7 de julho de 2008

lembranças de um outro dia frio

Quando abri os olhos, estava tudo escuro. O despertador dos anos oitenta era implacável e o tilintar estridente acordaria a casa inteira se eu não fosse rápida. A velha cama de molas enferrujadas rangeu e chacoalhou por trinta segundos com um único movimento do meu braço. Recorde mundial.

Queria, mas não podia tomar banho. A essa hora ainda não havia água na torneira e os barris imensos de plástico azul – nem Deus sabe o que havia ali antes - estavam vazios desde ontem à noite. Coloquei uma roupa limpa, porém muito surrada, e saí sem tomar café. Não tinha. Era preciso fazer essa refeição na escuela.

A casa onde estava hospedada ficava em Vedado, um bairro de classe média alta pós-decadente, de aparelhos de tevê com antenas enferrujadas e geladeiras certeiramente responsáveis pelo buraco na camada de ozônio do planeta. As construções eram lindas, moderníssimas para quem viveu em 1958, mas dessa época em diante não viram mais uma pintura, uma restauração, uma reforminha.

Estava ali na mesma rua de familiares de Raul Castro e, diante do prédio deles, um homem vestido de verde postava guarda diuturnamente. Ao atravessar, sempre ficava na dúvida se deveria olhar para ele ou não.

O movimento era pouco àquela hora. Mesmo assim, as avenidas já cheiravam forte a óleo e fumaça, mais que em qualquer outro lugar do mundo onde estive. Alguns Cadillacs desmoronados faziam um barulho alarmante, de enxame de marimbondos enlouquecidos, mas os motoristas não pareciam muito preocupados com isso.

Eu precisava caminhar um bom trecho sozinha por entre as calles até o ponto do ônibus amarelo da década de 50 – carinhosamente chamado de “la guágua” - que me levaria à escuela. No trajeto, passava bem em frente ao suntuoso cemitério Cristóbal Colón, orgulho para a população cubana, onde jaziam alguns dos grandes heróis da revolução – ou alguma coisa deles. Sentia arrepios.

Afinal, aquele era um dia frio – sim, creiam, também faz frio em La Habana. E, muito diferente do meu distante planalto central, a cidade era tão úmida que às vezes acreditava na possibilidade real de cortar a massa de ar com uma faca. Parecia até que andava dentro d’água, vencendo a resistência do meio a cada passo.

Todos os dias, no trajeto, um sujeito qualquer me atirava uma cantada boba. Depois vinha outro. E mais outro. Nem lembro quantos – isso é muito comum por lá. Meus brios fermentavam, ainda que soubesse que os elogios dos rapazes não tinham nada de sincero. Todos queriam deixar a ilha um dia. E, para eles, fora a aventura de atravessar as 90 milhas que os separavam de Miami numa bóia de pneu de caminhão, um bom casamento era o jeito mais curto e agradável para isso. Pouco me importava. Que continuassem com aquelas declarações de fulminante paixão eterna a cada esquina. Faziam-me bem.

Na calçada, uma mulher negra, de coque encarapitado bem no topo da cabeça, vendia uns bolos de cremes e confeitos multicoloridos, pronta para sair correndo ou enfiá-los dentro de uma sacola a qualquer momento. No mesmo rumo, se não me engano, outros me ofereceriam ovos e pães, com a discrição própria a quem sabe que faz algo ilícito. “Huevos? Pan?” Apontavam para a comida escondida dentro do casaco. Já estava ficando com fome.

Ao chegar ao ponto da guágua, mesmo cedo como fui, a fila já estava grande, enorme, gigantesca! Esse era um costume dos nativos, do qual não havia como escapar. Pensando bem, as filas faziam parte do cotidiano de todas as sociedades contemporâneas. Por que não aqui? Consegui até um lugar para sentar. Em cima da roda, mas me sentei. Voltaria para casa no fim da tarde, escurecendo outra vez, para mais uma noite de molas e sonhos em Havana.

4 comentários:

Marcya disse...

Nem sei porque lembrei dessas coisas agora. Talvez pelo frio, talvez pela escuridão da manhã tão madrugada na qual abri os olhos hoje, talvez pela saudade de viver novamente dias tão instigantes como aqueles, cheios de histórias, sentidos e novidades. Minha vida anda uma espera no escuro, no fim da fila, sem a certeza de que o ônibus vai passar.

Maíra Brito disse...

talvez não passe o ônibus.
mas quem sabe um conversível?
um concorde, pra um lugar de sonhos, bem longe?
":)

Marcya disse...

Vou esperar mais um pouquinho, né?
:o)

Fabi disse...

é! e também, se cansar de esperar, vá a pé! que também dá várias boas história! lindo lindo!