24 de março de 2008

praaaaaaaaia!



















Vista do quarto do hotel onde fiquei, em Vila Velha (ES)...
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16 de março de 2008

constantes inconstantes

um instante importante
ausente
a salvadora constante
presente
um vínculo real
parábola
entre os vincos do tempo
análoga

passado perdido
futuro repetido

a minha constante é uma inconstância pétrea.

5 de março de 2008

plástica

Faz alguns anos, acho que tinha uns 30, em crise com tudo na vida, resolvi procurar um cirurgião plástico famoso.

Queria um nariz reto. Tem uma alturinha estranha no meio dele.
“Onde?”
Aqui ó.
“Ahhh...”
E uns seios maiores também. Meus seios são muito pequenos. Acho que o silicone vai resolver todos os meus problemas.
“Deixa eu ver.”
Ó.
“Hummm...”
Pensei também em tirar essas gordurinhas laterais aqui. Eu coloco calça apertada, elas saltam pra fora.
“Gordurinhas...”
É.
“Sei...”
Acho que eu preciso de um preenchimento no bumbum. Tem um buraco enorme de um lado.
“Buraco?”
Algo como um buraco.
"Enorme...”
Ah, tenho pouco queixo. Queria ter um queixo pronunciado. Mas isso eu não sei bem como pode ser feito...
“Eu sei.”
Puxa, que bom!

Depois de muito me ouvir e me examinar, o cirurgião plástico famoso me mandou de volta pra casa, dizendo que eu não precisava dele.

Foi o dia mais feliz da minha vida.

17 de fevereiro de 2008

breve reaparição

(Basta um bom motivo para a vontade voltar)


cloverfield – outro monstro

Acordei tardia e confusa. Acabou o horário de verão, tinha três marcações diferentes nos relógios da casa: 8h35, 9h36 e 10h34. Escolhi uma delas, aleatoriamente, e fui tomar café. De qualquer jeito, estava com fome.

Poucas horas de enrolação e preguiça mais tarde, descobri que tinha sorteado a hora certa e resolvi ir ao cinema, para aproveitar um ingresso que ganhei de presente do cartão de crédito. Acho que ando gastando demais.

O nome do filme era “Cloverfielf – O Monstro”. Alguém tinha me dito que estavam propalando por aí que era o “máximo do pós-moderno”. Com toda a sinceridade, depois de assisti-lo atentamente, é forçoso fazer uma primordial advertência aos possíveis espectadores desavisados: não se entupa de comer antes de ir conferir o título.

Pelamordedeus, não vai encarar uma feijoada antes de “Cloverfield”. Isso é um perigo!

Confesso que comi uma pizza Hut pequenininha, individual, com massa pan. Não fiquei saciada, mas mesmo assim, lá pelos quinze primeiros minutos do “Monstro”, já estava me acabando de azia. Olhei para trás no final da projeção e tinha gente meio verde, como o protagonista, se recuperando para levantar da poltrona.

Se você ainda pretende ver o filme (depois de uma saladinha preferencialmente), é melhor parar por aqui.

Logo de cara, quando acaba o trailer e as luzes se apagam de verdade, fica todo mundo pensando que deu pau na projeção. Ouvi até uns comentários inocentes nesse sentido. Mas não foi nada disso.

Acontece que a fita, da Bad Robot, os mesmos produtores da aclamada série “Lost”, é toda rodada de dois pontos de vista básicos: uma câmera de telefone celular (com a melhor definição que eu já vi na vida) e outra câmera amadora, tipo MiniDV (com a melhor definição que eu já vi na vida).

A primeira aparece apenas no comecinho. A segunda, que domina a cena do resto do filme inteiro, é operada por um sujeito meio idiota, que nunca tinha filmado nada em sua inepta existência (que, aliás, terminaria definitivamente uma hora e meia depois).

O fato é que, esse cara, o Hud, sem a menor noção nem de ridículo, nem de privacidade, nem de enquadramento, se mete em tudo e, por isso mesmo, tem nas mãos o fio narrativo – e nossos frágeis estômagos também. Ele é o olho e a escada – e a indigestão. Afinal, Rob, o mocinho da história, precisa de alguém que documente seu heroísmo.

O tema em si é original: no melhor estilo Godzila detona Tóquio – não é à toa que um dos personagens principais ia se mudar para o Japão – uma criatura interplanetária gigante resolve destruir Nova Iorque... (Pensando na viagem que devo fazer em maio, a ânsia de vômito começou).

Balança, sacode, corre, chispa, joga, pula, cai, larga, segura, puxa, treme, grita, atira, desmaia, desaba, levanta, assusta, briga, jorra, sobe, desce. O filme quase todo é ação: os incautos em desespero total na escuridão da noite na cidade invadida.

Me senti dentro daquele brinquedo macabro do parque de diversões, que tem plaquinha de proibição para cardíacos na entrada e chacoalha você de cabeça pra baixo até as vísceras trocarem de lugar com o cérebro.

Bem, não vou contar o filme inteiro, não se preocupe, curioso. Duas mil sacudidas frenéticas depois, concluí que o mais interessante de “Cloverfield” é que no final, por sorte, dá tudo errado. Antigamente, Godzila voltava, mas no final nunca vencia! Agora... Quanta pós-modernidade... É o sinal dos tempos.

E por falar em tempo, nem sei mais que horas são, mas percebo que a minha azia vai ficar monstra. Droga de pizza.

6 de fevereiro de 2008

os pássaros



A linha quer o pássaro
Ele fita o céu e segue
O fio que liga nossos desejos

Céu e linha costurados

Por um fio
Pela vida
Para as fitas
Pelos pássaros

que sonhei...


30 de janeiro de 2008

uma grande festa

Bibi tá surtada. Um surto de alegria inesgotável, já faz quase um mês. Desde que chegou à minha casa, vinda de uma gaiolinha no veterinário, que dividia com a mãe e o irmão, ela não para de correr. Ela não para um segundo. Parece que descobriu um admirável mundo novo, uma enormidade de espaço nunca antes vista, naqueles poucos metros quadrados, e precisa aproveitar logo, porque, talvez, na cabecinha dela, possa acabar um dia. E nesse deslumbre da física e do aconchego, sobe no sofá, cai de cabeça, entra no armário, debaixo da cama, em cima da mesa, dentro da máquina de lavar, não consegue frear, se agarra no tapete, se estabaca em todo canto, come muito, muito, muito, contente! Tudo para ela e suas unhas afiadas é uma grande festa! E assim, vendo essa felicidade toda, ininterrupta, vou querendo ficar feliz também.

27 de janeiro de 2008

esbarrão

Oi! Tudo bem?
Oi.
Nunca pensei que fosse encontrar alguém do meu tamanho nessa festa!
E não encontrou.
Eu encontrei você!
Ah...
Prazer, eu sou o Flávio!
Prazer.
Qual o seu nome?
Marcya.
Então me dá um abraço, Marcya!
(Dou dois beijinhos rápidos com a mão na frente).
Não precisa ficar com medo de mim, eu sou um cara legal!
Eu não tenho medo de nada.
Mas você nem me deu um abraço!
Olha, eu não te conheço, nunca te vi, então acho super-natural não te dar um abraço...
Eu não sou daquele tipo não.
Que tipo?
(Pausa, música, bebida, retoma)
Pô, você é pior que a minha irmã.
A sua irmã...
É, ela é cheia de coisa, não chega perto, as amigas dela são igual.
O que me faz pensar então que o problema seja seu.
Hehehehe! Você é engraçada!
Obrigada.
(Pausa, música, bebida, retoma)
Você é daqui?
Daqui de onde... Do barco?
Não, daqui, da cidade...
Não, sou do Rio.
Ah, eu sou de Uberaba.
E está fazendo o que aqui?
Vim com meus pais.
Seus pais... E isso faz muito tempo?
Faz, muito tempo.
Quantos anos você tem?
Chuta.
Ahnnn... 25?
Não, mais!
26.
Não, quase.
27.
Acertou! Eu envelheci muito cedo. Pareço mais velho do que sou.
Bem, considerando que eu te dei 25, não, você não parece mais velho do que é.
Ahn... E você?
Eu tenho dez anos mais que você.
37??!!
No somatório, é o que parece.
Você não parece ter 37...
Mas tenho.
(Pausa, música, bebida, retoma)
E eu ainda moro com os meus pais.
Você vai passar dessa fase. Eu saí de casa com 25.
Ahn...
Com licença, vou cumprimentar um amigo ali.
Você já vai?
Vou.
Prazer, viu? Você é linda!
Obrigada.
A gente se esbarra por aí.
É, a gente se esbarra.