Mostrando postagens com marcador Estalactites e estalagmites. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Estalactites e estalagmites. Mostrar todas as postagens
12 de março de 2009
23 de novembro de 2006
o sorriso
Eu queria que o sorriso saísse
Mas ele não quer.
Está preso aqui
Em algum lugar entre o estômago e o coração,
Agarra-se nas alças dos intestinos
Empurra os pulmões com os pés
E não sai de jeito nenhum.
Quando peço, com toda a educação,
Ele berra lá de dentro pra mim
Eu não vou, eu não vou, eu não vou!
Parece até criança de birra
De tanto que me desafia e ofende esse sorriso.
E eu que me sentia vazia
Descobri que o tenho aqui, preso e choroso,
Contrariando a vontade da alegria que ele deveria ser
E o ofício de se mostrar assim
Para quem o quiser ou pedir.
Mas ele não quer.
Está preso aqui
Em algum lugar entre o estômago e o coração,
Agarra-se nas alças dos intestinos
Empurra os pulmões com os pés
E não sai de jeito nenhum.
Quando peço, com toda a educação,
Ele berra lá de dentro pra mim
Eu não vou, eu não vou, eu não vou!
Parece até criança de birra
De tanto que me desafia e ofende esse sorriso.
E eu que me sentia vazia
Descobri que o tenho aqui, preso e choroso,
Contrariando a vontade da alegria que ele deveria ser
E o ofício de se mostrar assim
Para quem o quiser ou pedir.
15 de outubro de 2006
gato mia
Hoje o gato amanheceu falando. Olhei pra ele e disse “gato não fala”, no que respondeu “quantas vezes preciso repetir que sou fêmea?” Quantas vezes? Várias vezes. Por favor, queira repetir várias vezes. Estou muito interessada em ouvir. Não é todo dia que a gente vê um gato falante. Desculpe. Gata. Por que você não disse isso antes?
Sempre chamei o gato de gato. Desde que o encontrei, lá se vão cinco anos e doze filhotes. Passamos poucas e boas juntos. Várias casas, apartamentos, viagens, brigas, temporadas na casa da mamãe, pisões no rabo, arranhões, miadaria no meio da noite, idas ao veterinário, ratinhos de brinquedo e de verdade, lagartixas, sumiços, bolas de pêlos, pêlos e mais pêlos, ronronares, toneladas de areia, espreguiçadas, manhas e dengues.
“Que é que você quer? Diga logo. Só não venha me dizer agora que é a minha consciência”. Ele disse “não, não sou a sua consciência. Sou a sua desculpa”. Droga de gato chato. Só podia ser gata. As fêmeas são tão existencialistas! Era só o que me faltava...
“Desculpa? Que desculpa?” – perguntei. “Você já tem tudo o que precisa pra ser só.” – respondeu o gato. “Toda vez que eu mio, escondida no escuro, você vem me encontrar. Me coloca no colo, brinca um pouco, se senta no sofá, calça os chinelos e voltar a assistir à tevê.” – continuou. “Mas você nem mia mais! Agora você fala!” – revidei. “Isso”, ele falou mesmo, “é pra você parar de me procurar. Deixar de tatear no nada conhecido das suas paredes, à procura do gato que, garanto, vai estar sempre aqui. No mesmo lugar.”
Olhei através da janela fechada. A tevê ligada, o computador no colo, hoje o telefone não tocou e eu também não toquei nele. O cinema que prometi a mim mesma se foi com as horas. Estou desarrumada e ainda não jantei. As luzes da casa continuam apagadas. Estou no escuro.
Gato mia.
Sempre chamei o gato de gato. Desde que o encontrei, lá se vão cinco anos e doze filhotes. Passamos poucas e boas juntos. Várias casas, apartamentos, viagens, brigas, temporadas na casa da mamãe, pisões no rabo, arranhões, miadaria no meio da noite, idas ao veterinário, ratinhos de brinquedo e de verdade, lagartixas, sumiços, bolas de pêlos, pêlos e mais pêlos, ronronares, toneladas de areia, espreguiçadas, manhas e dengues.
“Que é que você quer? Diga logo. Só não venha me dizer agora que é a minha consciência”. Ele disse “não, não sou a sua consciência. Sou a sua desculpa”. Droga de gato chato. Só podia ser gata. As fêmeas são tão existencialistas! Era só o que me faltava...
“Desculpa? Que desculpa?” – perguntei. “Você já tem tudo o que precisa pra ser só.” – respondeu o gato. “Toda vez que eu mio, escondida no escuro, você vem me encontrar. Me coloca no colo, brinca um pouco, se senta no sofá, calça os chinelos e voltar a assistir à tevê.” – continuou. “Mas você nem mia mais! Agora você fala!” – revidei. “Isso”, ele falou mesmo, “é pra você parar de me procurar. Deixar de tatear no nada conhecido das suas paredes, à procura do gato que, garanto, vai estar sempre aqui. No mesmo lugar.”
Olhei através da janela fechada. A tevê ligada, o computador no colo, hoje o telefone não tocou e eu também não toquei nele. O cinema que prometi a mim mesma se foi com as horas. Estou desarrumada e ainda não jantei. As luzes da casa continuam apagadas. Estou no escuro.
Gato mia.
13 de agosto de 2006
a múmia

A múmia sou eu. Imóvel, enfaixada, inerte, parada, dura, seca, imutável, inflexível. Que saqueadores vão achar a minha tumba, para despertar-me depois de séculos de sono irresoluto? Não tem maldição. Só agradecimentos. A múmia quer acordar.
Os rituais dos antigos e os filmes de Hollywood já prenunciavam essa volta, sequiosa pela luz de Amon-Ra.
E eu, a múmia menina, cheirando a perfumes belíssimos e ornada de jóias de ouro e flores esculpidas, cercada de um séquito de estátuas de pedra, sonho com lá fora.
Anubis faz caretinhas de lamúrias, enquanto Nefertiti diz: “Calma, minha filha... Temos a eternidade!...”
Cansei da eternidade, rainha. Do fundo da minha cripta escura, espio com inveja os felizes efêmeros banhados pelo dia.
Espero encontrá-los no Vale dos Reis.
Assinar:
Postagens (Atom)