6 de agosto de 2009

terra vermelha

Eu e Lili íamos todos os dias à venda do turco. Minha mãe o chamava de turco, palavra imediatamente replicada por mim, mas hoje tenho convicção de que tratava-se de um cidadão libanês. Portava um bigode vistoso – assim como sua rechonchuda filha – e apontava para nós suas olheiras enormes e o nariz adunco de seus antepassados. Íamos de bicicleta, umas bicicletinhas de criança pequena, velhinhas, meio desconjuntadas. Na terra vermelha das ruas sem calçadas, canteiros ou asfalto, sumíamos em nuvens de redemoinhos, que havia muitos naquela época. Manifestávamos nossa presença depois que a poeira baixava e assim éramos vistas, de tempos em tempos, como crias de sacis. Enfiávamos as mãozinhas imundas nos bolsos e puxávamos moedas: um cruzeiro com sorte, cinquenta centavos frequentemente. Então atravessávamos a loja escura, cheia de barris de madeira abarrotados de farinhas e grãos, desviávamos das caixas com legumes e verduras, e nos esgueirávamos em direção ao balcão à procura de doces.

O baleiro giratório do armazém do turco ainda rebenta em meus melhores sonhos. Dentro dele, balinha Malukinha de uva e menta, chiclete Ploc e Ping Pong, paçoquinha de rolha, doce de abóbora em forma de coração e de banana cremoso-duro, que vinha dentro de um potinho de casquinha de sorvete, com pazinha para comer. Também tinha maria-mole cor-de-rosa e amarela, que a Lili comia sempre, vindo exibir a língua em Technicolor. Pagávamos e ganhávamos as compras dentro de saquinhos como os de pão, só que bem pequenininhos.

Do outro lado da rua havia uma loja de animais. Nossa rotina diária consistia nisso: primeiro compromisso, doces na venda do turco e segundo, visita aos bichinhos. Gostávamos de afagar os coelhos e alimentar os porquinhos-da-índia com capinzinho colhido ali na frente - Brasília na década de setenta era pura terra e mato. Lá se vendia até pombos, até galinhas e pintinhos, até cágados em aquários! Aquilo era o paraíso para menininhas de sete anos. Mas tínhamos outros afazeres importantes a cumprir para a tarde.

Pular amarelinha riscada com giz de gesso que achávamos jogados nas obras – também havia obras pra todo lado –, e competíamos usando casca de banana em vez de pedrinhas. Brincadeira de imitar “As Panteras” da tevê e todo mundo queria ser a Kelly, que era uma só. Acompanhar as formigas e catar algumas para fazer experiências com álcool de limpeza ou simplesmente descobrir se elas sabiam nadar. Subir na árvore de seiva que dava nódoa na roupa, o mais alto que pudéssemos – a Lili subia mais que eu. Fazer bolo de areia e flores no parquinho que o porteiro do prédio construiu sozinho, com o carinho de um confeiteiro.

Andávamos aquilo tudo sozinhas. Nossos pais nunca souberam por onde brincávamos. Sei só que no começo da noite ouvia um assobio característico ou um grito da janela do quarto andar: “Maaaarcya! Sooobe!” Despedía-me da Lili, deixando tacitamente acordada a agenda para o dia seguinte. E ao entrar em casa tal e qual uma escultura de barro, era obrigada a pular direto na banheira cheia d'água, que sempre ficava vermelha, vermelhinha, como a terra da minha infância.

7 comentários:

O Maltrapa disse...

Muito lindo esse texto, neguinha!... A Brasília que marcou sua infância é também a minha.
Só faltaram referências àquele cara que vendia guarda-chuvinhas de açucar, às bolinhas de gude e ao escorregar das crianças por debaixo dos bloco após as tormentas que aqui caíam...

Beijos...

O Maltrapa

Marcya disse...

De bolinha de gude eu nunca brinquei! Nem de escorregar na chuva debaixo do bloco, porque o filho do vizinho tinha quebrado os dois dentes da frente assim. Mamãe não deixava. Do cara dos guarda-chuvinhas eu lembro, mas, sendo um personagem bissexto em minha memória, que só aparecia de tempos em tempos, acho que não poderia alçá-lo à categoria de "compromisso" no listar de minha lotadíssima agenda infantil. De qualquer forma, tenho certeza de que ele ficaria honrado com sua deferência, se soubesse o que andamos escrevendo nesses nossos blogs por aí...
:o)))

Fabi disse...

ai, que delíciaaaaaaaaaaaa - um sopro de nostalgia, sem dúvida! adorei!

Silka disse...

Que criança traquina e feliz!

Mefisto disse...

Caramba! Estava perdendo bons textos por aqui nesta minha ausência!
Minha infância 1000 km longe daqui foi parecida com a sua. Essa imagem de comprar os doces no baleiro giratório, subir em árvores, ouvir o pai chamando a noite pra voltar pra casa. Muita saudade de tudo isso! Mas também tinha: andar de bicicleta, ficar olhando o céu, deitado no muro do vizinho, que era baixinho, procurando discos voadores, etc. :)

Beijos com saudades!

Alexandre Correia disse...

Olá Marcya!

Ao ler as suas recordações de infância fiz também uma viagem ao passado da minha, afinal tão parecida, mas acabei despertando para a realidade de hoje e lamento que a minha filha mais nova (tem dois anos) não possa viver assim a sua infância. Mas agora os tempos são outros e só de pensar que as criança são a cereja em cima do bolo no tráfico humano, não a largo da mão um momento quando andamos na rua. Sorte a nossa, azar o dela...

Alexandre Correia

Marcya disse...

É uma pena mesmo, que as crianças brasilienses sejam privadas dessa liberdade que tivemos, do contato com a nossa terra vermelha... Obrigada pela visita, Alexandre, e volte sempre!