Hoje o gato amanheceu falando. Olhei pra ele e disse “gato não fala”, no que respondeu “quantas vezes preciso repetir que sou fêmea?” Quantas vezes? Várias vezes. Por favor, queira repetir várias vezes. Estou muito interessada em ouvir. Não é todo dia que a gente vê um gato falante. Desculpe. Gata. Por que você não disse isso antes?
Sempre chamei o gato de gato. Desde que o encontrei, lá se vão cinco anos e doze filhotes. Passamos poucas e boas juntos. Várias casas, apartamentos, viagens, brigas, temporadas na casa da mamãe, pisões no rabo, arranhões, miadaria no meio da noite, idas ao veterinário, ratinhos de brinquedo e de verdade, lagartixas, sumiços, bolas de pêlos, pêlos e mais pêlos, ronronares, toneladas de areia, espreguiçadas, manhas e dengues.
“Que é que você quer? Diga logo. Só não venha me dizer agora que é a minha consciência”. Ele disse “não, não sou a sua consciência. Sou a sua desculpa”. Droga de gato chato. Só podia ser gata. As fêmeas são tão existencialistas! Era só o que me faltava...
“Desculpa? Que desculpa?” – perguntei. “Você já tem tudo o que precisa pra ser só.” – respondeu o gato. “Toda vez que eu mio, escondida no escuro, você vem me encontrar. Me coloca no colo, brinca um pouco, se senta no sofá, calça os chinelos e voltar a assistir à tevê.” – continuou. “Mas você nem mia mais! Agora você fala!” – revidei. “Isso”, ele falou mesmo, “é pra você parar de me procurar. Deixar de tatear no nada conhecido das suas paredes, à procura do gato que, garanto, vai estar sempre aqui. No mesmo lugar.”
Olhei através da janela fechada. A tevê ligada, o computador no colo, hoje o telefone não tocou e eu também não toquei nele. O cinema que prometi a mim mesma se foi com as horas. Estou desarrumada e ainda não jantei. As luzes da casa continuam apagadas. Estou no escuro.
Gato mia.
15 de outubro de 2006
12 de outubro de 2006
o rato
Tinha um rato no meu caminho hoje.
O bicho atravessou a pista diante de mim, bem na hora em que o sinal ia ficando amarelo. Tive que decidir: matava ou não matava o rato?
Era um ratinho preto. Não muito grande não. Mas estava dia claro. Pude vê-lo quase dentro dos olhos. Cauda longa. Patas curtas. Meio hesitante, correu.
Carros atrás de mim já estavam parando. O pardal, o sinal, o rádio alto, óculos escuros, compras, minha mãe gritando “mata o rato, mata o rato”. Foi assim que, numa fração de segundo, ficamos frente a frente. Nós três. O rato, a humanidade e eu.
Me lembrei da ratazana existencialista de Günter Grass (aquele mentiroso). Do Mickey Mouse, do Jerry, do Stuart Little e até do PiuPiu, que apesar de não ser rato, era como se fosse. Me lembrei da peste negra. De todos os ratos da minha vida (indigestos como os sapos que tive que engolir). Dos dois ratinhos de verdade que criei (em menos de duas semanas eram nove). A fêmea me mordeu. E saiu sangue!
Pensei nos bilhões de ratos de laboratório que morrem todos os dias por causas tão nobres quanto a reversão de doenças graves e não tão nobres como o creme anti-rugas da titia. Pensei no Pink e no Cérebro. No domínio do mundo. E, finalmente, em todos os gatos sofridos e injustiçados pelos séculos e séculos afora.
Freio. Fui multada no semáforo. Aquele maldito pardal fotografou a placa do meu carro. Mas quem sou eu para fazer justiça com as próprias mãos? Ratos estão por toda a parte. E sempre estarão.
O bicho atravessou a pista diante de mim, bem na hora em que o sinal ia ficando amarelo. Tive que decidir: matava ou não matava o rato?
Era um ratinho preto. Não muito grande não. Mas estava dia claro. Pude vê-lo quase dentro dos olhos. Cauda longa. Patas curtas. Meio hesitante, correu.
Carros atrás de mim já estavam parando. O pardal, o sinal, o rádio alto, óculos escuros, compras, minha mãe gritando “mata o rato, mata o rato”. Foi assim que, numa fração de segundo, ficamos frente a frente. Nós três. O rato, a humanidade e eu.
Me lembrei da ratazana existencialista de Günter Grass (aquele mentiroso). Do Mickey Mouse, do Jerry, do Stuart Little e até do PiuPiu, que apesar de não ser rato, era como se fosse. Me lembrei da peste negra. De todos os ratos da minha vida (indigestos como os sapos que tive que engolir). Dos dois ratinhos de verdade que criei (em menos de duas semanas eram nove). A fêmea me mordeu. E saiu sangue!
Pensei nos bilhões de ratos de laboratório que morrem todos os dias por causas tão nobres quanto a reversão de doenças graves e não tão nobres como o creme anti-rugas da titia. Pensei no Pink e no Cérebro. No domínio do mundo. E, finalmente, em todos os gatos sofridos e injustiçados pelos séculos e séculos afora.
Freio. Fui multada no semáforo. Aquele maldito pardal fotografou a placa do meu carro. Mas quem sou eu para fazer justiça com as próprias mãos? Ratos estão por toda a parte. E sempre estarão.
25 de setembro de 2006
os sapos

(com a soberba de parodiar Manuel Bandeira)
Vão os sapos se enfurnando
Na garganta bem profunda
E aos pulos engordando
Entalados na penumbra
A luz nem procuram, se a temos.
Enterram-se, os verruguentos,
E quando os esquecemos
Berram alto, lá de dentro.
Tantos sapos engolidos
Que a cantarola sem fim
Martela em meus ouvidos
“Foi”, “Não foi”, “Foi sim”!
Asco verde, gordo e feio,
Gelado de acre gosto
O alívio que não veio
Me estrangula num sufoco!
A saparia malévola
Repete-se ao infinito
Frio soluço na treva
Que não desce, nem no grito!
Fiquem, sapos da minha vida!
Pouco importa o que me lembrem
A mim não deixarão saída
Pra me despertar, coaxem! Sempre!
24 de setembro de 2006
a exterminadora do futuro
Ziiiim Ziiiiim Uooooo Uoooooo Zuuum Zuuum...
Brasília, 21 de setembro de 2006.
Aproximação ocorrendo conforme o programado.
Cadê ela?
Eh, uh, ahn...
Será que é aqui mesmo?
Marcya? No lounge do segundo andar. Mas eu não recomendo que entre lá desarmado...
Estou programado para me defender.
Você é quem sabe... Eu avisei...
Putz, me mandam pra cada lugar...
Ei, quem é esse cara?
Garçooooooooommmm!
Penetra... Ui!
Oba, vai ter streap-tease!!!
Meu amigo, isso aqui é uma reunião particular de mulherzinhas que não se vêem desde o segundo grau...
Ai!
Até que ele não é de se jogar fora...
Muito velho...
Você é a Marcya?
Sou eu sim.
Bem, eu venho do futuro com uma missão...
Do futuro? Jura?
Sim, a minha missão é...
E você me viu lá?
Sim. Mas...
E eu estava bem?
Bem...
De que futuro exatamente você veio?
Do ano de 2030 e...
Puxa, e eu estou bem?
Ahn... Muito bem.
Com sessenta anos! Seu bajulador... Isso quer dizer que eu fiz plástica?
Eh, uh, ahn... Acho que sim.
Que desaforado. Como você pode ter tanta certeza?
Eh, uh, eu... Ziiiim Ziiiiim Uooooo Uoooooo Zuuum Zuuum...
Minha filha, você está dando tilt no bofe!
Dando tilt, que coisa mais antiga! Alguma coisa ainda dá tilt hoje em dia?
Acho que ele é da polícia.
Não, da polícia ele não é que eu conheço a galera!
Acho que ele bebeu demais. Tá com uma cara de que vai vomitar...
Com essa roupinha de Village People... Acho que ele é gay!
A minha missão... Ziiiim Ziiiiim Uooooo Uoooooo Zuuum Zuuum Zuuum Zuuum!
Ai, rapaz você tá tão desorientado...
Sai do armário...
Ele é o armário!
Uuuuuuuui!
Quer dizer que ele não é o garçom?
Programação temporal indo pras cucuia... Uooooo Uoooooo Uooooo Uoooooo.
Eu falei que ele era gay...
Ei, bem, para com esse papo, senta aí, bebe um Lambrusco e abre seu coração...
Mas, mas, mas... Zuuum Zuuum Ziiiim Ziiiiim... O futuro...
Com tanta coisa pra pensar aqui no presente?
Deixa isso pra lá e tira uma foto da gente... Você vai se divertir muuuuuuuito mais.
Brasília, 21 de setembro de 2006.
Aproximação ocorrendo conforme o programado.
Cadê ela?
Eh, uh, ahn...
Será que é aqui mesmo?
Marcya? No lounge do segundo andar. Mas eu não recomendo que entre lá desarmado...
Estou programado para me defender.
Você é quem sabe... Eu avisei...
Putz, me mandam pra cada lugar...
Ei, quem é esse cara?
Garçooooooooommmm!
Penetra... Ui!
Oba, vai ter streap-tease!!!
Meu amigo, isso aqui é uma reunião particular de mulherzinhas que não se vêem desde o segundo grau...
Ai!
Até que ele não é de se jogar fora...
Muito velho...
Você é a Marcya?
Sou eu sim.
Bem, eu venho do futuro com uma missão...
Do futuro? Jura?
Sim, a minha missão é...
E você me viu lá?
Sim. Mas...
E eu estava bem?
Bem...
De que futuro exatamente você veio?
Do ano de 2030 e...
Puxa, e eu estou bem?
Ahn... Muito bem.
Com sessenta anos! Seu bajulador... Isso quer dizer que eu fiz plástica?
Eh, uh, ahn... Acho que sim.
Que desaforado. Como você pode ter tanta certeza?
Eh, uh, eu... Ziiiim Ziiiiim Uooooo Uoooooo Zuuum Zuuum...
Minha filha, você está dando tilt no bofe!
Dando tilt, que coisa mais antiga! Alguma coisa ainda dá tilt hoje em dia?
Acho que ele é da polícia.
Não, da polícia ele não é que eu conheço a galera!
Acho que ele bebeu demais. Tá com uma cara de que vai vomitar...
Com essa roupinha de Village People... Acho que ele é gay!
A minha missão... Ziiiim Ziiiiim Uooooo Uoooooo Zuuum Zuuum Zuuum Zuuum!
Ai, rapaz você tá tão desorientado...
Sai do armário...
Ele é o armário!
Uuuuuuuui!
Quer dizer que ele não é o garçom?
Programação temporal indo pras cucuia... Uooooo Uoooooo Uooooo Uoooooo.
Eu falei que ele era gay...
Ei, bem, para com esse papo, senta aí, bebe um Lambrusco e abre seu coração...
Mas, mas, mas... Zuuum Zuuum Ziiiim Ziiiiim... O futuro...
Com tanta coisa pra pensar aqui no presente?
Deixa isso pra lá e tira uma foto da gente... Você vai se divertir muuuuuuuito mais.
10 de setembro de 2006
inquisição
O gato me observa.De vez em quando ele faz assim. Escolhe um bom lugar, senta-se diante de mim e estático fica, como uma escultura egípcia, de olhos arregalados, a me perceber, com sua sutil sensibilidade felina.
Gato, para com isso.
Sinto-me inquirida. Que é que você quer com esse olhar azul? Tem ração. Tem agüinha. Tem leite. Tem ratinho de brinquedo. Tem cadarços. Tem poltrona de tecido. Tem quentinho. Tem novelo. Tem bola de papel amassado. Tem janela aberta. Tem graminha. Tem caixa. Tem armário. O que mais um gato pode querer, pergunto.
Fala!
Ele pisca uma vez ou duas. Considera. Analisa. Ameaça soltar uma ironia. E permanece ali, a me hipnotizar. Ah, esqueci de dizer: o gato é fêmea.
Não me assusta não.
Dizem que o gato vê o outro mundo. Ou um outro mundo, na perspectiva flexível daquele que é capaz de sempre, sempre cair de pé.
7 de setembro de 2006
movimento 36

Num milésimo de segundo dramático, Deep Blue desafia Kasparov. Raciocínio filosófico, conceitual e brilhante.
Duzentos milhões de cálculos por segundo e a máquina se torna humana pela primeira vez. Kasparov volta a ser só Garry. Blue vence. Era o lance 36.
Agora sou eu. Estou aqui, diante dele. E mal e mal sei jogar xadrez.
O movimento anterior me imbuiu de dúvidas e dor. Em 35 jogadas, cometi desacertos imperdoáveis. Alguns lances de mestre, sou obrigada a admitir. Mas o fato é que o conjunto deles me levou a esse Xeque.
O relógio me empurra na pressa do tiquetaque. O jogo não para. E o rei pode morrer.
3 de setembro de 2006
dindinha

Madrinha fadada...
Longe de ser fada
Talvez enfadonha
Ou fade-out.
Com sua varinha curta
Mesmo sem condão
Transformou abóboras em doces!
Ratinhos em pelúcia!
Carruagens em carrinhos de brincar!
Dindinha se esforça
Espera aquela agüinha
Na maior expectativa
E quer muito não perder o sapatinho
Antes do meio-dia...
Príncipe encantado
De tudo ri.
Enzo nem sabe
Mas quem faz a mágica
É ele!
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