13 de dezembro de 2007

carta para o papai noel

Caro Papai Noel,

Eu nunca acreditei em você. Desculpe falar assim tão secamente, mas é a verdade. Eu era uma criancinha de quatro anos esclarecida, materialista e pragmática. Isso já prenunciava minhas convicções ateístas da idade adulta. Não se magoe. É apenas uma constatação. E preciso confessar ainda que só resolvi escrever esta carta num momento soporífero, de insônia terminal e pestanas entreabertas. Gosto do Natal só porque é feriado – os aeroportos ficam lotados. Sim, claro, porque come-se bem - uma comilança desenfreada. E tem a parte dos presentes - um desespero nas lojas.

Não se preocupe; eu não vou fazer nenhum pedido. A minha loucura não chega a tanto. E, afinal, já disse, nunca acreditei mesmo em você - mas que mulher deveria acreditar nos homens, não é? Além de tudo, meus desejos são pura retórica, enfeitados com bolas coloridas de pessimismo e estrelinha de descrença no topo. Vou vagando pelo deserto da existência, simplesmente, sem enxergar luzes que me guiem os sentidos até uma salvação.

Pedidos são para os que têm fé, essa misteriosa. Não tenho a menor pretensão de atendimento metafísico a curto prazo, muito menos até o clímax das comemorações natalinas – mesmo porque, se nesse tempo algum pedido meu se realizasse, já poderíamos considerá-lo um verdadeiro milagre. Eu disse milagre? Ora, senhor Noel...

Perdoe-me novamente, mas ainda não sei ao certo como devo tratá-lo, talvez por falta de experiências anteriores nesta arte surrealista de dirigir-me a entidades impalpáveis – se bem que até agora o Brad Pitt também tem sido bastante impalpável para mim. Nunca pensei em que categoria o senhor – preciso chamá-lo assim? – talvez pudesse se enquadrar. Na dos santos católicos? Na das peças publicitárias para vender refrigerante? Na das figuras mitológicas? Na dos velhinhos excêntricos? Na dos seres sobrenaturais das datas comemorativas (no que é acompanhado de perto pelo Coelhinho da Páscoa)?

Enfim... Seja qual for seu pronome de tratamento, de antemão me sinto ridícula, a investir nesse diálogo solitário entre desacreditados. Não são só as cartas de amor que produzem esse efeito. Mas tenho a desculpa onírica do sono que me ronda e por isso, a esta hora da noite, me dou o direito de escrever o que quiser.

Não vou pedir mais desculpas. Sei bem o quanto erro todos os dias, da mesma forma que tenho consciência de que as crianças supostamente desobedientes são punidas com crueldade: ganham de presente de Natal o desprezo do bom velhinho, não é isso? Estou cansada de ameaças.

Liberte-se também, Papai Noel. Esquece essa obrigação. Desmancha essa ruga feia da vingança. Se livra desse fardo a carregar nas costas por toda a eternidade. Você vai se sentir muito melhor. Pode acreditar em mim.

Com afeto,
Marcya

3 comentários:

fabiana disse...

eu também nunca acreditei nessa balela de velho de pijama vermelho com um saco de presentes nas costas. mas, como boa garota, fingi que acreditava pra agradar os adultos. elas adoravam ver meu fingimento! na minha infância, eu fui o papai noel de muita gente grande...só eu que fiquei sem.
vamos raspar a barba do velhote e colocar ele no sol de fio dental! fim aos velhos paradigmas!

Tião disse...

Muito bonito esse seu discurso de fossa sessentista, mas o fato é que, embora eu não seja papai noel, já comprei seu presente. aliás, seus presentes. são simples, são pobres, mas são limpinhos (e são DOIS). um deles talvez até lhe faça rir, o que já não será pouco. ficou curiosa?

Mefisto disse...

O último ano que acreditei em papai noel foi aquele em que me fizeram largar o bico em troca de uma bicicleta. :)

...e neste ano não vai ter presente pra ninguém. Que chatice esse negócio de TER que comprar presentes porque é Natal. Eu gosto de dar presentes quando eu QUERO dar presentes. :)

Beijo,
com saudade. :)