Finalmente, posso considerar-me mudada.
E, na casa nova, tudo tem um colorido sem cor. Apesar das paredes brancas, das portas brancas, das porcelanas brancas, dos azulejos brancos, enxergo as matizes alegres de uma vida reformulada.
Há de chegar muito em breve o tempo de pendurar os quadros.
O lustre da sala ainda não se materializou, o buraco continua ornamentando o teto, mas a luz preenche todos os vazios.
Os armários virão a ser, logo, logo – acredito! -, para aliviar as malas da sina das roupas.
Ainda que um cano esteja entupido, uma parede meio torta, o guarda-roupas velho e o vidro do box um tantinho arranhado, o meu lar tem me trazido as melhores soluções, que se farão cada vez mais por si mesmas, sem muita ajuda ou preocupação.
É um lugar de confluência de bem-querências que ronronam na tranqüilidade de três gatinhas felizes e no enlevo gostoso de um amor muito esperado.
Aqui sim, posso viver os dias. E bem.
22 de setembro de 2010
9 de novembro de 2009
o mundo num copo d'água
Coloquei o globo terrestre num copo d'água
Feito uma dentadura que observa,
Em meio a muxoxos de borbulhas,
O mundo distorcendo-se lá fora.
Flutuações dentifrícias
Num dia de devaneios banguelas.
Coloquei-o e o esqueci lá.
Feito uma dentadura que observa,
Em meio a muxoxos de borbulhas,
O mundo distorcendo-se lá fora.
Flutuações dentifrícias
Num dia de devaneios banguelas.
Coloquei-o e o esqueci lá.
29 de setembro de 2009
memorial do dia 14 de outubro de 1970 (impressões embrionárias)
Acho que foi mais ou menos quando os Beatles terminaram que eu comecei.

De lá de dentro da barriga da mamãe, teve um dia que ouvi um grito de "goooool..." Era uma descoberta pra mim, esse negócio de ouvir. Tinha desenvolvido recentemente essa, digamos, percepção. Aproveitei para dar meu primeiro chute.

Mais ou menos um mês antes, o Jimi Hendrix fez sua última apresentação. Mais ou menos 21 anos depois, eu o homenageei batizando meu cachorro com esse nome.

A Janis Joplin morreu dez dias antes de eu nascer. Eu sempre gostei de Mercedes-Benz.
Uma semana antes, um militar socialista tomava o poder na Bolívia.
Três dias antes, o arquipélago de Fiji proclamava a sua independência.
Aí, eu nasci. Sei apenas que era o dia dedicado a São Calisto, religioso de devoção dos católicos. Interessante que o tal santo veio ao mundo escravo, comeu o pão-que-o-diabo amassou e acabou virando papa. Ah, sim, as catacumbas dele são as mais visitadas de Roma.
Dez dias depois, Salvador Allende assumia a presidência da República, no Chile.
E um mês depois, no aniversário da minha mãe, é que era o dia certo d'eu nascer. Não quis ser escorpiana não, apesar de ter aprendido a soltar meus veneninhos quando necessário.
A partir daí... Tudo é, literalmente, memorável.
20 de setembro de 2009
20:09, 20/09/2009
Agora são 20h09 do dia 20/09/2009.
Achei que podia ser importante fazer esse registro agora, uma vez que acabei de olhar no relógio e a hora me fez recordar a coincidência.
E eu acredito em coincidências.
Achei que podia ser importante fazer esse registro agora, uma vez que acabei de olhar no relógio e a hora me fez recordar a coincidência.
E eu acredito em coincidências.
11 de setembro de 2009
escatológicas
Plena sexta-feira, sabe como é... Vamos lá.
Encontrar uma pessoa conhecida num banheiro público é sempre constrangedor. Principalmente se é alguém que você não vê há muito tempo ou que não viu quase nunca. E, mais ainda, se o nome dessa criatura não passa de uma diminuta penumbra num recôndito recanto de sua mente.
Descargas quase que simultâneas. Saídas no mesmo segundo. Encaradas encurraladas. Cabeça balança, olhos arregalam. Lava as mãos, vira pro lado, disfarça e...
- Olá!
- Ooooi!... Ahn... Querida!
- Tudo bem?
- Tudo!...
- Há quanto tempo, hein?
- Pois é...
- Quando foi a última vez que nos vimos?
- A última vez?
- Acho que foi naquele barzinho lá na Asa Norte, não foi?
- É... Ahn... Foi! Foi isso mesmo...
- Mas não era dentro do banheiro! Hahahaha!
- Hahahaha... Não era...
- Mas tenho certeza que foi lá.
- Foi, foi.
Sorrisão observando, imóvel; meus dedos pingando com leve aspecto de maracujá passado.
- Você me dá licença? Preciso enxugar as mãos.
- Claro! Uma toalha ou duas?
- Três. Qualidade ruim, não enxuga nada, sabe como é.
- Hahahahaha! Você continua engraçada!
- Hahaha... Obrigada. Você também.
- Que bom!
- Eu vou indo então.
- Bom te ver!
- Ótimo...
- Tchau!
- Tchau.
Eu lá dentro, desfazendo-me de um inocente xixi. A mulher ao lado, concluindo seu plano maligno de detonar uma hecatombe nuclear. Descarga demorada. Muito demorada. Sai. Uma colega dela lavava as mãos, mas foi pega antes que pudesse reagir.
- Ai, menina, eu não consigo fazer fora de casa... É fogo!
(E combustível altamente inflamável)
- É eu também não sou nenhum reloginho.
(Apesar do tique-taque ser audível)
- Aí, quando sinto que a coisa vem, não dá pra segurar.
(Mas interdite o local, minha senhora!)
- Ah, é melhor não segurar mesmo não. Vai que depois não dá mais conta...
(O que você quer dizer com “não dá mais conta”?)
- É menina, resolvi meu problema agora!
(E criou um outro enorme para a camada de ozônio)
- Fez muito bem.
(Não, de novo não!)
- Hihihihihi!
(Esse xixi não acaba?)
- Ai, menina, eu não consigo fazer fora de casa... É fogo!
(E combustível altamente inflamável)
- É eu também não sou nenhum reloginho.
(Apesar do tique-taque ser audível)
- Aí, quando sinto que a coisa vem, não dá pra segurar.
(Mas interdite o local, minha senhora!)
- Ah, é melhor não segurar mesmo não. Vai que depois não dá mais conta...
(O que você quer dizer com “não dá mais conta”?)
- É menina, resolvi meu problema agora!
(E criou um outro enorme para a camada de ozônio)
- Fez muito bem.
(Não, de novo não!)
- Hihihihihi!
(Esse xixi não acaba?)
29 de agosto de 2009
aula de flamenco
Esquerda! Salto, golpe, salto, salto, planta, virou! Direito! Planta, planta, golpe, salto, salto, virou...
Professora...
Sim?
Isso não faz o menor sentido. A vida inteira me disseram que o que um lado faz, o outro tem que fazer igual.
No flamenco as coisas são um pouquinho diferentes.
O que faz sentido pra mim é a lei da gravidade.
Como?
Meus dois pés esquerdos estão brigando com a planta e o salto do pé direito.
Sei...
E isso foi porque eu nem lembrei pra que lado os dois braços direitos vão ainda: se por dentro, por fora, de cima, de baixo ou de lado.
Calma, preste atenção que você consegue...
E ninguém comentou se eu devo girar as mãos e os dedinhos pra dentro ou pra fora neste dado ângulo.
Não se preocupe com isso agora...
Olha, eu não entendo como posso dar um pulinho com o salto do pé esquerdo levantado, sendo que o peso do corpo estaria para o lado direito e eu preciso voltar com a planta do pé direito imediatamente para fazer a troca para o golpe do pé esquerdo de novo cruzando por trás da perna direita e ainda finalizar com três saltos do referido pé direito.
Não racionalize tanto...
Eu não consigo.
Ai...
É que quando eu olho para o espelho tenho a leve impressão de que estou fazendo tudo ao contrário, entende?
Então não pense, apenas sinta o sapateado.
Professora...
Ahn?
Se eu pensar eu caio.
Professora...
Sim?
Isso não faz o menor sentido. A vida inteira me disseram que o que um lado faz, o outro tem que fazer igual.
No flamenco as coisas são um pouquinho diferentes.
O que faz sentido pra mim é a lei da gravidade.
Como?
Meus dois pés esquerdos estão brigando com a planta e o salto do pé direito.
Sei...
E isso foi porque eu nem lembrei pra que lado os dois braços direitos vão ainda: se por dentro, por fora, de cima, de baixo ou de lado.
Calma, preste atenção que você consegue...
E ninguém comentou se eu devo girar as mãos e os dedinhos pra dentro ou pra fora neste dado ângulo.
Não se preocupe com isso agora...
Olha, eu não entendo como posso dar um pulinho com o salto do pé esquerdo levantado, sendo que o peso do corpo estaria para o lado direito e eu preciso voltar com a planta do pé direito imediatamente para fazer a troca para o golpe do pé esquerdo de novo cruzando por trás da perna direita e ainda finalizar com três saltos do referido pé direito.
Não racionalize tanto...
Eu não consigo.
Ai...
É que quando eu olho para o espelho tenho a leve impressão de que estou fazendo tudo ao contrário, entende?
Então não pense, apenas sinta o sapateado.
Professora...
Ahn?
Se eu pensar eu caio.
6 de agosto de 2009
terra vermelha
Eu e Lili íamos todos os dias à venda do turco. Minha mãe o chamava de turco, palavra imediatamente replicada por mim, mas hoje tenho convicção de que tratava-se de um cidadão libanês. Portava um bigode vistoso – assim como sua rechonchuda filha – e apontava para nós suas olheiras enormes e o nariz adunco de seus antepassados. Íamos de bicicleta, umas bicicletinhas de criança pequena, velhinhas, meio desconjuntadas. Na terra vermelha das ruas sem calçadas, canteiros ou asfalto, sumíamos em nuvens de redemoinhos, que havia muitos naquela época. Manifestávamos nossa presença depois que a poeira baixava e assim éramos vistas, de tempos em tempos, como crias de sacis. Enfiávamos as mãozinhas imundas nos bolsos e puxávamos moedas: um cruzeiro com sorte, cinquenta centavos frequentemente. Então atravessávamos a loja escura, cheia de barris de madeira abarrotados de farinhas e grãos, desviávamos das caixas com legumes e verduras, e nos esgueirávamos em direção ao balcão à procura de doces.
O baleiro giratório do armazém do turco ainda rebenta em meus melhores sonhos. Dentro dele, balinha Malukinha de uva e menta, chiclete Ploc e Ping Pong, paçoquinha de rolha, doce de abóbora em forma de coração e de banana cremoso-duro, que vinha dentro de um potinho de casquinha de sorvete, com pazinha para comer. Também tinha maria-mole cor-de-rosa e amarela, que a Lili comia sempre, vindo exibir a língua em Technicolor. Pagávamos e ganhávamos as compras dentro de saquinhos como os de pão, só que bem pequenininhos.
Do outro lado da rua havia uma loja de animais. Nossa rotina diária consistia nisso: primeiro compromisso, doces na venda do turco e segundo, visita aos bichinhos. Gostávamos de afagar os coelhos e alimentar os porquinhos-da-índia com capinzinho colhido ali na frente - Brasília na década de setenta era pura terra e mato. Lá se vendia até pombos, até galinhas e pintinhos, até cágados em aquários! Aquilo era o paraíso para menininhas de sete anos. Mas tínhamos outros afazeres importantes a cumprir para a tarde.
Pular amarelinha riscada com giz de gesso que achávamos jogados nas obras – também havia obras pra todo lado –, e competíamos usando casca de banana em vez de pedrinhas. Brincadeira de imitar “As Panteras” da tevê e todo mundo queria ser a Kelly, que era uma só. Acompanhar as formigas e catar algumas para fazer experiências com álcool de limpeza ou simplesmente descobrir se elas sabiam nadar. Subir na árvore de seiva que dava nódoa na roupa, o mais alto que pudéssemos – a Lili subia mais que eu. Fazer bolo de areia e flores no parquinho que o porteiro do prédio construiu sozinho, com o carinho de um confeiteiro.
Andávamos aquilo tudo sozinhas. Nossos pais nunca souberam por onde brincávamos. Sei só que no começo da noite ouvia um assobio característico ou um grito da janela do quarto andar: “Maaaarcya! Sooobe!” Despedía-me da Lili, deixando tacitamente acordada a agenda para o dia seguinte. E ao entrar em casa tal e qual uma escultura de barro, era obrigada a pular direto na banheira cheia d'água, que sempre ficava vermelha, vermelhinha, como a terra da minha infância.
O baleiro giratório do armazém do turco ainda rebenta em meus melhores sonhos. Dentro dele, balinha Malukinha de uva e menta, chiclete Ploc e Ping Pong, paçoquinha de rolha, doce de abóbora em forma de coração e de banana cremoso-duro, que vinha dentro de um potinho de casquinha de sorvete, com pazinha para comer. Também tinha maria-mole cor-de-rosa e amarela, que a Lili comia sempre, vindo exibir a língua em Technicolor. Pagávamos e ganhávamos as compras dentro de saquinhos como os de pão, só que bem pequenininhos.
Do outro lado da rua havia uma loja de animais. Nossa rotina diária consistia nisso: primeiro compromisso, doces na venda do turco e segundo, visita aos bichinhos. Gostávamos de afagar os coelhos e alimentar os porquinhos-da-índia com capinzinho colhido ali na frente - Brasília na década de setenta era pura terra e mato. Lá se vendia até pombos, até galinhas e pintinhos, até cágados em aquários! Aquilo era o paraíso para menininhas de sete anos. Mas tínhamos outros afazeres importantes a cumprir para a tarde.
Pular amarelinha riscada com giz de gesso que achávamos jogados nas obras – também havia obras pra todo lado –, e competíamos usando casca de banana em vez de pedrinhas. Brincadeira de imitar “As Panteras” da tevê e todo mundo queria ser a Kelly, que era uma só. Acompanhar as formigas e catar algumas para fazer experiências com álcool de limpeza ou simplesmente descobrir se elas sabiam nadar. Subir na árvore de seiva que dava nódoa na roupa, o mais alto que pudéssemos – a Lili subia mais que eu. Fazer bolo de areia e flores no parquinho que o porteiro do prédio construiu sozinho, com o carinho de um confeiteiro.
Andávamos aquilo tudo sozinhas. Nossos pais nunca souberam por onde brincávamos. Sei só que no começo da noite ouvia um assobio característico ou um grito da janela do quarto andar: “Maaaarcya! Sooobe!” Despedía-me da Lili, deixando tacitamente acordada a agenda para o dia seguinte. E ao entrar em casa tal e qual uma escultura de barro, era obrigada a pular direto na banheira cheia d'água, que sempre ficava vermelha, vermelhinha, como a terra da minha infância.
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