
9 de novembro de 2007
7 de novembro de 2007
remember the king
Há alguns anos, fui conhecer Buenos Aires. A capital argentina me encantou em seus recantos, pela cultura e pela arte, pelas histórias fortes de poder e queda, por seus habitantes cheios de gentilezas e críticas, pela majestática decadência das ruas. Fiz o trajeto típico do bom turista: Casa Rosada, Plaza de Mayo, Recoleta, La Boca, Malba... Remexi tudo por ali.
Foi assim que, cansada, depois de muito andar pela Calle Florida, entrei em uma pequena lanchonete. O lugar estava tranqüilo, quase vazio. Pedi um café com creme, que veio rápido e me perfumou a alma, num buquê de espuma espessa. Esse cheiro todo magnético, mágica dentro de uma xicarazinha, me cativava entre todos os prazeres simples.
Como de costume, peguei a colherinha e ataquei primeiro o chantilly todinho, na frente, de entrada. Agora sim, o açúcar. Muito. Mexe. Prova. Que bom!...
Bem mais adocicada e aquecida, olhava para o movimento lá fora, através do vidro imenso da vitrine. Me distraí no transe do cheiro gostoso da bebida e comecei a cantarolar baixinho a música que sempre me vem sem querer quando estou feliz assim: “Wise men say... Only fools rush in... But I can’t help falling in love...With you...”
“Também adoro começar pelo creme”. Olhei na direção daquela voz única. Vinha de um homem velho, que tomava o mesmo que eu, sentado à mesa ao lado. Balancei a cabeça, cantos da boca numa curva ascendente, em cumprimento, e me calei.
Devia estar perto de seus setenta anos e parecia ser alto. Os traços delatavam uma beleza envolvente, aliás, num passado nem tão afastado assim desses dias frios de junho. Os cabelos brancos formavam entradas largas sobre os olhos claros de tudo e, engraçado, de sobrancelhas escuras. Certamente tinha algo de extravagante, pois notei que, vestido de preto, calçava sapatos azuis, de camurça. Falava a língua da terra com um acento diferente, quase tão estranho quanto o meu. “Hola, señorita. Perdóname la audacia. Mi nombre es Aaron”, disse, sorridente. Aaron. Tinha um sorriso perfeito, puxado um pouquinho para a direita.
“Olá, senhor! Não se preocupe... Eu sempre começo com o chantilly porque o sabor é mais suave. Misturado ao café o gosto bom do creme some todo!”
“Verdade, verdade. É assim que faço também...”
Ficamos nos analisando, durante alguns segundos decisivos. Não sei dizer porque, mas o olhar direto daquela figura estranha me constrangia. Num debate interno à procura forçosa de uma resposta, fui fulminada por um flash de memória que incomodou. Ele me pareceu familiar.
“A senhorita não é argentina, suponho.”
“Não, não, realmente não sou.”
“Norte-americana?”
Achei graça da confusão. Meu espanhol devia estar uma droga... “Não. Eu sou vizinha, aqui do lado. Brasileira.”
“Ah, brasileira... É uma pena; eu nunca estive no Brasil, senhorita...”
“Marcya.”
“Senhorita Marcya.”
“Mas, tão pertinho, não vai faltar oportunidade, não é?”
“Bem, digamos que eu já esteja muito velho para viajar.”
“Velho? O que é isso? De jeito nenhum; o senhor está ótimo!”
Seu rosto se tornou todo alegre, pela ênfase da última frase.
“Faz tempo que não ouço um bom elogio de uma moça bonita! Às vezes faz falta!...”
Senti-me um pouco envergonhada. De repente me peguei praticamente flertando com um sujeito que encontrei à toa na rua e parecia ter mais idade que meu pai. Não sei o que me deu. Mas a verdade é que estava fascinada por ele. Nunca eu tinha visto antes, tão de perto, um carisma de tantos tentáculos, a me arrastar para dentro das pupilas cerúleas, da voz rouca e melodiosa, do café quente com creme. Agora não podia mais parar.
“O senhor também não é argentino...”
“Eu sou uma ponte cruzando águas tortuosas, querida. Um homem do mundo... Trancado em mim mesmo.”
“Posso adivinhar?”
“Adivinhe então; gosto desses desafios...”
“Ahn... Norte-americano?”
Consegui deixá-lo desconcertado. “Muito perspicaz! Muito perspicaz... A senhorita sempre faz adivinhações tão precisas?”
“Pode me chamar de você”, limitei-me a responder.
“Obrigado. Chamarei sim, com muita honra.”
Ele agora parecia um tanto desconfiado de mim. Olhou o relógio, que marcava quatro da tarde.
“Conheci tantas mulheres na minha juventude, tantas, tantas, e continuo um garoto na tentativa de entendê-las...”
“Não é preciso entendê-las. Basta descobrir como elas gostam de ser tratadas. É a chave do segredo”, falei baixinho.
“E como elas gostam de ser tratadas?”
“É como diz a canção: ‘Don't be cruel... To a heart, that's true…”
Dessa vez, o homem ficou realmente preocupado e levantou-se, subitamente. O meu subconsciente me pregara uma bem armada peça.
“Preciso ir embora agora... Me demorei demais aqui. Mas a companhia justificou tanta atenção. A senho... Você... É uma moça encantadora!”
“Senhor... Já não o vi antes em algum lugar?”
“Talvez... Quem é que pode saber?”
Um relance de lembrança correu outra vez na minha frente, brincante, fugitivo, querendo me confundir. Voltei aos meus seis anos de idade, a um noticiário de tevê, a um disco de vinil tocando no volume máximo, a lágrimas sentidas. Comecei a rir. Tudo isso era uma grande loucura. Não podia ser.
“You were always on my mind”, arrisquei, numa saudação amorosa de profunda reverência.
O homem virou-se, um tanto surpreso, beijou minha mão com carinho e ofereceu aquele sorriso lindo aos meus olhos molhados, pela última vez.
“I’ll remember you”, respondeu ele.
Colocou os óculos escuros, baixou a cabeça e saiu pela porta de vidro caminhando sem pressa, até sumir no meio da multidão da calle, deixando para sempre dentro de mim o sabor doce do creme e o cheiro inesquecível do café daquele lugar.
Foi assim que, cansada, depois de muito andar pela Calle Florida, entrei em uma pequena lanchonete. O lugar estava tranqüilo, quase vazio. Pedi um café com creme, que veio rápido e me perfumou a alma, num buquê de espuma espessa. Esse cheiro todo magnético, mágica dentro de uma xicarazinha, me cativava entre todos os prazeres simples.
Como de costume, peguei a colherinha e ataquei primeiro o chantilly todinho, na frente, de entrada. Agora sim, o açúcar. Muito. Mexe. Prova. Que bom!...
Bem mais adocicada e aquecida, olhava para o movimento lá fora, através do vidro imenso da vitrine. Me distraí no transe do cheiro gostoso da bebida e comecei a cantarolar baixinho a música que sempre me vem sem querer quando estou feliz assim: “Wise men say... Only fools rush in... But I can’t help falling in love...With you...”
“Também adoro começar pelo creme”. Olhei na direção daquela voz única. Vinha de um homem velho, que tomava o mesmo que eu, sentado à mesa ao lado. Balancei a cabeça, cantos da boca numa curva ascendente, em cumprimento, e me calei.
Devia estar perto de seus setenta anos e parecia ser alto. Os traços delatavam uma beleza envolvente, aliás, num passado nem tão afastado assim desses dias frios de junho. Os cabelos brancos formavam entradas largas sobre os olhos claros de tudo e, engraçado, de sobrancelhas escuras. Certamente tinha algo de extravagante, pois notei que, vestido de preto, calçava sapatos azuis, de camurça. Falava a língua da terra com um acento diferente, quase tão estranho quanto o meu. “Hola, señorita. Perdóname la audacia. Mi nombre es Aaron”, disse, sorridente. Aaron. Tinha um sorriso perfeito, puxado um pouquinho para a direita.
“Olá, senhor! Não se preocupe... Eu sempre começo com o chantilly porque o sabor é mais suave. Misturado ao café o gosto bom do creme some todo!”
“Verdade, verdade. É assim que faço também...”
Ficamos nos analisando, durante alguns segundos decisivos. Não sei dizer porque, mas o olhar direto daquela figura estranha me constrangia. Num debate interno à procura forçosa de uma resposta, fui fulminada por um flash de memória que incomodou. Ele me pareceu familiar.
“A senhorita não é argentina, suponho.”
“Não, não, realmente não sou.”
“Norte-americana?”
Achei graça da confusão. Meu espanhol devia estar uma droga... “Não. Eu sou vizinha, aqui do lado. Brasileira.”
“Ah, brasileira... É uma pena; eu nunca estive no Brasil, senhorita...”
“Marcya.”
“Senhorita Marcya.”
“Mas, tão pertinho, não vai faltar oportunidade, não é?”
“Bem, digamos que eu já esteja muito velho para viajar.”
“Velho? O que é isso? De jeito nenhum; o senhor está ótimo!”
Seu rosto se tornou todo alegre, pela ênfase da última frase.
“Faz tempo que não ouço um bom elogio de uma moça bonita! Às vezes faz falta!...”
Senti-me um pouco envergonhada. De repente me peguei praticamente flertando com um sujeito que encontrei à toa na rua e parecia ter mais idade que meu pai. Não sei o que me deu. Mas a verdade é que estava fascinada por ele. Nunca eu tinha visto antes, tão de perto, um carisma de tantos tentáculos, a me arrastar para dentro das pupilas cerúleas, da voz rouca e melodiosa, do café quente com creme. Agora não podia mais parar.
“O senhor também não é argentino...”
“Eu sou uma ponte cruzando águas tortuosas, querida. Um homem do mundo... Trancado em mim mesmo.”
“Posso adivinhar?”
“Adivinhe então; gosto desses desafios...”
“Ahn... Norte-americano?”
Consegui deixá-lo desconcertado. “Muito perspicaz! Muito perspicaz... A senhorita sempre faz adivinhações tão precisas?”
“Pode me chamar de você”, limitei-me a responder.
“Obrigado. Chamarei sim, com muita honra.”
Ele agora parecia um tanto desconfiado de mim. Olhou o relógio, que marcava quatro da tarde.
“Conheci tantas mulheres na minha juventude, tantas, tantas, e continuo um garoto na tentativa de entendê-las...”
“Não é preciso entendê-las. Basta descobrir como elas gostam de ser tratadas. É a chave do segredo”, falei baixinho.
“E como elas gostam de ser tratadas?”
“É como diz a canção: ‘Don't be cruel... To a heart, that's true…”
Dessa vez, o homem ficou realmente preocupado e levantou-se, subitamente. O meu subconsciente me pregara uma bem armada peça.
“Preciso ir embora agora... Me demorei demais aqui. Mas a companhia justificou tanta atenção. A senho... Você... É uma moça encantadora!”
“Senhor... Já não o vi antes em algum lugar?”
“Talvez... Quem é que pode saber?”
Um relance de lembrança correu outra vez na minha frente, brincante, fugitivo, querendo me confundir. Voltei aos meus seis anos de idade, a um noticiário de tevê, a um disco de vinil tocando no volume máximo, a lágrimas sentidas. Comecei a rir. Tudo isso era uma grande loucura. Não podia ser.
“You were always on my mind”, arrisquei, numa saudação amorosa de profunda reverência.
O homem virou-se, um tanto surpreso, beijou minha mão com carinho e ofereceu aquele sorriso lindo aos meus olhos molhados, pela última vez.
“I’ll remember you”, respondeu ele.
Colocou os óculos escuros, baixou a cabeça e saiu pela porta de vidro caminhando sem pressa, até sumir no meio da multidão da calle, deixando para sempre dentro de mim o sabor doce do creme e o cheiro inesquecível do café daquele lugar.
3 de novembro de 2007
joaninhas impossíveis
Quando eu era menina, de assim uns sete anos, tinha uma coleção de joaninhas. Esse bichinho pintado, que vivia aos mil nas plantinhas dos anos 70, e por isso podia até ser colecionado, de repente sumiu de junto do olhar da gente. Não sei se foi porque eu cresci e passei a reparar menos nessas pequenezas bonitas que as crianças enxergam. Mas acho que não.
Aliás, penso até que percebi o primeiro sinal do estapafúrdio que virou o clima do planeta quando voltei à árvore da minha infância e procurei, procurei, procurei... Achei uma, uminha só. A última joaninha.
Antes não. Nas árvores por aí, em especial nas amoreiras, encontrava delas aos montes, dezenas, com manchinhas variadas na carapaça das costas. Brancas com pintinhas pretas. Pretas com pintinhas vermelhas. Vermelhas com pintinhas pretas. Que alegria boa que me dava de achar as cores todas num mesmo dia!
Pegava a caixinha de fósforos vazia, daquelas com um olho desenhado no rótulo. Forrava com folhinha de amora e ia caçar. Olhava para cima até ficar de pescoço doído. Catava com carinho e elas retribuíam passeando nas mãos, passadas de uma pra outra, fazendo cosquinha, perninhas rápidas, obedientes, sem voar. Mesmo assim, eu as colocava dentro da caixa e levava pra casa. Acho que ninguém nunca soube. Pode parecer maldade, mas não era não.
É que me vinha uma felicidade que se derramava em sorrisos, isso só por vê-las passear pela superfície lisa do vidro de maionese onde eu guardava amorosamente a minha efêmera coletânea. Durava apenas um dia. Um dia, que era o tempo que eu achava justo aprisionar uma joaninha. De manhã, me levantava cedo e as libertava todinhas pela janela. Ficava olhando cada uma despertar, esticar as asinhas e partir num zumbidinho surdo. Em segundos, desapareciam no azul do céu, no vermelhão dos redemoinhos daquela época, no verde aventureiro que escalava até o quarto andar do prédio.
Desde então, creio que desenvolvi um contato extra-sensorial com as joaninhas, como se fosse teleguiada. Elas é que me aprisionavam agora. Nos cantos mais bizarros do mundo me deparo com uma. Uminha só.
Há dez anos, em Tanger, no Marrocos, entrei num navio para fazer a travessia até Algeciras, na Espanha, vinda de uma primeira viagem ao deserto. Estava muito bem no convés, olhando a água que se alastrava perfeitamente ao redor da embarcação, como tem que ser, sem vista de terra firme. Vai daí que sinto a familiar cosquinha no braço. Olho, era uma joaninha, uma joaninha mesmo, que achou de pousar em mim ali, no meio do oceano. Brinquei muito com ela, como de costume. Não voou. Tirei fotos, mas o close da joaninha não ficou muito bom. Houve quem não acreditasse.
Em Roma também, já se faz nem sei quanto tempo. No meio das ruínas antigas, eu com um mochilão nas costas - acho que me confundiu com uma delas, super-ultra-mega desenvolvida.
Mais uma apareceu na capital de Botsuana, Gaborone, num passeio ao parque local. De janelas abertas, nem desci do carro, lá vem a bolotinha voadora. Aterrissa no meu ombro, como o papagaio do pirata. Faz nada não. Deixa ela aí. Meu cabelo tá preso. Eu não capturo mais joaninhas.
A última foi a que notei no casaco branco de minha mãe, no meio da multidão de uma loja de departamentos em Madrid. Mas houve outras, muitas outras, que já nem me lembro mais.
Talvez elas façam parte de uma sociedade secreta, da confraria das joaninhas que pretendem salvar a Terra - tomara que consigam. Eu, que não tenho fé em nada, com elas, ao contrário, sempre tive certeza de que carregavam algo de especial. E continuo a acreditar. Talvez o meu papel nesse plano seja o de escrever essas coisas. E talvez se possa dizer – e claro, digam sim! - que eu sou alegremente manipulada por joaninhas impossíveis.
1 de novembro de 2007
Mar se há
Olha, eu não vou à praia porque não posso, porque a praia fica longe.
Mas eu gosto do gosto do sal na boca depois do mergulho
Da dormência que a areia traz no crepitar na pele
Da água quente aqui dentro
Da espuma esfinge
Das conchinhas perdidas por seus moluscos
Do ventinho, contando umas piadas
Do mordiscar das ondas nas pernas
Do enterrar dos pés aos pouquinhos
Daquele cheiro de maresia
Que me leva de volta ao lar.
Mas eu gosto do gosto do sal na boca depois do mergulho
Da dormência que a areia traz no crepitar na pele
Da água quente aqui dentro
Da espuma esfinge
Das conchinhas perdidas por seus moluscos
Do ventinho, contando umas piadas
Do mordiscar das ondas nas pernas
Do enterrar dos pés aos pouquinhos
Daquele cheiro de maresia
Que me leva de volta ao lar.
31 de outubro de 2007
a gincana

Não sabíamos ainda, mas ela estava começando, secretamente, naquele exato momento. Um cronômetro misterioso disparava a cada vez que os guias diziam “vocês têm quarenta minutos para visitar todos os monumentos, tirar fotos e almoçar. Nos encontramos aqui no ônibus”. Ainda por cima, eles falavam em portunhol. Ou, pior, em espaguês. Descobri. Era um código.
Um deles se chamava Jesús. “Aquele que me seguir, encontrará o caminho”. Em verdade vos digo: fiquei preocupada quando alguém comentou “Jesús está chamando”. E respondi: “é cedo. Não é chegada a hora”. Todos os guias tinham nomes de anjos. Miguel, Rafaela... Tudo bem que um se chamava Alejandro. Mas, por quê?
Comecei a desconfiar quando, ao chegar ao hotel, na primeira noite em Barcelona, liguei a tevê do quarto e começava, naquele segundo preciso, o primeiro capítulo da última temporada de Lost. E eu ainda não tinha visto. Foi bastante esclarecedor para mim.
Outros fatos enigmáticos continuaram a ocorrer, sucessivamente, naqueles dias. Minha mãe estava saindo de uma loja de departamentos no centro de Madri, às oito da tarde – é, oito lá é tarde –, as ruas tão lotadas que não dava pra ver o chão. Por minutos a perco. Procuro com os olhos, de meu mirante privativo e, ao distingui-la, de costas, casaco branco no meio da multidão, me aproximo e encontro o improvável: uma joaninha rechonchuda, caminhando tranqüila pela superfície de lã. Uma joaninha. Só podia ser um bônus.
Em todos os lugares aonde íamos, mal colocávamos o pé fora do ônibus turístico, sinos de igrejas badalavam. Acho que era um aviso da organização. Ou então, só colocávamos o pé fora do ônibus em horas cheias e meias.
Visitamos o Escorial, que é ao mesmo tempo mosteiro, igreja, palácio e túmulo de Felipe II da Espanha, erigido em homenagem a San Lorenzo “aquele que morreu na parilla” segundo a aparentemente inofensiva guia. Ela repetia a informação a cada minuto e fazia questão de mostrar as grelhas de churrasco representadas em detalhes da decoração. Muito revelador. Chegamos ao lindíssimo altar-mór quando soaram os acordes do órgão secular, obra-prima do gênero. A mulher virou-se para nós, solene, e disse: “incrível. Magnífico. Este órgão quase nunca é tocado”. E enfatizou: “quase nunca”.
Numa cidadezinnha chamada Évora, nossa primeira paragem em Portugal, nossos guias nos fizeram andar um bocado na companhia deles, para depois nos largar no meio de uma praça e condenar: "São quarenta e cinco minutos aqui. Vamos nos reencontrar lá no ônibus". Para o Minotauro seria moleza. As labirínticas ruelas nos conduziam a becos sem saída e lugar nenhum. Matei a charada. O lugar mais comentado pelos guias no caminho foi a tal Capela dos Ossos. É pra lá que nós vamos.
O nome "Capela dos Ossos" era literal. Na entrada, a mensagem de boas-vindas: “Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos". Maravilha. Minha mãe se sentiu mal lá dentro. Milhares de crânios, tíbias e perônios, rádios e cúbitos, costelinhas, carpos, metacarpos e falangezinhas, entre outros, davam o toque bizarro à decoração. Ouvi um sussurro com a voz de Jack Pallance no meu ouvido: "acredite... Se quiser".
Entre todas as experiências pouco convencionais, também não foi pouco estranho que eu e mamãe tenhamos sido expulsas do Oceanário de Lisboa no meio do passeio porque Vladimir Putin, presidente da Rússia, tinha ido visitar os peixinhos exatamente naquele dia, acompanhado de um exército da KGB – claro que ainda existe – que mais parecia os homens de preto, vestidos de terno e óculos escuros? Bem que quando chegamos achei esquisitos os barcos da polícia, o pessoal do serviço de inteligência portuguesa (ai, Jesús!), os helicópteros imensos e as metralhadoras carregadas pra todo lado. Peixinhos... Sei.
A última prova começou na Torre de Belém. Fomos severamente informados: “neste Café aqui ao lado há o único banheiro desse passeio de duas horas. O único. Depois não digam que eu não avisei...” Nesse instante, senti que foi dada a partida. “Vocês têm trinta minutos para conhecer a Torre, tirar fotos, e voltar para o ônibus a tempo para o Mosteiro dos Jerônimos. Ah! E não se esqueçam da sala de banhos...” Percebi um leve sarcasmo nessa frase final.
Antes da Torre, corri para o banheiro, afinal, ele era único e bem disfarçado. O monumento
eu já conhecia e ia ficar lá, pelos tempos afora, se mostrando pra todo mundo. Dava pra tirar uma foto de longe. De mais a mais, naquele momento específico, nada era mais monumental que o banheiro.
Na corrida descobri que o acesso era gratuito somente àqueles que tomassem pelo menos uma bica, ahn, café expresso. Droga! Filas enormes no balcão; meus concorrentes saíram na frente. Isso não vai ficar assim. Perguntando, descobri uma máquina que vendia fichas para uso exclusivo do troninho. Cinqüenta centavos. Cinqüenta centavos? Cadê essa moeda maldita? Vasculha, vasculha, vasculha!
Minha mãe veio salvar a pátria com um euro e direito a duas descargas consecutivas. Na hora de puxar a fichinha, veio um angolano correndo. “Não, não, não usem isso não!” Pronto. Mais surpresas da engenhosa competição. Que é que você quer? Aonde você vai? Volta aqui! Não usa por quê? Desgraçado. O angolano fugiu correndo de novo. Do jeito que a coisa está, acho que vou trapacear.
Funcionário do Café, ele volta logo, com uma ficha personalizada, encaçapa o euro mais que depressa e passa duas vezes o código de barras que libera a entrada. Entendi tudo. Decifrei a senha. Olhei para meus adversários na bicha, ahn, fila, e tive vontade de mostrar a língua. A peça final estava garantida. Mas nada se encaixava ainda.
Cumprimos todas as tarefas, com louvor. Ainda busco pelo prêmio, mas algo me diz que ele já está conosco. Estamos aqui: vivas, sãs e salvas, com todas as relíquias escondidas nas retinas e nas máquinas fotográficas.
14 de outubro de 2007
Odeio. Adoro.
Levantei de mau humor.
O telefone tocou às dez da manhã e, de repente, me dei conta de que já eram onze. Era a minha tia, querendo dar os parabéns. Odeio aniversário. Odeio acordar tarde. Odeio horário de verão, ainda mais na primavera.
Tive insônia. Acho que devo ter dormido de fato às quatro da madrugada, digo, cinco. A geladeira estava completamente vazia. A única sobrevivente, aliás, já nas últimas, era uma maçã. Não sei o que me deu que comprei essa maçã. Odeio maçã.
Eu tenho que arrumar a mala. Viajo amanhã e a minha casa está uma bagunça, que é algo que odeio. Vou com a minha mãe para a Espanha, de excursão. Odeio seguir guarda-chuvas. Tive dor-de-barriga só de pensar em entrar num avião. Quanto mais rodo o mundo, menos gosto. Odeio avião. Não tem ninguém pra levar a gente e vamos ter que ir para o aeroporto de táxi. Odeio táxi.
O Gato não está aqui e sinto falta dele e de suas reclamações. O costume me faz ficar na espreita, andando na ponta dos pés, com medo de pisar no rabo dele a qualquer momento. Tropecei no ratinho de brinquedo e meu coração disparou. Odeio essa sensação.
Fui almoçar fora, só eu e minha mãe, porque meu pai come num restaurante natural que eu realmente odeio, e não há data especial que o demova dessa idéia fixa. O peixe tinha algumas espinhas. Odeio espinhas. Todas elas.
Hoje vai passar na televisão uma droga de jogo de futebol do Brasil, contra não sei quem, eliminatória da Copa do Mundo. Odeio televisão. Odeio futebol. Odeio os fanáticos por futebol, que ficam berrando e soltando rojão no domingo. Odeio domingo.
Eu odeio pensar naquele Smurf Ranzinza (Smurf... Odeio lembrar dessas coisas que mais da metade do planeta nem sonha que um dia existiram), que vivia repetindo “eu odeio” e associar essa diminuta criatura azul a mim mesma. Odeio o Lula Molusco. Odeio o Patolino. Odeio o Zangado da Branca de Neve. Odeio maçã. De novo.
Estou com TPM, sim, aposto que foi isso que você pensou (odeio quem pensa isso). Mas essa é apenas uma das milhares de pequenas engrenagens da imensa e complexa estrutura que move o meu mau humor.
No momento, acho que só tem uma coisa que eu adoro (e preciso muito – além de chocolate e sexo, é claro): férias. Féééééériaaaaaaasssss!!!
O telefone tocou às dez da manhã e, de repente, me dei conta de que já eram onze. Era a minha tia, querendo dar os parabéns. Odeio aniversário. Odeio acordar tarde. Odeio horário de verão, ainda mais na primavera.
Tive insônia. Acho que devo ter dormido de fato às quatro da madrugada, digo, cinco. A geladeira estava completamente vazia. A única sobrevivente, aliás, já nas últimas, era uma maçã. Não sei o que me deu que comprei essa maçã. Odeio maçã.
Eu tenho que arrumar a mala. Viajo amanhã e a minha casa está uma bagunça, que é algo que odeio. Vou com a minha mãe para a Espanha, de excursão. Odeio seguir guarda-chuvas. Tive dor-de-barriga só de pensar em entrar num avião. Quanto mais rodo o mundo, menos gosto. Odeio avião. Não tem ninguém pra levar a gente e vamos ter que ir para o aeroporto de táxi. Odeio táxi.
O Gato não está aqui e sinto falta dele e de suas reclamações. O costume me faz ficar na espreita, andando na ponta dos pés, com medo de pisar no rabo dele a qualquer momento. Tropecei no ratinho de brinquedo e meu coração disparou. Odeio essa sensação.
Fui almoçar fora, só eu e minha mãe, porque meu pai come num restaurante natural que eu realmente odeio, e não há data especial que o demova dessa idéia fixa. O peixe tinha algumas espinhas. Odeio espinhas. Todas elas.
Hoje vai passar na televisão uma droga de jogo de futebol do Brasil, contra não sei quem, eliminatória da Copa do Mundo. Odeio televisão. Odeio futebol. Odeio os fanáticos por futebol, que ficam berrando e soltando rojão no domingo. Odeio domingo.
Eu odeio pensar naquele Smurf Ranzinza (Smurf... Odeio lembrar dessas coisas que mais da metade do planeta nem sonha que um dia existiram), que vivia repetindo “eu odeio” e associar essa diminuta criatura azul a mim mesma. Odeio o Lula Molusco. Odeio o Patolino. Odeio o Zangado da Branca de Neve. Odeio maçã. De novo.
Estou com TPM, sim, aposto que foi isso que você pensou (odeio quem pensa isso). Mas essa é apenas uma das milhares de pequenas engrenagens da imensa e complexa estrutura que move o meu mau humor.
No momento, acho que só tem uma coisa que eu adoro (e preciso muito – além de chocolate e sexo, é claro): férias. Féééééériaaaaaaasssss!!!
10 de outubro de 2007
furada
Cheguei em cima das 11, um tantinho apreensiva assim. Afinal, fazia muito tempo que já não acreditava mais nessas coisas. Terapias alternativas, meditação transcendental, iridologia, abdução, sei lá mais o quê. Joguei tudo no mesmo saco. Sofismas. Nada zen me comove.
Agora estava ali, feito uma besta, descrente que nem cartesiano, na ante-sala decorada com aguinha jorrando na fontezinha de pedra, circulinho de yin-yang na parede, musiquinha new age tipo Enya de fundo, caixinha com areia e bolinhas de cristal pra desenhar imagens do subconsciente com o rastelinho. Ahhhh!
Tudo bem, eu queria provar pra mim mesma que poderia estar enganada. Esse negócio aí, criatura, vem de uma cultura milenar! Conhecimento de séculos, percebe? Deve fazer sentido... Pra alguém. Pior que isso seria a fisioterapia, os remédios pra dor. Até que gosto da minha tendinite, acho que é charmosinha, mas ela já estava ficando exibida demais. O medo de pagar um mico foi menor e, apesar de tudo, o plano de saúde estava pagando. Não o mico. A consulta. Talvez os dois.
Olhava para os lados, cruzava e descruzava as pernas, balançava os pés, conferia o relógio, “se demorar mais um minuto, voumembora”. Sim, mais um minuto e o ridículo que eu não queria sentir - mas berrava aqui dentro - ficaria insuportável.
E pareceu até que o escândalo tácito tinha sido ouvido. A terapeuta abriu a porta cinco segundos depois. Senhora bonita, loira, falava um português perfeito, muito diferente do velho chinês de barbas brancas até o pé que eu esperava encontrar. Dizia-se acupunturista.
Ela perguntou tudo da minha vida, feito homeopata. Será que vai diluir as agulhas em água numa proporção de um pra mil? Aí pediu pra ver meus pulsos, os dois juntos, e me mandou mostrar a língua. “Com prazer”. Lancei o olhar nas anotações e deu pra ver que ela escrevia “língua pálida e trêmula”. Pálida e trêmula? De músculo mais vigoroso do corpo humano, transformou-se num Pincher. Que queu tou fazendo aqui?...
Começou a tortura chinesa. “Dói?” Ai. “Dói?” Aaai... “Dói?” Aaaaaaiii!!! Descobri que tudo dói. Mas pensei que isso fosse culpa do ácido lático. Pega agulhinha e tuf! Nas costas. Depois outra, outra e mais outra. Umas dez. Vinte. Depois da oitava pontada perdi a noção. “Agora deita”. Deita? Como assim? Eu não sou faquir não, dona! “Não, não. As agulhas estão atravessadas. Pode vir”. Atravessadas, hein?... Ninguém tinha me falado sobre isso antes. Agora sei como São Sebastião se sentiu.
Deitada lá, com os eletrodos nos pés e nas mãos... Prrrrr... Tuc-tuc-tuc... Prrrrr... Tuc-tuc-tuc... Prrrrr... Tuc-tuc-tuc... Devia parecer um misto de Hellraiser com a noiva do Frankenstein.
Dizem que há quem relaxe – e durma! – enquanto fica ali todo espetado. Mas eu, furadinha de cima a baixo, com a insistência do BG de mantra nos ouvidos, claro, comecei a pensar besteira. E se esse prédio pega fogo? Eu estou aqui deitada de calcinha e sutiã, com agulhas até no crânio. Acho que vi um vídeo desses na Internet outro dia. Saio correndo pela porta desse jeito? Eu tenho sutiãs mais bonitos! E se as agulhadas atingem alguma artéria importante? Será que pode ser perigoso? Rolar uma hemorragia? E se esse aparelho aí entra em curto e me dá um choque? Qual será a voltagem desse bagulho? Ela não falou quanto tempo vou ter que ficar imóvel aqui!
Vinte e nove minutos e trinta e quatro segundos mais tarde, a terapeuta está de volta. Me livra dos eletrodos, dos fios, das agulhas todas, menos uma, dolorosamente descoberta na hora de vestir a blusa. Uuugh... Acho que a senhora esqueceu algo nas minhas costas... “Hihihihihi! É mesmo...” Hihihi. Aposto que uma ou outra devem estar cravadas embaixo da minha pele até hoje.
Para finalizar, sementinhas nas orelhas, fixadas com um esparadrapo cor da pele - não sei de quem - mais imperativo que Superbonder. “Aperte umas quatro vezes por dia. E só tire na próxima consulta”. Sim, senhora. Próxima consulta...
Saí do consultório me sentindo ridícula. Minhas orelhas latejavam e eu nem conseguia mais avaliar se alguém estava falando mal de mim ou não. Por via das dúvidas, mordi a gola da blusa com força. Nessa, quase esqueci o elevador e saí voando pela janela, como o Dumbo. Parecia que todo mundo estava sim, falando mal dos canteiros nas minhas orelhas.
Bem, dos males o menor... Tomara que sejam gérberas. São as minhas favoritas.
Agora estava ali, feito uma besta, descrente que nem cartesiano, na ante-sala decorada com aguinha jorrando na fontezinha de pedra, circulinho de yin-yang na parede, musiquinha new age tipo Enya de fundo, caixinha com areia e bolinhas de cristal pra desenhar imagens do subconsciente com o rastelinho. Ahhhh!
Tudo bem, eu queria provar pra mim mesma que poderia estar enganada. Esse negócio aí, criatura, vem de uma cultura milenar! Conhecimento de séculos, percebe? Deve fazer sentido... Pra alguém. Pior que isso seria a fisioterapia, os remédios pra dor. Até que gosto da minha tendinite, acho que é charmosinha, mas ela já estava ficando exibida demais. O medo de pagar um mico foi menor e, apesar de tudo, o plano de saúde estava pagando. Não o mico. A consulta. Talvez os dois.
Olhava para os lados, cruzava e descruzava as pernas, balançava os pés, conferia o relógio, “se demorar mais um minuto, voumembora”. Sim, mais um minuto e o ridículo que eu não queria sentir - mas berrava aqui dentro - ficaria insuportável.
E pareceu até que o escândalo tácito tinha sido ouvido. A terapeuta abriu a porta cinco segundos depois. Senhora bonita, loira, falava um português perfeito, muito diferente do velho chinês de barbas brancas até o pé que eu esperava encontrar. Dizia-se acupunturista.
Ela perguntou tudo da minha vida, feito homeopata. Será que vai diluir as agulhas em água numa proporção de um pra mil? Aí pediu pra ver meus pulsos, os dois juntos, e me mandou mostrar a língua. “Com prazer”. Lancei o olhar nas anotações e deu pra ver que ela escrevia “língua pálida e trêmula”. Pálida e trêmula? De músculo mais vigoroso do corpo humano, transformou-se num Pincher. Que queu tou fazendo aqui?...
Começou a tortura chinesa. “Dói?” Ai. “Dói?” Aaai... “Dói?” Aaaaaaiii!!! Descobri que tudo dói. Mas pensei que isso fosse culpa do ácido lático. Pega agulhinha e tuf! Nas costas. Depois outra, outra e mais outra. Umas dez. Vinte. Depois da oitava pontada perdi a noção. “Agora deita”. Deita? Como assim? Eu não sou faquir não, dona! “Não, não. As agulhas estão atravessadas. Pode vir”. Atravessadas, hein?... Ninguém tinha me falado sobre isso antes. Agora sei como São Sebastião se sentiu.
Deitada lá, com os eletrodos nos pés e nas mãos... Prrrrr... Tuc-tuc-tuc... Prrrrr... Tuc-tuc-tuc... Prrrrr... Tuc-tuc-tuc... Devia parecer um misto de Hellraiser com a noiva do Frankenstein.
Dizem que há quem relaxe – e durma! – enquanto fica ali todo espetado. Mas eu, furadinha de cima a baixo, com a insistência do BG de mantra nos ouvidos, claro, comecei a pensar besteira. E se esse prédio pega fogo? Eu estou aqui deitada de calcinha e sutiã, com agulhas até no crânio. Acho que vi um vídeo desses na Internet outro dia. Saio correndo pela porta desse jeito? Eu tenho sutiãs mais bonitos! E se as agulhadas atingem alguma artéria importante? Será que pode ser perigoso? Rolar uma hemorragia? E se esse aparelho aí entra em curto e me dá um choque? Qual será a voltagem desse bagulho? Ela não falou quanto tempo vou ter que ficar imóvel aqui!
Vinte e nove minutos e trinta e quatro segundos mais tarde, a terapeuta está de volta. Me livra dos eletrodos, dos fios, das agulhas todas, menos uma, dolorosamente descoberta na hora de vestir a blusa. Uuugh... Acho que a senhora esqueceu algo nas minhas costas... “Hihihihihi! É mesmo...” Hihihi. Aposto que uma ou outra devem estar cravadas embaixo da minha pele até hoje.
Para finalizar, sementinhas nas orelhas, fixadas com um esparadrapo cor da pele - não sei de quem - mais imperativo que Superbonder. “Aperte umas quatro vezes por dia. E só tire na próxima consulta”. Sim, senhora. Próxima consulta...
Saí do consultório me sentindo ridícula. Minhas orelhas latejavam e eu nem conseguia mais avaliar se alguém estava falando mal de mim ou não. Por via das dúvidas, mordi a gola da blusa com força. Nessa, quase esqueci o elevador e saí voando pela janela, como o Dumbo. Parecia que todo mundo estava sim, falando mal dos canteiros nas minhas orelhas.
Bem, dos males o menor... Tomara que sejam gérberas. São as minhas favoritas.
Assinar:
Postagens (Atom)