15 de outubro de 2006

gato mia

Hoje o gato amanheceu falando. Olhei pra ele e disse “gato não fala”, no que respondeu “quantas vezes preciso repetir que sou fêmea?” Quantas vezes? Várias vezes. Por favor, queira repetir várias vezes. Estou muito interessada em ouvir. Não é todo dia que a gente vê um gato falante. Desculpe. Gata. Por que você não disse isso antes?

Sempre chamei o gato de gato. Desde que o encontrei, lá se vão cinco anos e doze filhotes. Passamos poucas e boas juntos. Várias casas, apartamentos, viagens, brigas, temporadas na casa da mamãe, pisões no rabo, arranhões, miadaria no meio da noite, idas ao veterinário, ratinhos de brinquedo e de verdade, lagartixas, sumiços, bolas de pêlos, pêlos e mais pêlos, ronronares, toneladas de areia, espreguiçadas, manhas e dengues.

“Que é que você quer? Diga logo. Só não venha me dizer agora que é a minha consciência”. Ele disse “não, não sou a sua consciência. Sou a sua desculpa”. Droga de gato chato. Só podia ser gata. As fêmeas são tão existencialistas! Era só o que me faltava...

“Desculpa? Que desculpa?” – perguntei. “Você já tem tudo o que precisa pra ser só.” – respondeu o gato. “Toda vez que eu mio, escondida no escuro, você vem me encontrar. Me coloca no colo, brinca um pouco, se senta no sofá, calça os chinelos e voltar a assistir à tevê.” – continuou. “Mas você nem mia mais! Agora você fala!” – revidei. “Isso”, ele falou mesmo, “é pra você parar de me procurar. Deixar de tatear no nada conhecido das suas paredes, à procura do gato que, garanto, vai estar sempre aqui. No mesmo lugar.”


Olhei através da janela fechada. A tevê ligada, o computador no colo, hoje o telefone não tocou e eu também não toquei nele. O cinema que prometi a mim mesma se foi com as horas. Estou desarrumada e ainda não jantei. As luzes da casa continuam apagadas. Estou no escuro.

Gato mia.

3 comentários:

FilmStar disse...

fiquei devendo um telefonema, um programinha e uma balada, né?
passei o dia me desdobrando entre visita da mãe e festa de criança.
sorry, sorry...
e fale pra esse gato (essa gata) parar de dar uma de simone de beauvoir!
ehehehe
daqui a pouco estará até monologando!
ehehehe
bejinsssssssss

Hilda disse...

Gostei do teu gato, Marcya! Alás, gostei de todos posts publicados!
Parabéns pela escrita, pela sensibilidade e inteligência. bjs

Marcya disse...

Puxa, Hilda, muito obrigada... Volte sempre que quiser compartilhar do meu mau-humor. Um beijo pra você.