato começou a berrar. Está tudo sob controle. Vamos descer e pedir ajuda para o porteiro.

E o porteiro se espantou um bocado, ao me ver chegar daquele jeito, feito uma louca de rua, logo ele que só me vê quando saio e quando volto, toda arrumadinha e bem penteada. Expliquei a situação e ele se compadeceu, claro, sem deixar de rir disfarçadamente. “Vou ligar para o chaveiro da quadra”.

Na minha quadra tem um chaveiro 24 horas. Fica a menos de dois minutos da minha casa. E quem disse que o telefone atendia? Tenta, tenta, tenta, quinze minutos ocupado. “Vou tentar esse outro que tem aqui”. Então tenta, pelamordedeus!

Atendeu. Era do outro lado da cidade. Valor do serviço: 35 reais. Me passa esse telefone. Comecei a discutir o preço quando o gato, já de saco cheio de ficar no colo, se desesperou. Achou que ia cair e começou a escalar as minhas costas, cravando as unhas com vontade. Me ajuda, me ajuda! “Hein?” Não, não, aaaaaaaaaaiiiiiii!!! Não é com o senhor, não!

O porteiro segurou o gato descontrolado e em vez de tirá-lo de cima de mim, apenas sustentou o bicho, que, assim, ficou correndo as garras na minha pele.

Moço, vem agoooooora!

Gato não é que nem cachorro, que você solta na rua, fica olhando e dá um assobio que ele volta. Gato, ainda mais acostumado a apartamento, se esgueira numa velocidade, sobe numa árvore, se esconde num buraco e aí, meu amigo... Um abraço. Nunca mais.

Segurei o gato com segurança, comme il faut. Agradeci ao porteiro e amarguei a dor das unhadas na carne. Percebi que tinha sangue grudando no vestido. Parecia que tinha sido torturada – parecia? Comecei a chorar baixinho. Andei de um lado para o outro pra ver se o gato se acalmava – e eu. Os vizinhos passavam olhando.

Finalmente, resolvi largar a sacolinha do almoço num degrau de mármore da escada da portaria. Sentei em outro, pus o gato no colo. Senti o mármore frio congelando a minha bunda com toda a crueldade. Apesar de ser atéia, rezei fervorosamente para não aparecer nenhum cachorro, dos cem que existem no prédio. Cadê esse chaveiro?

Meia hora depois, já com a bunda anestesiada, chega o cidadão. Conto a história toda de novo e ele também se compadece, claro, sem deixar de rir disfarçadamente. Subimos. Mais meia hora pra arrombar a maldita porta. O gato miando e o almoço esfriando. “Não foi fácil não, dona, esse serviço é muito chato”. Tudo bem, você salvou a minha vida. Acho que estou valendo pelo menos uns trinta e cinco reais – talvez menos. Muito obrigada.

Fechei a porta, o gato saiu correndo para debaixo da mesa. Comi meu almocinho gelado que, no final das contas, contando o serviço do chaveiro, tinha saído por 60 reais. Sem fome, deixei a caixinha mini pela metade. Em compensação, lembrei que tinha uma caixa de Bis no armário. E essa eu comi todinha.

Fui jogar fora os restos, cheia da maré de azar, achei o biscoito chinês da sorte. A mensagem dentro dele – eu precisava ler a mensagem, precisava! - dizia assim: “O progresso calmo e constante, livre de precipitação, conduz ao objetivo.”

...

Vai à puta que pariiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiu!!!!

26 de outubro de 2006

o monstro da lagoa negra










Ele saiu das águas esbaforido. Um monte de gente correndo atrás, fugindo, gritando... Gente. Se não é nada fácil ser gente, imagine esse negócio de ser um monstro. É uma carga muito pesada para o indivíduo, entende? Meio elo perdido, meio anfíbio, meio popstar, o Monstro da Lagoa Negra... Tananammm (grave)... Tananammm (agudo)... A trilha sonora específica, toda a vez que aparece em cena... Pode causar traumas profundos.

Apesar de tudo, a patinha escamosa de unhas cortantes tinha polegar opositor. Muito humano isso. É bem verdade que não sabia exatamente como fazer uso dele. Acabou sufocando uns brasileiros no filme, coitado, acho que só queria fazer amigos, dar um abraço apertado. O povo brasileiro é tão caloroso... Mas o Monstro da Lagoa Negra – Tananammm (grave)... Tananammm (agudo)... – não tem sentimentos. Como todo o que é diferente, foi julgado e condenado antes mesmo de saber que precisava se defender.

O erro do monstro foi se apaixonar – esse é o erro de todos os monstros! E bem por uma gringa, a mocinha do filme, logo ele, um monstro amazônico, verdinho, exímio nadador, cheio de grunhidos tropicais. A mocinha não sabia – nunca sabem – e nem queria saber, se o monstro estava valendo a pena. Não falava a língua dele, tapava os olhos, quebrava o eixo, se esgoelava, não percebia a grandeza de suas intenções. O monstro só queria ser amado.

A Lagoa Negra é o seu lar. Preso ali vive livre e feliz. Não precisa se importar com o que pensam dele. E quem invade seu mundo, tem que se apresentar verdadeiro.

Eu procuro entender o monstro. Quem é que, vez ou outra, não se sente um?

O Monstro da Lagoa Negra – Tananammm (grave)... Tananammm (agudo)... –, debaixo daquela fantasia, sou eu.

15 de agosto de 2006

ruínas

Comecei a erguer uma casa.

De início, não tinha eu as maiores ambições. Queria apenas um lugar onde pudesse me saber feliz. Já morei em alguns diferentes espaços. Mas nenhum que eu chamasse verdadeiramente de lar. E sem nada mais a perder, num estranho segundo, comecei a construção.

Fazia tijolo, concreto armado, pau pra toda obra, madeira de lei, azulejo relevante, era vidro, pedra no sapato, dava na telha, parafusos a menos, ficava só o prego, martelava no dedo. O desalinhamento não veio junto, como eu temia. Subiu tudo numa rapidez de muito investimento.

E assim, sem querer, o que nasceu lugar para morar... Tinha virado um castelo. Com tantos cômodos aconchegantes, tantos vãos e voltam, escadas de caracol, salas imensas, claras varandas, quartos crescentes, jardins suspensos, fechaduras cheias de olhos, armários de C. S. Lewis, cantinhos a perder a conta, portas para outras dimensões, que às vezes desaparecia para me achar lá dentro. Encontrava cem janelas abertas para as nuvens e o sol. Veneza ou Kuala Lumpur. Para a máquina do tempo. Para as savanas africanas ou para uma lagoa dos Lençóis. Na minha própria casa.

Até que, numa noite sem chuva, de volta, cansada depois de um dia de trabalho... Ela não estava mais ali. A casa que eu levantei com carinho e suor foi mais uma vez ao chão, como todas as outras, com tudo o que eu amava lá dentro. Ruiu, e até hoje não sei bem se veio inteira abaixo ou se a demoliram sem pressa, às colherinhas de café sem açúcar.

Sei eu que as ruínas vão ficar, expostas e misteriosas, lindas e gratuitas, abertas à visitação pública. Ou até que reapareça, por fortuito que seja, o desejo de um dia as reconstruir.

5 de agosto de 2006

mergulho em apnéia













Eu mergulhei de cabeça, cheia de caraminholas maduras. Sempre soube nadar, mas naquele momento exato... Esqueci. Deu um branco total de flutuações, cachorrinho, bóia, bote inflável, borboleta, natação em geral. E assim fui afundando.

Olhei para os lados ao descer. Era só aquele silêncio de tímpanos estourados e cabelos mesclados com o movimento. Vi umas bolhinhas poucas, tão indolentes que, pensei eu, “vão afundar também”.

De repente, o imprevisto: Jacques Mayol aparece na minha frente! E, é claro, me ultrapassa rápido, sumindo no meio da imensidão azul. Na seqüência passa um golfinho bobo, fazendo bico de desdém.

Uma pequena sereia tricota, velhinha, ainda linda, porém muda como um peixe. Queria ter virado borbulhas, se misturando às ondas do mar, mas os estúdios Disney não deixaram. Seu príncipe nasceu, cresceu e morreu. E ela continua ali, pelos milhares de anos, se ressentindo da falta que Andersen faz.

Atlântida não era uma companhia cinematográfica fadada a afundar! Vi seus peixes com cara de gente, sua cidade avançada, Bob Esponja e Ulysses Guimarães jogando canastra com uma ostra recôndita. Titanic submergiu para ser a bela casa de tantos peixinhos...

Foi quando cocei as orelhas molhadas que me lembrei: “cadê minhas brânquias?” Nem baleia era – ou estava -, apesar de colega mamífera, mesmo com uns pouquíssimos quilinhos fora de lugar. Muito menos anfíbia, pingüim, foca ou cavalo-marinho.

Oh, mares! Jacques Mayol está voltando... Tenho que me agarrar ao desejo de Jacques Mayol de respirar.

E sendo assim, no poço sem fundo da minha quimera, permaneci. E ainda hoje vivo na esperança de encontrar o golfinho desdenhoso, que um dia, creio, terá que emergir para tomar ar.