26 de outubro de 2006

o monstro da lagoa negra










Ele saiu das águas esbaforido. Um monte de gente correndo atrás, fugindo, gritando... Gente. Se não é nada fácil ser gente, imagine esse negócio de ser um monstro. É uma carga muito pesada para o indivíduo, entende? Meio elo perdido, meio anfíbio, meio popstar, o Monstro da Lagoa Negra... Tananammm (grave)... Tananammm (agudo)... A trilha sonora específica, toda a vez que aparece em cena... Pode causar traumas profundos.

Apesar de tudo, a patinha escamosa de unhas cortantes tinha polegar opositor. Muito humano isso. É bem verdade que não sabia exatamente como fazer uso dele. Acabou sufocando uns brasileiros no filme, coitado, acho que só queria fazer amigos, dar um abraço apertado. O povo brasileiro é tão caloroso... Mas o Monstro da Lagoa Negra – Tananammm (grave)... Tananammm (agudo)... – não tem sentimentos. Como todo o que é diferente, foi julgado e condenado antes mesmo de saber que precisava se defender.

O erro do monstro foi se apaixonar – esse é o erro de todos os monstros! E bem por uma gringa, a mocinha do filme, logo ele, um monstro amazônico, verdinho, exímio nadador, cheio de grunhidos tropicais. A mocinha não sabia – nunca sabem – e nem queria saber, se o monstro estava valendo a pena. Não falava a língua dele, tapava os olhos, quebrava o eixo, se esgoelava, não percebia a grandeza de suas intenções. O monstro só queria ser amado.

A Lagoa Negra é o seu lar. Preso ali vive livre e feliz. Não precisa se importar com o que pensam dele. E quem invade seu mundo, tem que se apresentar verdadeiro.

Eu procuro entender o monstro. Quem é que, vez ou outra, não se sente um?

O Monstro da Lagoa Negra – Tananammm (grave)... Tananammm (agudo)... –, debaixo daquela fantasia, sou eu.

2 comentários:

fabiana disse...

ai, muito muito bom!
eu acho que você tem que escrever uma série - os monstros -
adorei!
beijos

Nanda disse...

Simplesmente genial!