22 de janeiro de 2009

morango e chocolate

Assisti a "Morango e Chocolate" e fiquei fascinada com aquele lugar. Agora eu precisava tomar sorvete de morango e chocolate na Coppelia, senão meu filho poderia nascer com essa cara. De morango, de chocolate, de sorvete ou de Coppelia. Vivia um desejo alucinado de encarar a fila, sentar naquela mesona enorme e torcer para que os sabores do dia fossem morango e chocolate. É que ali não tinha querer. Eles serviam o sabor que tivesse no dia.

Anos depois, fui até lá.

Nessa tal fila, tinha de tudo. Todo o tipo de gente estranha: putas de sapatos de plataforma, crianças de uniforme de escola, trabalhadores braçais, avós de alguém, turistas branquelos de óculos escuros, estudantes fazendo farra. Era tanta gente que dava mais de uma volta no quarteirão. O último podia enxergar o primeiro do seu lado. Alguns levavam suas próprias colheres, o que me fez pressentir que talvez lá dentro todo mundo compartilhasse dos mesmos talheres, como manda um bom comunismo, conjugando babas das mais diversas origens.

Mesmo sem colher pessoal, fiquei lá, por quase duas horas, tostando no sol. Ainda dei essa falta de sorte, de ir num dia de intenso calor. Mas havia todo o charme envolvente da situação, que me dava forças para insistir, ainda que suada e queimada.

Entravam na sorveteria grupos de vinte, se não me engano. O negócio era como uma corrida. As pessoas sentavam, os sorvetes eram servidos e havia um tempo para comer, senão tiravam as taças antes que terminassem. Pelo menos a brincadeira saia barata. Duas bolas custavam um peso cubano, ou seja, praticamente nada.

Quando estava bem perto, algo como a sessenta pessoas do início da fila, alguém saiu dizendo que só tinha sabor baunilha. Foi uma decepção terrível. Baunilha?! Pensei muito e resolvi desistir. Depois de todo o esforço, não aguentava mais aquele sol inteiro só pra mim, um sacrifício desproporcional à descorada baunilha. Voltaria, num dia frio, chegaria mais cedo, sei lá.

Foi quando ouvimos que a barraquinha que havia em frente à Coppelia vendia o mesmo sorvete. Só que ali era mais caro, aliás muito caro, para os turistas das excursões que tinham pressa e não podiam esperar na fila. Havia colheres individuais e era permitido também escolher os sabores. Tinha até casquinha. Resolvemos pagar – com dólar – pra ver. Ou degustar. Morango e chocolate, claro.

E era ruim, viu? Muito ruim. Péssimo. Era sorvete feito com água; nada de leite, nananina. O gosto era genuinamente artificial. Na verdade, não consegui distinguir muito bem um sabor do outro. Parecia tudo igual. Acho que foi, sem muito titubeio, um dos piores que já tomei na vida. Depois de quase um ano vivendo na ilha, eu deveria ter imaginado que seria assim.

A fila nunca mais me pegou. Mas todas as vezes que passava em frente à Coppelia, me sentava e ficava olhando para ela. Aquela gente toda esperando por morangos e chocolates que não iam vir. Descobri que os enganados mentem, espalham que o sorvete é ótimo, uma iguaria, como numa peça de mau gosto, para o ouvinte ficar encantado e as ganas o transportarem um dia para aquele lugar exótico, com sabores cubanos que nunca existiram de verdade em Cuba, como num filme de cinema.

2 comentários:

Fabi disse...

será que Cuba foi Atlântida, e nunca Cuba?

Marcya disse...

Acho que você acertou em cheio. E o Fidel deve ter umas brânquias escondidas atrás das orelhas.