4 de junho de 2008

reflexivas



















Marcya, Maíra e o terraço do Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque,
refletidos no big cachorro de balão de Jeff Koons (clique nas imagens para ampliar).

4 de abril de 2008

sivuca e eu

O sol estava forte demais. No auge da seca brasiliense, flagelava os infelizes que precisavam chegar ao trabalho à uma da tarde, como eu. Para somar aos prejuízos, aquele congestionamento genuíno, precursor dos muitos que existem hoje na cidade. Nessa época, era chefe de reportagem na TV Bandeirantes. A minha ansiedade vivia os píncaros de sua glória e pedia bis.

O carro era mais que um forno para essa laia a qual pertenço, dos indivíduos praticamente desprovidos de melanina. O estacionamento em frente ao prédio, no Setor Comercial Sul, já estava completamente lotado desde muito cedo. E eu, atrasada como nunca.

Antônio, o flanelinha camarada, viu meu carro lá de longe. Engraçado é que ninguém chamava o cara de Toninho. "Ô, dôtora! Tiro um aqui, que já sei que a senhora sai tarde!" Isso era uma senha. Significava que eu iria morrer nuns dez reais pela gentileza. "Valeu. Na volta a gente acerta." Lá de longe onde estava e ficou, ele acenou para mim, como sempre. "Mafioso..."

Subi as escadas até o hall vazio do térreo. Suada, cheia de pastas e bolsas, acho que meio descabelada também, arquejando feito um cão raivoso, não sei se de um cansaço premonitório da semana que viria ou de inconformismo por ficar refém do Antônio toda vez que me atrasava. O elevador ainda estava parado no quinto andar.

Conferi as medidas no espelho escuro enquanto esperava. “Isso aqui já foi menor”. Ajeitei um pouco as mechas ruivas, indomáveis, que já chegavam à cintura. Vi as horas e aproveitei para fulminar o relógio num olhar ácido sulfuroso. "Tou frita. Já devia ter despachado as equipes há muito tempo." Estava nesses pensamentos jogados à toa quando ele chegou.

Devia ter um metro e meio pelo menos. Um cabelão comprido e claro, que não sabia dizer se era loiro ou branco, amarrado num rabo de cavalo. Usava umas sandálias de couro, uns óculos de lentes grossas, uma camisa colorida de turista americano. Parou ao meu lado, diante do elevador, e ficou olhando pra mim com os cantos da boca em curva ascendente.

Eu também fiquei olhando pra ele. Só havia os dois, seres sobrenaturais, ali naquele hall; era sobrenatural que nos encarássemos fixamente, com predisposta simpatia. Não é todo dia que ocorre um alinhamento planetário desse calibre. De meu mirante particular - creio que nesse dia com um metro e noventa e três devido ao salto -, não conseguia despregar a atenção da criatura minúscula e alva, que retribuía da mesma forma. "Que cara mais esquisito. Parece o Sivuca"...

Quando o elevador finalmente chegou, entramos juntos. Apertamos o mesmo andar. Quase os dedos indicadores um do outro. “ET phone home”. Nos reconhecemos. Sem dizer uma palavra, mas com um sorriso querendo nascer gargalhada, continuamos nosso diálogo telepático de extraterrestres de mundos distantes.

Um cavalo marinho passou galopando. Saci Pererê apertou todos os andares, eu acho. Gnomos e elfos flutuavam entre as luzes e sombras. Uns tilintares e reco-recos espirituais ecoaram no espaço mínimo.

O elevador parou no nosso andar. Descemos. Ele não agüentou e me estendeu a mão. Eu lhe dei a minha, agora com a alegria da sonoridade real que tanto esperei ouvir nesses infinitos minutos. "Muito prazer! Meu nome é Hermeto Pascoal."

LEIA TAMBÉM:

"a necessidade da graça"

"remember the king"

"primeiro conto: o jardim"

24 de março de 2008

praaaaaaaaia!



















Vista do quarto do hotel onde fiquei, em Vila Velha (ES)...
Clique na foto para ampliar.

16 de março de 2008

constantes inconstantes

um instante importante
ausente
a salvadora constante
presente
um vínculo real
parábola
entre os vincos do tempo
análoga

passado perdido
futuro repetido

a minha constante é uma inconstância pétrea.

5 de março de 2008

plástica

Faz alguns anos, acho que tinha uns 30, em crise com tudo na vida, resolvi procurar um cirurgião plástico famoso.

Queria um nariz reto. Tem uma alturinha estranha no meio dele.
“Onde?”
Aqui ó.
“Ahhh...”
E uns seios maiores também. Meus seios são muito pequenos. Acho que o silicone vai resolver todos os meus problemas.
“Deixa eu ver.”
Ó.
“Hummm...”
Pensei também em tirar essas gordurinhas laterais aqui. Eu coloco calça apertada, elas saltam pra fora.
“Gordurinhas...”
É.
“Sei...”
Acho que eu preciso de um preenchimento no bumbum. Tem um buraco enorme de um lado.
“Buraco?”
Algo como um buraco.
"Enorme...”
Ah, tenho pouco queixo. Queria ter um queixo pronunciado. Mas isso eu não sei bem como pode ser feito...
“Eu sei.”
Puxa, que bom!

Depois de muito me ouvir e me examinar, o cirurgião plástico famoso me mandou de volta pra casa, dizendo que eu não precisava dele.

Foi o dia mais feliz da minha vida.

17 de fevereiro de 2008

breve reaparição

(Basta um bom motivo para a vontade voltar)


cloverfield – outro monstro

Acordei tardia e confusa. Acabou o horário de verão, tinha três marcações diferentes nos relógios da casa: 8h35, 9h36 e 10h34. Escolhi uma delas, aleatoriamente, e fui tomar café. De qualquer jeito, estava com fome.

Poucas horas de enrolação e preguiça mais tarde, descobri que tinha sorteado a hora certa e resolvi ir ao cinema, para aproveitar um ingresso que ganhei de presente do cartão de crédito. Acho que ando gastando demais.

O nome do filme era “Cloverfielf – O Monstro”. Alguém tinha me dito que estavam propalando por aí que era o “máximo do pós-moderno”. Com toda a sinceridade, depois de assisti-lo atentamente, é forçoso fazer uma primordial advertência aos possíveis espectadores desavisados: não se entupa de comer antes de ir conferir o título.

Pelamordedeus, não vai encarar uma feijoada antes de “Cloverfield”. Isso é um perigo!

Confesso que comi uma pizza Hut pequenininha, individual, com massa pan. Não fiquei saciada, mas mesmo assim, lá pelos quinze primeiros minutos do “Monstro”, já estava me acabando de azia. Olhei para trás no final da projeção e tinha gente meio verde, como o protagonista, se recuperando para levantar da poltrona.

Se você ainda pretende ver o filme (depois de uma saladinha preferencialmente), é melhor parar por aqui.

Logo de cara, quando acaba o trailer e as luzes se apagam de verdade, fica todo mundo pensando que deu pau na projeção. Ouvi até uns comentários inocentes nesse sentido. Mas não foi nada disso.

Acontece que a fita, da Bad Robot, os mesmos produtores da aclamada série “Lost”, é toda rodada de dois pontos de vista básicos: uma câmera de telefone celular (com a melhor definição que eu já vi na vida) e outra câmera amadora, tipo MiniDV (com a melhor definição que eu já vi na vida).

A primeira aparece apenas no comecinho. A segunda, que domina a cena do resto do filme inteiro, é operada por um sujeito meio idiota, que nunca tinha filmado nada em sua inepta existência (que, aliás, terminaria definitivamente uma hora e meia depois).

O fato é que, esse cara, o Hud, sem a menor noção nem de ridículo, nem de privacidade, nem de enquadramento, se mete em tudo e, por isso mesmo, tem nas mãos o fio narrativo – e nossos frágeis estômagos também. Ele é o olho e a escada – e a indigestão. Afinal, Rob, o mocinho da história, precisa de alguém que documente seu heroísmo.

O tema em si é original: no melhor estilo Godzila detona Tóquio – não é à toa que um dos personagens principais ia se mudar para o Japão – uma criatura interplanetária gigante resolve destruir Nova Iorque... (Pensando na viagem que devo fazer em maio, a ânsia de vômito começou).

Balança, sacode, corre, chispa, joga, pula, cai, larga, segura, puxa, treme, grita, atira, desmaia, desaba, levanta, assusta, briga, jorra, sobe, desce. O filme quase todo é ação: os incautos em desespero total na escuridão da noite na cidade invadida.

Me senti dentro daquele brinquedo macabro do parque de diversões, que tem plaquinha de proibição para cardíacos na entrada e chacoalha você de cabeça pra baixo até as vísceras trocarem de lugar com o cérebro.

Bem, não vou contar o filme inteiro, não se preocupe, curioso. Duas mil sacudidas frenéticas depois, concluí que o mais interessante de “Cloverfield” é que no final, por sorte, dá tudo errado. Antigamente, Godzila voltava, mas no final nunca vencia! Agora... Quanta pós-modernidade... É o sinal dos tempos.

E por falar em tempo, nem sei mais que horas são, mas percebo que a minha azia vai ficar monstra. Droga de pizza.

6 de fevereiro de 2008

os pássaros



A linha quer o pássaro
Ele fita o céu e segue
O fio que liga nossos desejos

Céu e linha costurados

Por um fio
Pela vida
Para as fitas
Pelos pássaros

que sonhei...