10 de outubro de 2007

furada

Cheguei em cima das 11, um tantinho apreensiva assim. Afinal, fazia muito tempo que já não acreditava mais nessas coisas. Terapias alternativas, meditação transcendental, iridologia, abdução, sei lá mais o quê. Joguei tudo no mesmo saco. Sofismas. Nada zen me comove.

Agora estava ali, feito uma besta, descrente que nem cartesiano, na ante-sala decorada com aguinha jorrando na fontezinha de pedra, circulinho de yin-yang na parede, musiquinha new age tipo Enya de fundo, caixinha com areia e bolinhas de cristal pra desenhar imagens do subconsciente com o rastelinho. Ahhhh!

Tudo bem, eu queria provar pra mim mesma que poderia estar enganada. Esse negócio aí, criatura, vem de uma cultura milenar! Conhecimento de séculos, percebe? Deve fazer sentido... Pra alguém. Pior que isso seria a fisioterapia, os remédios pra dor. Até que gosto da minha tendinite, acho que é charmosinha, mas ela já estava ficando exibida demais. O medo de pagar um mico foi menor e, apesar de tudo, o plano de saúde estava pagando. Não o mico. A consulta. Talvez os dois.

Olhava para os lados, cruzava e descruzava as pernas, balançava os pés, conferia o relógio, “se demorar mais um minuto, voumembora”. Sim, mais um minuto e o ridículo que eu não queria sentir - mas berrava aqui dentro - ficaria insuportável.

E pareceu até que o escândalo tácito tinha sido ouvido. A terapeuta abriu a porta cinco segundos depois. Senhora bonita, loira, falava um português perfeito, muito diferente do velho chinês de barbas brancas até o pé que eu esperava encontrar. Dizia-se acupunturista.

Ela perguntou tudo da minha vida, feito homeopata. Será que vai diluir as agulhas em água numa proporção de um pra mil? Aí pediu pra ver meus pulsos, os dois juntos, e me mandou mostrar a língua. “Com prazer”. Lancei o olhar nas anotações e deu pra ver que ela escrevia “língua pálida e trêmula”. Pálida e trêmula? De músculo mais vigoroso do corpo humano, transformou-se num Pincher. Que queu tou fazendo aqui?...

Começou a tortura chinesa. “Dói?” Ai. “Dói?” Aaai... “Dói?” Aaaaaaiii!!! Descobri que tudo dói. Mas pensei que isso fosse culpa do ácido lático. Pega agulhinha e tuf! Nas costas. Depois outra, outra e mais outra. Umas dez. Vinte. Depois da oitava pontada perdi a noção. “Agora deita”. Deita? Como assim? Eu não sou faquir não, dona! “Não, não. As agulhas estão atravessadas. Pode vir”. Atravessadas, hein?... Ninguém tinha me falado sobre isso antes. Agora sei como São Sebastião se sentiu.

Deitada lá, com os eletrodos nos pés e nas mãos... Prrrrr... Tuc-tuc-tuc... Prrrrr... Tuc-tuc-tuc... Prrrrr... Tuc-tuc-tuc... Devia parecer um misto de Hellraiser com a noiva do Frankenstein.

Dizem que há quem relaxe – e durma! – enquanto fica ali todo espetado. Mas eu, furadinha de cima a baixo, com a insistência do BG de mantra nos ouvidos, claro, comecei a pensar besteira. E se esse prédio pega fogo? Eu estou aqui deitada de calcinha e sutiã, com agulhas até no crânio. Acho que vi um vídeo desses na Internet outro dia. Saio correndo pela porta desse jeito? Eu tenho sutiãs mais bonitos! E se as agulhadas atingem alguma artéria importante? Será que pode ser perigoso? Rolar uma hemorragia? E se esse aparelho aí entra em curto e me dá um choque? Qual será a voltagem desse bagulho? Ela não falou quanto tempo vou ter que ficar imóvel aqui!

Vinte e nove minutos e trinta e quatro segundos mais tarde, a terapeuta está de volta. Me livra dos eletrodos, dos fios, das agulhas todas, menos uma, dolorosamente descoberta na hora de vestir a blusa. Uuugh... Acho que a senhora esqueceu algo nas minhas costas... “Hihihihihi! É mesmo...” Hihihi. Aposto que uma ou outra devem estar cravadas embaixo da minha pele até hoje.

Para finalizar, sementinhas nas orelhas, fixadas com um esparadrapo cor da pele - não sei de quem - mais imperativo que Superbonder. “Aperte umas quatro vezes por dia. E só tire na próxima consulta”. Sim, senhora. Próxima consulta...

Saí do consultório me sentindo ridícula. Minhas orelhas latejavam e eu nem conseguia mais avaliar se alguém estava falando mal de mim ou não. Por via das dúvidas, mordi a gola da blusa com força. Nessa, quase esqueci o elevador e saí voando pela janela, como o Dumbo. Parecia que todo mundo estava sim, falando mal dos canteiros nas minhas orelhas.

Bem, dos males o menor... Tomara que sejam gérberas. São as minhas favoritas.

4 comentários:

fabiana disse...

ahhh, agulhinhas, tudo de bom!

Mefisto disse...

hahahahah! Morri de rir aqui.

Eu também tive tendinite, e muito séria. Parei de tocar piano por uns 6 meses. Tentei de tudo: muitos remédios, fisioterapia, comecei a cantar e quase desisti do piano. Não acredito muito nessas terapias alternativas também, mas como não aguentava mais ficar sem tocar piano, resolvi experimentar as tais agulhinhas. Não sei se foi coincidencia, mas comecei a melhorar já na segunda sessão. Saía relaxado de lá (sim, eu dormia super bem com agulhas desde os pés até o pescoço...e minhas cuecas à época não eram CKs) e até outras coisas começaram a melhorar. Coincidência ou não, foi ótimo.

Mas descobri algumas coisas estruturalmente erradas: posturas, forma de estudo do instrumento (tive que recomeçar o estudo do piano quase do início para 'desaprender' algumas coisas erradas), relação com o PC (mais especificamente o mouse, que até hoje me incomoda). A dor era tanta que só de ouvir música para piano eu já sentia dor. Hoje sou um homem feliz. (ui, me senti agora fazendo declaração pra reunião da herbalaifi :P

Bjos e espero que vc melhore logo, com ou sem acupuntura.

Marcya disse...

Nossa... Uma tendinite assim tão violenta para um pianista deve ser algo realmente trágico! Ainda bem que as agulhinhas foram boas pra você, te trataram com carinho... Minhas dores estão no começo, por isso abuso um pouco delas ainda. Às vezes sinto umas pontadas quando digito, ou desenho, ou escrevo. Já virei mezzo-canhota por isso. É que, felizmente, nasci assim meio gauche, com habilidades estranhas do lado esquerdo do corpo... :o)))
É o que salva (por enquanto).

Beijos, beijos!

Maíra Brito disse...

depois dessa, acho q vou tentar bionergética, rsrsrsrsrsrssss
bjossss