10 de janeiro de 2007

a caminhada

Eu acordo às sete da matina com uma lambida de lixa no cotovelo. Pisco, me reviro, olho o relógio de um celular, depois do outro (eles são dois), confirmo pelos solavancos do sol vindos das brechas da persiana, o despertador toca na seqüência, o corpo dói, o sono pesa, o edredom verde faz um apelo emocionado, nem acredito... Soneca! Não, soneca não. Se tiver soneca, já era. Adeus. Só amanhã. Levanta agora!

Levanto. Me arrasto até o banheiro. Que cara horrível. Tudo bem, é com essa mesmo que eu vou. Lavo o rosto com sabonete em gel para controlar oleosidade. Não adianta muito. Enxugo, quase piso no gato, que, por isso, resmunga. Resmungando também, rastejo até a cozinha, quase de quatro também. Pego uma caneca preta enorme, coloco duas colheres de sopa daquele troço caríssimo que comprei, cheio de vitaminas, proteínas, sais minerais e complementos alimentares importantes como o “exclusivo Prebio”. Completo o caldo com leite desnatado. Chego a comer uma banana! A culpa é uma boa amiga da vida saudável instantânea.

Armário. Gato espia lá de dentro. Fooora! Bermudinhas ciclista, tops pretos e brancos, pares de meias curtinhas, blusas coloridas de alcinha, muitos, muitos pêlos. Tá, um de cada. Sem os pêlos. Misturo tudo no liquidificador e mando deep inside. Calço os tênis e arremato o rabo-de-cavalo. Acho que ainda falta alguma coisa. Boné, óculos escuros, I-pod. Sei o que é. Meu espelho ainda não me viu assim.

Ai. O espelho me diz que estou ridícula vestida desse jeito. Aonde pensa que vai, criatura? Já é carnaval? A quem é que você quer enganar? Amanhã tudo termina. Amanhã você não continua. Isso não vai ter futuro. Nem me venha choramingar quando tiver desistido. E não diga que eu não avisei.

Cala a boca, espelho cretino. Vou começar a caminhada sim. Lá vou eu. Mais uma vez.

5 de janeiro de 2007

a artista

Estava na fila do supermercado meio vazio, folheando uma revista boba. Duas ou três tiazinhas conversavam, no caixa ao lado. De repente, ouço uma delas dizer:

- Olha essa moça aí. Parece uma artista.

Na mesma hora levantei a cabeça e olhei pra trás. Queria ver a artista. E o que exatamente isso poderia significar. Ninguém. Olhei para a direita. Um sujeito barrigudo de chinelos, com duas crianças. À esquerda, nada.

Ahn. Não tinha mais. Elas falavam de mim. A artista era eu.

Assim sem graça, voltei rapidamente à revista. Disfarcei: conferi o relógio, contei os pacotes no carrinho, guardei os óculos escuros, resmunguei baixinho que “essa fila não anda!” Foi daí que, bem devagar, tentando não ser percebida, olhei pra mim mesma, pra avaliar, dos pés aos ombros, que era até onde dava pra enxergar, afinal. Tênis pretos, saia jeans toda desfiada, camiseta preta desbotada.

Talvez eu já tivesse sido uma artista mais glamurosa. Ainda não sei qual era a idéia das tias. Mas pouco importa. Me vi artista de cinema, estrela dos anos 40, a piscar na tela, admirada por pipocas e olhos. A música orquestrada introduziu a seqüência.

A saia branca subiu às alturas na passagem pela calçada, deleite de brincadeira safada e quentinha. Para esfriar, mergulhei de maiô colorido e touca de flores, fazendo coreografia de caleidoscópio na piscina. Pulei de lá para dançar cheek to cheek com Fred Astaire, acompanhado de coro de objetos inanimados: cabides, cadeiras, vassouras, sei lá. Beijei languidamente Alain Delon, que desmanchou o francês no meu ouvido... Le prochain... O próximo! Acorda, moça. A fila anda...

Meu olhar entardeceu, nostalgiquinho... Quem sabe a artista que eu queria ser não aflora mesmo de vez em vez, quando estou mais distraída? Essa artista que me fará única, especial e desejada, a cada projeção da fita? É preciso procurar o glamour... Hoje quase aconteceu. E amanhã... Amanhã é um outro dia.

29 de dezembro de 2006

o morcego








(Dessa vez, com a empáfia de parodiar Augusto dos Anjos. Desculpo-me de antemão. Mas foi inevitável.)

Quase meia-noite. No quarto de tevê, sono puro.
Meu Deus! E este morcego! Agora, olha isso:
Atravessou de um lado para outro, preciso,
Rodopiou pelo teto e sumiu no corredor escuro.

Não me mordeu a goela nem nada assim sensual
Que fosse vampiro, fantasiei com vontade,
Na bruta ardência orgânica da sede...
(Ando vendo tevê demais; melhor mudar de canal).

Cadê ele? – Digo – Ergo-me animada!
Vou com o gato, de lençol na mão, caçá-lo.
Empurro móveis, o olho arregalo,
Entro nos quartos, procuro, procuro e nada!


Ele não sabe que quero ajudá-lo... Chego
Bem perto. Lindinha bate um papo. Ele se senta,
Faz amizade, ri muito e diz que, de medo, está farto!


"A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra,

Imperceptivelmente, em nosso quarto!"

22 de dezembro de 2006

exigências para 2007:

Exijo cada vez mais a percepção de minha ventura.
Exijo menos desilusão, equívocos, tristeza.
Exijo controle de qualidade na vida.
Exijo sonhos cheios de verdades concretas.
Exijo tanta saúde quanto sempre.
Exijo espaço.
Exijo me olhar no espelho com boa vontade e bom-humor.
Exijo autocrítica suficiente apenas para saber que não fico bem de amarelo.
Exijo meus direitos.
Exijo um novo amor inteirinho pra mim.
Exijo desejos, champanhes, flores, sininhos, beijos e fogos de artifício.
Exijo gatos.
Exijo mais amigos carismáticos e piadistas como os que já tenho.
Exijo risadas incontroláveis todos os dias.
Exijo melhores assuntos a tratar no dia-a-dia.
Exijo cores.
Exijo mudar de opinião.
Exijo a vontade e a necessidade de exigir.
E exijo achar que posso e que isso é bom e certo.

15 de dezembro de 2006

o saci

Eu era uma criança assim: calada. Ficava olhando, analisando, associando... Por exemplo, eu nunca acreditei em Papai Noel não. Muito surreal pra mim, aquele velho gordo de barba branca, vestido de vermelho. Esquisitão. Sei lá. Não fazia o menor sentido isso. Alguns até apareciam de algodão na cara, cabelo de boneca, bochechas vermelhas de rouge. Vários e diferentes deles. Nunca me enganaram.

A lógica era bem outra. Tinha que combinar com o dia-a-dia, com o que eu via na rua, em casa. Eu precisava da dúvida. Se duvidasse, é porque já estava desconfiada da real existência. Por isso é que a verdade pura me fazia flutuar mais que o sonho. Eu acreditava em Saci. Piamente.

Eu via lá no Sítio do Pica-Pau Amarelo e era tão material aquilo, tão verossímil, que eu não encontrava argumentos para negar. Menino negro de uma perna só. OK. Já tinha visto em algum lugar. Eu acho. Fumava cachimbo. OK. O vizinho também fumava cachimbo. Passeava no redemoinho. OK. E como havia redemoinhos em Brasília na década de 70! Essa era a maior das provas. Lindos e vermelhos, rodopiavam vira-mexe nos momentos mais inusitados. Toda vez que o poeirão subia pelos ares, a certeza aguçava e me enchia de idéias e armadilhas ardilosas de capturar saci.

Juro que tentei. Arrumei a garrafa com rolha, fiz um “X” vermelho no fundo com lápis de cera, pra ele não tentar fugir. O que estava mais complicado era a peneira de taquara. Então fui usar uma de plástico, da minha mãe coar o suco. Não funcionou. O equipamento não era adequado para a empreitada. Com tanto amadorismo fica difícil trabalhar. E assim, na falta de recursos apropriados, não consegui pegar o Saci, ainda que com abundância de matéria-prima.

O tempo passou. Muito. Nunca pensei que um dia fosse acabar ficando com raiva dele, por motivos profissionais, é claro. É que o Saci virou burocrata. Arrumou emprego em Brasília e agora faz lobby no Congresso. Os redemoinhos se foram. Quero ver é quem captura um agora.

12 de dezembro de 2006

a flor

Nasceu uma florzinha na espada-de-são-jorge
(é isso mesmo).
No começo, pensei que fosse uma samambaia.
Verdade, a talzinha parece uma samambaia no nascimento
(tão poucas coisas se parecem com uma samambaia além da própria!...)
Então
A tal espada-de-são-jorge
(que parece mesmo uma espada)
Começou a desabrochar, dar brotinhos e espichar bracinhos pra todo lado
(Uma loucura!)
Uma planta muito verde-escura, com bordas amareladas
Uma folha só em cada galho
Comprida e pontuda
Arraigada no vaso de argila com pedrinhas brancas
Plantada numa varanda minúscula
De um apartamentinho diminuto.
E a florzinha-samambaia lá, meio deslocada
(começo a achar que era um disfarce)
Alegrinha e florida apesar de tudo,
Na horinha mais certa colocou as pétalas de fora
E se ofereceu ao mundo como tal.
Que coisa mais estranha...
Como foi que surgiu ali?
Em que outros lugares absurdos
Será que pode aparecer uma flor?

3 de dezembro de 2006

trindade

Pois é.
Pensei melhor e concluí
Que eu agora sou três
(fascinante esse negócio de trindade).
Então,
Eu sou o ego (a parte mais sem graça).
Descobri que a Lindinha (meu gato)
É o id
(não, ela não é idiota).
E o alter, coitado,
Esse está perdido por aí,
À procura de um W que o faça ter sentido.